Veja como a arte atua na psique

A importância que a arte desempenha na sociedade é colossal. A arte introduz cada vez mais a ação da paixão; rompe o equilíbrio interno, modifica a vontade em um sentido novo, formula para a mente e revive para o sentimento aquelas emoções, paixões e vícios que sem ela teriam permanecido em estado indefinido e imóvel.

Por Selma Inês Campbell* | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Quando escrevi meus livros minha finalidade era levar o conhecimento e a reflexão além dos limites de meu corpo físico. Tornar possível o acesso em vários lugares simultaneamente. Eles vão onde não estou.

 

Quando se fala em literatura é comum pensar que se trata de poesia, contos, crônicas, novelas, histórias infantis. Esta ideia restritiva da palavra está equivocada. Notícias em jornais, artigos em revista, livros didáticos também são gêneros literários. Apenas as finalidades é que são distintas. Enquanto contos como os dos irmãos Grimm ou aquelas histórias que se tornaram filmes de Disney “aparentemente” foram criados para entreter as crianças, e novelas e crônicas para adultos, jornais para informar, certos livros como os didáticos são escritos para formar, esclarecer…

 

Digo aparentemente porque acredito que podem servir para transmitir valores, trabalhar emoções, despertar interesses, fazer refletir, formar opiniões etc. Vigotski levanta a questão da relação da reação estética com todas as reações humanas e investiga o significado da arte no sistema geral do comportamento humano e para resolver esta questão precisamos estar munidos de alguma concepção teórica geral.

 

Tolstói desenvolve a teoria do contágio segundo a qual o sentimento do autor é transmitido pela arte ao leitor, ao ouvinte ou espectador. A arte, do ponto de vista do conteúdo, seria boa ou má de acordo com os sentimentos que suscita. Esta teoria se mostrou falsa e o critério do contágio deve ser rejeitado, pois o estado psicológico do leitor, do ouvinte ou espectador influenciaria em sua reação com relação à arte, classificando-a como boa ou má.

 

 

A teoria do contágio se limitaria a ampliar o número de pessoas a ter o mesmo sentimento em relação à arte apreciada que teve o seu autor. “Se um poema que trata da tristeza não tivesse outro fim senão contagiar-nos com a tristeza do autor, isto seria muito triste para a arte.” (Vigotski, p.307). O leitor, o ouvinte ou o espectador escolheria apenas aquele tipo de arte que lhe transmitisse [por contágio] os melhores sentimentos e quem escolhesse diferente disto seria considerado desajustado.

 

A literatura, assim como a filosofia, pode servir também para transmitir conceitos éticos como em meu livro Uma História Puxa Outra, composto de 13 minicontos “de assombração”, todos contendo uma “moral da história”. Também pode servir para analisar conceitos e pontos de vista: alguns classificam este tipo de literatura como sobrenatural ou paranormal, outros como superstição e outros chamam de imaginação. Outro detalhe é que algo assombroso não quer dizer necessariamente que causa medo, e sim espanto.

 

Sobre a intenção do autor e a percepção do leitor, apresento um comentário recebido: “Caríssima Selma Inês, li o livro e gostei muito da forma como construiu e escreveu os contos. O seu jeito de narrar é muito bom porque ele fisga a atenção do leitor. Isso é o que há de melhor para o público ao qual se destina esse livro. Pois, eles querem emoção e suspense. E com esse gênero você oferece o ‘plus’ do sobrenatural e do realismo fantástico, que mexe com a imaginação deles. Enfim, tendo alguma experiência com outras obras de literatura infanto-juvenil, creio que seu livro poderá conquistar o interesse dos profissionais da área da educação. Ele tem chance de vir a ser adotado na rede escolar. Sempre observei que um número expressivo de leitores, na faixa etária que é o foco do livro, procura esse gênero.”

 

Formando crianças leitoras

 

Resta uma questão: um filme, uma peça teatral, uma música, um quadro, não serão em sua essência literatura?

Usaremos, então, o termo genérico arte. Não é por acaso que, desde a remota Antiguidade, a arte tem sido considerada como um meio e um recurso da educação, isto é, como certa modificação duradoura do nosso comportamento e do nosso organismo.

 

A arte deve sistematizar ou organizar o sentido social e dar solução e vazão a uma tensão angustiante. Ela surge como instrumento na luta pela existência e não se pode admitir nem a ideia de que o seu papel se reduza a comunicar sentimentos e que ela não implique nenhum poder sobre esse sentimento.

 

Todo o valor aplicado da arte acaba por reduzir-se ao seu efeito educativo, e todos os autores que percebem uma afinidade entre a pedagogia e a arte veem inesperadamente o seu pensamento confirmado pela análise psicológica.

 

Deste modo, passamos ao último problema de que nos ocupamos, isto é, ao efeito prático e vital da arte, ao problema do seu sentido pedagógico.

 

A arte consiste num dispêndio tempestuoso e explosivo de forças, num dispêndio de psique, numa descarga de energia. Sendo por si mesma uma explosão e uma descarga, ainda assim a arte efetivamente estrutura e ordena os nossos dispêndios psíquicos, os nossos sentimentos. Surge a necessidade de descarregar de quando em quando a energia não utilizada, dando-lhe vazão livre para equilibrar a balança com o mundo. Essas descargas de energia pertencem à função biológica da arte.

 

Incentivando a leitura por meio dos quadrinhos

 

Freud considera a arte como um meio de conciliar os dois princípios hostis — o princípio de prazer e o princípio de realidade. A arte é uma técnica social do sentimento, um instrumento da sociedade através do qual incorpora ao ciclo da vida social os aspectos mais íntimos e pessoais do nosso ser.

 

A refundição das emoções fora de nós realiza-se por força de um sentimento social que foi objetivado, levado para fora de nós, materializado e fixado nos objetos externos da arte, que se tornaram instrumento da sociedade.

 

A teoria do jogo, defendida por inúmeros filósofos, tem contra si a objeção de que não nos permite entender a arte como um ato criativo e a reduz à função biológica de exercitar os órgãos.

 

 

*Selma Inês Campbell é licenciada em Letras, Português e Literaturas pela UFF e autora dos livros Agressividade, agressão e violência no cotidiano escolar e Projeto político pedagógico – guia prático (Wak Editora).

Adaptado do texto “A importância da Literatura e outras artes”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 63