Vida e obras de Ariano Suassuna

Por João Antônio Ramos* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Gostava dos causos contados por ele bem como sua críticas; como sempre, ele tinha o humor e uma expressão gentil de nos fazer rir e gargalhar. Portanto, o seu humor genial, de certa maneira, sobrepunha-se à sua crítica, por vezes reacionária, notabilizando-o como um crítico humorista da cultura brasileira, assim também como ficou marcada toda a sua obra. Caracterizados, essencialmente, pelo humor corrosivo e farsesco, seus textos, por meio da crítica aos costumes e aos desvios de conduta de indivíduos que ocupam uma posição hierárquica significativa na sociedade, conseguiam reverberar para além do riso momentâneo, uma mescla de erudito e popular para criticar a realidade nordestina e brasileira. Nesse quesito especial me faz lembrar muito de Gregório de Matos, importante nome na nossa literatura, a cuja biografia dediquei-me em 2001.

 

Calderón de La Barca: Dramaturgo e poeta barroco espanhol nascido em 17 de janeiro de 1600, responsável por moldar o modelo teatral barroco do século XVI e começo do século XVII, tendo iniciado a segunda onda da Era de Ouro do teatro espanhol. Produziu mais de cento e dez comédias, oitenta autos sacramentais, loas, e entremés, e outras obras menores, como o poema Canta e Cala

 

O teatro de Ariano Suassuna impressiona pela capacidade que o autor apresenta de mesclar o erudito e o popular, seguindo, de forma coerente, as linhas mestras do Movimento Armorial, cujo objetivo era “criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro”. Além disso, pode-se perceber no seu texto dramatúrgico a rica herança da cultura ibérica e do cristianismo, principalmente aquele ligado à Igreja Católica. Suas raízes estão fincadas na tradição cuja fonte encontra-se lá nos autos da Idade Média, no humanismo do teatro de Gil Vicente e, no século XVII, no teatro barroco de Calderón de La Barca. Tanto nos textos do autor português quanto nos do autor espanhol os elementos popular e religioso têm uma presença muito forte. E como ele constantemente costumava dizer: “Recebi uma influência enorme de Cervantes e de vários autores espanhóis, inclusive de Calderón de La Barca. Talvez até maior que a de Cervantes foi a de Calderón”.

 

Esses autores são, na verdade, sua matriz estética, e com eles o autor de O Santo e a porca mantém um diálogo constante. No entanto, é na cultura popular nordestina que Ariano Suassuna sedimenta as bases da sua dramaturgia. Mas isso não quer dizer, como alguns críticos – felizmente poucos – que ele tratava da cultura brasileira de maneira regional, em geral o nordeste brasileiro. Dono de apurada formação cultural, tratava do assunto com toda a propriedade e talvez a confusão surja pelos personagens por ele criados e hoje conhecidos mundialmente.

 

 

Biografia

Ariano Villar Suassuna nasceu no dia 16/06/1927  no Palácio da Redenção, na Paraíba (PB). Oitavo filho dos nove irmãos, seu pai, João Urbano Pessoa de Vasconcellos Suassuna, era governador da Paraíba. Sua mãe chamava-se Rita de Cássia Dantas Villar. Três anos depois, então deputado federal, o pai do autor é assassinado no centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ). A fim de evitar inimigos, a família muda-se constantemente. Em 1933, mudam-se para Taperoá, no sertão dos Cariris Velhos da Paraíba.

 

João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, pai do escritor Ariano Suassuna, foi um político brasileiro filiado ao Partido Republicano da Paraíba. Quando da morte de João Pessoa, político cujo nome viria a ser dado à capital do estado da Paraíba (até então conhecida também como Paraíba), com quem tinha desavenças políticas, o ex-presidente paraibano foi assassinado no Rio de Janeiro.

De 1934 a 1937, inicia seus estudos na escola pública e entra para o internato do Colégio Americano Batista, no Recife. Após concluir o curso Clássico, começa o curso de Direito. Segundo o próprio Ariano, a escolha do curso de Direito foi por falta de opção, e ele mesmo não tinha a menor vocação para tal.

Escreveu sua primeira peça teatral em 1947, Uma mulher vestida de sol, com a qual ganhou o prêmio Nicolau Carlos Magno. Continua escrevendo para teatro, sempre elogiado, até que, em 1955, escreve um de seus inúmeros sucessos, Auto da Compadecida, texto baseado em três narrativas do Romanceiro nordestino. Casa-se, em 1957, com Zélia de Andrade Lima, por quem, mesmo aos 87 anos, ainda se declarava apaixonado e com a qual teve 6 filhos e 13 netos.

Em 1958, começa a escrever Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. Estuda Filosofia na Universidade Católica de Pernambuco. Já famoso, funda, ao lado de Hermilo Borba Filho, o Teatro Popular do Nordeste.

