Umberto Eco para educadores

Como toda arte amplia a visão da realidade, a leitura e reflexão sobre suas inúmeras obras despertam em nós o desejo de desvendar aquilo que nos inquieta e nos atrai de algum modo à literatura e sua importância para a formação cidadã. O legado de Umberto Eco é uma contribuição que transcende a Literatura e a História. É poesia para a alma.

Por Simone Viana* | Foto: Eugenio Marongiu / Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 
Eco estudou filosofia e literatura na Universidade de Turim, de onde se tornou professor. Contrariando o desejo do pai de que se tornasse advogado. Em 1988 fundou o Departamento de Comunicação da Universidade de San Marino. Foi autor de importantes obras e ensaios acadêmicos, como Apocalípticos e Integrados (1964), que se tornou referência na literatura de cursos de comunicação. Seu último livro, Número Zero, foi lançado em 2015, obra em que analisava a queda de qualidade do trabalho nas redações e o fenômeno da internet.

 

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Alcançou grande projeção junto ao grande público após a publicação de seu best-seller O Nome da Rosa em 1980, seu primeiro romance, que o consagrou. Foi adaptado para o cinema em 1986. Ambientado em um mosteiro na Idade Média, pleno de erudição e intrigas, que foi um sucesso de vendas. Mostrava as tensões religiosas que cercavam a Europa medieval, particularmente a Igreja, utilizando uma série de referências históricas, um estudioso da obra de Santo Tomás de Aquino, cria a figura de Guilherme com muitos elementos do pensamento tomista, o personagem opõe seu método ao universo da alta Idade Média, assim como Santo Tomás de Aquino fizera. Na obra Eco, lembra que “o universo da alta Idade Média era um universo de alucinação, o mundo era uma floresta simbólica povoada de presenças misteriosas, as coisas eram vistas como o relato contínuo de uma divindade que passava o tempo lendo e redigindo.” Um universo de alucinação, ameaçado pela razão, é representado pela Abadia e sintetizado nos dois antagonistas de Guilherme: Bernardo Gui e Jorge de Burgos. Que fazem em prol da preservação da ideologia vigente, assim como o fizeram os mestres reacionários da Facilidade de Teologia em sua ação contra os frades mendicantes.

 
Segundo Eco, o livro “O Nome da Rosa” foi “de um lado fazer a ciência teológica da época aceitar Aristóteles”. Deste modo, o pensamento tomista permite à Igreja uma arquitetura teológica conciliável com o mundo natural, que não entra em conflito com o seu poder temporal, porque humanamente atenta aos valores naturais e é respeitadora do discurso racional. Sobre a alta Idade Média, ele diz: “foi ali que amadureceu o homem ocidental moderno. Na verdade, evidencia a luta da Igreja Medieval contra um tipo de palavra capaz de modificar a visão de mundo que ela precisava manter para sua própria sobrevivência”.

 

Foto: Divulgação

 
Toda a questão da interdição do livro de Aristóteles, e do riso, liga-se à ideologia da manutenção do poder através do discurso do medo. Sua lei é imposta pelo medo, sua ordem dele se nutre. “O Nome da Rosa” nos leva inclusive aos fatores que levaram ao surgimento da Reforma do século XVI, além das já mencionadas outras possibilidades de estudo; a transitar pela filosofia antiga, medieval e antever a moderna, expondo o poder da Igreja durante a Idade Média e a sua forte opressão. Abre perspectivas para buscar na literatura do período as fontes de compreensão dessa fase tão rica que é o período medieval.

 
Também escreveu obras como “O Pêndulo de Foucault” (1988) e “O Cemitério de Praga” (2010), além de ensaios “O Problema Estético” (1956), “O Sinal” (1973), “Tratado Geral de Semiótica” (1975), “Apocalípticos e Integrados” (1964), referência nos cursos de comunicação em todo o mundo.

 
Seu último livro, “Número Zero”, foi lançado em 2015 e critica o mau jornalismo, a mentira e a manipulação da história. Uma paródia sobre a função crítica do intelectual.

 

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“Essa é minha maneira de contribuir para esclarecer algumas coisas. O intelectual não pode fazer nada, não pode fazer a revolução. As revoluções feitas por intelectuais são sempre muito perigosas”, explicou o autor na época à agência de notícias EFE.

 
Eco disse, em julho de 2015, que as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falava apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

 

Foram diversas obras e escritos, de grande relevância para a Literatura e História, que contribuem no fortalecimento de nossas capacidades cognitivas com a possibilidade de inúmeras reflexões, a capacidade de criar uma realidade nova no contexto atual.

