Vida e obra do doutor Macedinho

Resgate da vida e obra daquele que, sem sabermos, está presente em nós.

Por J. A. Ramos* | Adaptação web Caroline Svitras

Um dos objetivos deste artigo é resgatar a vida e obra daquele que é, sem dúvida, um dos fundadores do romance no Brasil e, certamente, um dos principais responsáveis pela criação do teatro no país – Joaquim Manuel de Macedo, nome que não pode ser relegado ao esquecimento.

No entanto, antes de iniciarmos a biografia do nosso Acadêmico, seria prudente traçarmos um panorama do Brasil de sua época. Em 1832, logo após a independência do Brasil e do reinado de D. Pedro I (1822-1831), o País viu sua unidade territorial ser ameaçada em meio à eclosão de uma série de movimentos e rebeliões, na sua maioria de cunho separatista, que colocavam em cheque a própria integridade física da nação. Havia, pois, a necessidade urgente de se formular uma explicação do País que mantivesse sua extensa unidade territorial e que, ao mesmo tempo, fortalecesse o processo de centralização político-administrativa do Estado monárquico. Isso era imperativo para a casa real.

Portanto, em 1838, surge, por iniciativa da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional [SAIN], o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro [IHBG], na então capital do Império.

O Instituto foi pensado nos moldes de uma academia, semelhante às do Iluminismo europeu. Tendo como projeto traçar a gênese da nacionalidade brasileira, o IHGB tinha por finalidade “coligir, metodizar e guardar” documentos, bem como escrever a “história nacional como forma de unir” a nação brasileira. Então, o IHGB seria o lugar de memória da educação nacional. Vejamos a proposta feita pelo então presidente da Província do Rio de Janeiro, Manuel José de Sousa França:

 

“Parece conveniente que se autorize o governo a mandar imprimir, à custa dos cofres públicos, algumas obras estrangeiras, que, por melhores, mais clássicas e populares, fossem havidas; e que o diretor das escolas primárias e o da Escola Normal se encarreguem de traduzir, a fim de serem distribuídas não somente pelos professores públicos e particulares da província, como também pelas autoridades e pessoas que delas pudessem fazer bom uso.”

A sugestão acima mencionada revela que, mesmo após a vinda da família real portuguesa para o Brasil (1808) e a instalação da Imprensa Régia por D. João VI, a carência de manuais didáticos em língua portuguesa era fato notório e preocupante para alguns nomes da inteligência nacional.

Neste sentido, o IHGB promove um concurso para a escolha de um projeto de escrita da História Nacional, com o tema abaixo e cujo vencedor foi o naturalista alemão Karl Friedrich Philipp Von Martius.

 

“ Como se deve escrever a História do Brasil.”

Revue des Annales é uma conceituada revista acadêmica francesa criada pelos historiadores franceses Marc Bloch (1886-1994) e Lucien Febvre (1878-1956), da Universidade de Estraburgo. Tinha como destaque novas proposições acerca da Teoria da História, as quais alterariam profundamente a concepção de análise histórica, originando a “Escola dos Annales”, que incorporou outros campos do conhecimento humano, como a Antropologia, a Sociologia, a Linguística, a Estatística e a Economia, ao estudo da História.

A partir desse trabalho, o tema da miscigenação das três raças formadoras do povo brasileiro (a indígena, a negra e a branca) passa a ser bastante recorrente no pensamento social e na produção historiográfica nacional, sendo conteúdo obrigatório dos manuais didáticos de diferentes autores, antevendo inclusive os autores e mentores de “Revue des Annales”.

Na tarefa de construção da memória nacional, o Instituto passa a empreender e incentivar visitas em arquivos estrangeiros, com a finalidade específica de coletar documentos para se escrever a História do País.

Aqui, surge o nosso acadêmico esquecido, JOAQUIM MANUEL DE MACEDO, o Doutor Macedinho, que será agora devidamente resgatado.

 

“Entre as senhoras, há um crime que não se perdoa; é o crime da superioridade aclamada e feliz.”

 

Joaquim Manuel de Macedo nasceu no dia 24 de junho de 1820 no então município fluminense de São João de Itaboraí, cidade onde realizou seus estudos elementares.

Concluído o estudo básico, foi enviado para o Rio de Janeiro, capital do Império, para realizar os estudos preparatórios ao ingresso na Escola de Medicina. Antes mesmo de concluir o curso de Medicina, Macedo ficaria conhecido por publicar seu primeiro romance, A Moreninha.

Esse romance é considerado o primeiro grande best-seller literário nacional. Lançado em setembro de 1844, esgotou rapidamente os mil exemplares. Para conseguir tal façanha, Macedo usou uma solução engenhosa, pioneira das vendas domiciliares de nosso século. Mal apanhou os exemplares na Tipografia Americana, encarregou alguns escravos de vendê-los de porta em porta pela charmosa Rio de Janeiro. Com os volumes enfiados num cesto, como se fossem apetitosas guloseimas, lá partiam os improvisados vendedores, percorrendo os sobrados do centro, da Cidade Nova, de São Cristóvão, os palacetes do Catete e de Botafogo. Foi um sucesso, completado pela consagração da crítica.

Com uma linguagem simples, a obra de Macedo representava todo o esquema e desenvolvimento dos romances do início das nossas letras. Tramas fáceis, descrição de costumes da sociedade carioca, suas festas e tradições, pequenas intrigas de amor e mistério, um final feliz com a vitória do amor. Assim, nascia a sua prosa de ficção brasileira. O seu primeiro romance A Moreninha, que teve grande aceitação, tornou-o o autor mais lido de sua época, trazendo-lhe fama e fortuna imediatas.

Poeta e teatrólogo de grandes recursos, Macedo produziu inúmeros trabalhos literários nesses dois gêneros, além de uma vasta coleção de romances que o colocaram entre os melhores e mais fecundos prosadores brasileiros.

Além de todas essas atividades intelectuais, Macedo ainda destacou-se como professor do Imperial Colégio Pedro II, no qual foi nomeado em abril de 1849, tendo sido o primeiro professor responsável pela cadeira de História do Brasil, criada em 1858. Foi professor das princesas D. Isabel e D. Leopoldina.

Mas a despeito do prestígio já alcançado, o incansável Doutor Macedinho, influenciado pela obra História Geral do Brasil, de 1854, do historiador e membro-fundador do IHGB, Francisco Adolfo Varnhagen, redigiu: Lições de História do Brasil, de 1861 a 1863, para uso dos alunos do Imperial Colégio Pedro II, e depois escreveu Lições de História do Brasil, em 1865, para uso das escolas de Instrução Primária.

Com Varnhagen e Macedo, nasceu a verdadeira História do Brasil, que, como era de seu propósito, era única e objetivava legitimar o estado monárquico em seu processo de centralização política e se diferenciava da produção historiográfica do IHGB, que refletia a posição de seus membros – um grupo formado pela aristocracia rural, portadora de títulos nobiliárquicos, vinculada ao poder, e por pseudointelectuais, cujas ideias eram fundamentadas em uma tradição “fabricada” e imposta.

 

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*João Antônio Ramos é autodidata em pesquisas nas áreas de História e Literatura. Graduado pela USCS em administração de empresas. É autor de vários livros, ensaios e artigos, entre os quais A história da literatura em mil versos, da MGP Editora/SP. Funcionário público e blogueiro, trabalha atualmente em projeto de História do Grande ABC, sob o título de Guia Cronológico de História. Sua última publicação é “A Gênese Psicológica do Romantismo”, pela CBE/RJ.

Conhecimento Prático – Literatura Ed. 54