 

Palácio da Redenção: O prédio histórico localizado em João Pessoa, Paraíba, foi construído em 1586 por missionários jesuítas recém-chegados à região. De início, servia de residência para os membros da Companhia de Jesus vindos ao Brasil com a missão de catequizar os residentes. Em 1771, passou a abrigar o Governo da Paraíba. Foi tombado em 1980.

Em 1964, publica O santo e a porca. Membro fundador do Conselho Nacional de Cultura; Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco, começa a articular o Movimento Armorial, que defenderia a criação de uma arte erudita nordestina a partir de suas raízes populares. Em 1970, conclui o Romance d’A Pedra do Reino.

A Pedra do Reino sai em agosto de 1971. No ano seguinte, ganha o Prêmio Nacional de Ficção do Instituto Nacional do Livro. Eleito para ocupar a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, toma posse no dia 09/08/1990.

Em São José do Belmonte (PE), no ano de 1993, realiza-se em maio a primeira festa da Pedra do Reino, uma cavalgada na qual os participantes, posteriormente, passariam a usar trajes como os descritos no romance.

Em 1995 é nomeado secretário estadual da Cultura de Pernambuco (1994-1998) pelo então governador Miguel Arraes. Mais tarde, é secretário de Assessoria do governador Eduardo Campos até abril de 2014. Estreia, em 1996, no Teatro do Parque, no Recife, a série Grande cantoria, aula espetáculo que reúne violeiros e repentistas. O biografado, ao violão, cantou um romance de inspiração sebastianista que aprendera na infância.

 

 

Curiosidades

 

  • A peça A história de amor de Romeu e Julieta é publicada no suplemento Mais! do jornal Folha de São Paulo, em 1997. No ano seguinte, participa do lançamento do CD A poesia viva de Ariano Suassuna.
  • O Auto da Compadecida é exibida em quatro capítulos pela Rede Globo de Televisão, em 1999.
  • Em 2000, escritor recebe o título de doutor honoris causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
  • Em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil, apresenta no canal GNT o programa Folia Geral, sobre as origens do Carnaval. Toma posse, no dia 9 de outubro, na cadeira 35 da Academia Paraibana de Letras.
  • Ao completar 80 anos de idade, em 2007, o autor foi homenageado em todo o Brasil pela grandeza de sua trabalho.
  • Em 2002, Ariano Suassuna foi tema de enredo no carnaval carioca na escola de samba Império Serrano; em 2008, foi novamente tema de enredo, desta vez da escola de samba Mancha Verde de São Paulo. Já em 2013, sua mais famosa obra, o Auto da Compadecida, foi o tema da escola de samba Pérola Negra de São Paulo.
  • O assassinato de João Suassuna ocorreu como desdobramento da comoção posterior ao assassinato de João Pessoa, governador da Paraíba e candidato a Vice-Presidente do Brasil na chapa de Getúlio Vargas. Ariano Suassuna atribuía à família Pessoa a encomenda do assassinato de seu pai, João, ao pistoleiro Miguel Laves de Souza, que atirou na vítima pelas costas, no Rio de Janeiro.
  • O próprio Ariano Suassuna reconhecia que o assassinato de seu pai, João Suassuna, ocupava posição marcante em sua inquietação criadora. No seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, destacou:

“Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo, oferecendo-lhe esta precária compensação e, ao mesmo tempo, buscando recuperar sua imagem, através da lembrança, dos depoimentos dos outros, das palavras que o pai deixou.”

 

Suas obras

Teatro:

  • Uma mulher vestida de sol (1947), Recife, Imprensa Universitária, 1964. Especial da Rede Globo de Televisão, 1994.
  • Cantam as harpas de Sião (ou O desertor de Princesa) (1948). Peça em um ato. Inédita.
  • Os homens de barro (1949). Peça em 3 atos. Inédita.
  • Auto de João da Cruz (1950). Prêmio Martins Pena. Peça inspirada em três folhetins da literatura de cordel. Inédita.
  • Torturas de um coração (1951). Peça para mamulengos.
  • O arco desolado (1952).
  • O castigo da soberba (1953). Entremês popular em um ato.
  • Auto da Compadecida (1955). O desertor de Princesa (reescritura de Cantam as harpas de Sião), 1958. Inédita.
  • O casamento suspeitoso (1957). Encenada em São Paulo pela Cia. Sérgio Cardoso. Recife, Igarassú, 1961. Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, junto com O santo e a porca, 8ª edição, 1989.
  • O santo e a porca, imitação nordestina de Plauto (1957). Recife, Imprensa Universitária, 1964. Medalha de ouro da Associação Paulista de Críticos Teatrais. Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, junto com O casamento suspeitoso, 8ª edição, 1989.
  • O homem da vaca e o poder da fortuna (1958). Entremês popular.
  • A pena e a lei (1959). Peça em três atos. Premiada no Festival Latino-Americano de Teatro em 1969. Rio de Janeiro, Agir, 1971, 4ª ed., 1998.
  • Farsa da boa preguiça (1960). Estampas de Zélia Suassuna. Peça em três atos. Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, 2ª ed., 1979. Episódio de Terça Nobre, Rede Globo de Televisão, 1995.
  • A caseira e a Catarina (1962). Peça em um ato. Inédita.
  • As conchambranças de Quaderna (1987). Estréia no Teatro Waldemar de Oliveira, Recife, 1988.
  • A história de amor de Romeu e Julieta. Suplemento “Mais”, da Folha de São Paulo”, 1997.

 

Ficção:

  • A história de amor de Fernando e Isaura. Romance inédito, 1956.
  • Romance d`A pedra do reino e o príncipe do sangue vai-e-volta. Romance armorial-popular. Nota de Rachel de Queiroz. Posfácio de Maximiano Campos. Rio de Janeiro, Borsoi, 1971. 2ª ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1972. Adaptação teatral por Romero e Andrade Lima, 1997.
  • As infâncias da Quaderna. Folhetim semanal do Diário de Pernambuco, 1976-77.
  • História d`O rei degolado nas caatingas do sertão / Ao sol da Onça Caetana. Romance armorial e novela romançal brasileira. Com estudo de Idelette Muzart F. dos Santos. Rio de Janeiro, José Olympio, 1977.
  • Fernando e Isaura (1956). Recife, Bagaço, 1994.
  • A todas essas obras, acrescentam-se ainda: O pasto incendiado (1945-70). Livro inédito de poemas; Ode. Recife, O Gráfico Amador, 1955; Coletânea de poesia popular nordestina; Romances do ciclo heróico. Recife, Deca, 1964; O Movimento Armorial. Recife, UFPe, 1974; Iniciação à estética. Recife, UFPe, 1975; A Onça Castanha e a Ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre-docência em História da Cultura Brasileira). Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFPe, 1976; Sonetos com mote alheio. Recife, edição manuscrita e iluminogravada pelo autor, 1980; Sonetos de Albano Cervonegro. Recife, edição manuscrita e iluminogravada pelo autor, 1985; Seleta em prosa e verso. Estudos, comentários e notas do Prof. Silviano Santiago. Rio de Janeiro, José Olympio / INL. 1974 (coleção Brasil Moço);
  • Poemas. Seleção, organização e notas de Carlos Newton Júnior. Recife, Universidade Federal de Pernambuco / Editora Universitária, 1999; CD – Poesia viva de Ariano Suassuna. Recife, Ancestral, 1998.

 

 

Suas obras foram traduzidas:

  • Para o alemão: Das Testament de Hundes oder das Spiel von Unserer Leiben Frau der Mitleidvollen (Auto da Compadecida). Tradução de Willy Keller St. Gallen / Wuppertal. Edition diá, 1986.
    Der Stein des Reiches oder die Geschichte des Fursten vom Blut des Geh-und-kehr-zuruck (Romance d’A Pedra do Reino e o píncipe do sangue do Vai-e-Volta). Tradução e notas de Georg Rudolf Lind. Sttutgart, Hobbit Presse/Kllett-Cotta, 1979, 2a ed., 1988.
  • Para o espanhol: Auto de la Compadecida. Adaptação e tradução de José María Pemán. Madri, Ediciones Alfil, 1965.
    El anto y la chancha (O santo e a porca). Tradução de Montserrat Mira. Buenos Aires, Losangue, 1966.
    Para o francês: Le jeu de la Miséricordieuse ou Le testament du chien (Auto da Compadecida). Tradução de Michel Simon. Paris, Gallimard, 1970.
    La Pierre du Royaume: version pour européens et brésiliens de bom sens (Romance d’A Pedra do Reino). Tradução de Idelette Muzart Fonseca dos Santos. Paris, Editions Métailié, 1998.
  • Para o holandês: Her testament van den hond (Auto da Compadecida). Tradução de J.J. van den Besselaar. Nederlandse, Nos Leekenspel, Bussum, 1966.
  • Para o inglês: The rogue’s trial (O santo e a porca).Tradução de Dillwyn F. Ratcliff. Berkeley/ Los Angeles, University of California Press, 1963.
  • Para o italiano: Auto da Compadecida. Tradução de L. Lotti. Forli, Nuova Compagnia, 1992.
  • Para o polonês: História o milosiernej czyli testament psa (Auto da Compadecida). Tradução de Witold Wojciechowski e Danuta Zmij. Dialog. Rok IV Pazdziernik 1959, NR 10 (42), pp. 24-64.

 

 

*João Antônio Ramos é autodidata em pesquisas nas áreas de História e Literatura. Graduado pela USCS em administração de empresas é autor de vários livros, ensaios e artigos, entre os quais A história da literatura em mil versos, da MGP Editora/SP. Funcionário público e blogueiro, trabalha atualmente em projeto de História do Grande ABC, sob o título de Guia Cronológico de História. Sua última publicação é A Gênese Psicológica do Romantismo, pela CBE/RJ.

Adaptado do texto “Ariano Suassuna (1927-2014): erudito e popular”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 57