 

 

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Escreveu inúmeros textos sobre semiótica, assunto no qual era um especialista, além de estética medieval, linguística e filosofia. Entre seus notáveis trabalhos, estão “História da beleza” (2004) e “História da feiúra” (2007) – explorações sobre o que consideramos fisicamente atraente, ou repulsivo, e o porquê.

 
É importante ressaltar que no livro “Obra Aberta” (1962), Umberto Eco realizou um estudo sobre a semiótica, estabelecendo as diversas interpretações que podem ocorrer ao ouvinte através da obra artística.

 
Em 1964, a obra “Apocalípticos e Integrados” avaliava os efeitos da cultura de massa no mundo contemporâneo; elaborou a tese de que os “apocalípticos” seriam aqueles que defendiam uma arte erudita contra a influência da cultura de massas, ao passo que os “integrados” defendiam a massificação de produtos culturais como consequência positiva da democratização.

 

Foto: Antonio Nardelli / Shutterstock

 
“No fundo, o apocalíptico consola o leitor porque lhe permite entrever, sob o derrocar da catástrofe, a existência de uma comunidade de ‘super-homens’, capazes de se elevarem, nem que seja apenas através da recusa, acima da banalidade média, é conduzir a sociedade para a massificação e consequentemente tirar proveito com o lucro dessa alienação.” – acrescenta Eco.

 
Esses livros, somados a “A Definição da Arte” e a “A Estrutura Ausente”, são referências na compreensão da história da estética, sobretudo no que diz respeito às relações entre a filosofia da arte, a linguística e a comunicação de massa na segunda metade do século passado.

 

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Nos anos 70, dedicou-se ao estudo da semiótica, estabelecendo novas perspectivas sobre o assunto sob a influência de filósofos como John Locke, Kant e outros, abandonando as teorias semiológicas do linguista Ferdinand Saussure.
Obras importantes desse período: “As Formas do Conteúdo” (1971), “Tratado Geral de Semiótica” (1975), “O Super-Homem de Massa” (1978), um período que escreve sobre a literatura popular que desde o início do século XIX produziu heróis como o Conde de Monte Cristo, Rocambole, Tarzan ou James Bond.

 
Em 1989, lançou “O Pêndulo de Foucault”, que ele classifica como “um romance das ideias, sobre a relação entre razão e irracionalismo”. A trama é um plano conspiratório feito um pouco por diversão que sai do controle quando os personagens passam a ser perseguidos por uma sociedade secreta que os toma por detentores de um segredo dos Cavaleiros Templários.

 

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Em 1988, criou na Universidade de Bolonha o programa “Antropologia do Ocidente” a partir da perspectiva dos africanos e estudiosos chineses, onde foi desenvolvida uma rede transcultural internacional na África Ocidental, que resultou na primeira conferência em Guangzhou, na China em 1991, intitulada de “Fronteiras do Conhecimento”.

 

Arte: Alexandre Jubran

 
Na década de 90, Eco desenvolveu outros ensaios tais como “Os Limites da Interpretação” (1990), em que debate um mundo marcado pela pós-modernidade e pelo relativismo. E, nesse contexto, o que o pensador italiano diz é que “a obra continua a ser aberta mas as leituras não se podem todas equivaler”. Outras obras importantes desta época: “O signo de três” (1991), “Segundo diário mínimo” (1992), “Interpretação e Super interpretação” (1992), “Seis passeios pelos bosques da ficção” (1994), “Como se faz uma tese” (1995), “Kant e o ornitorrinco” (1997), “Cinco escritos morais” (1997), “Entre a mentira e a ironia” (1998) e “Em que creem os que não creem?” de 1999, em coautoria com Carlo Maria Martini.

 
Em 2000, publicou a obra “Baudolino”, a história de um cavaleiro que salva o historiador bizantino Niketas Choniates, durante o saque de Constantinopla na Quarta Cruzada. Niketas fica surpreso com Baudolino, por falar diversas línguas que ele nunca ouvira falar e seus questionamentos, se ele é ou não parte da cruzada, e quem ele é. A partir de então começa a narrar sua história de vida para Niketas.

 
Em 2004, publicou na Itália a obra “La misteriosa fiamma della Regina Lona”, conhecida no Brasil como “A Misteriosa chama da Rainha Loana”, cuja história acontece em Milão, em 1991, quando um vendedor de livros antigos e raros acaba perdendo a memória e começa a reconstruir sua história e para isso conta com a ajuda da família e de pessoas que o conheciam. Aos poucos vai se descobrindo a partir de livros juvenis e infantis, cadernos escolares, gibis e outros, e principalmente da edição de um livro repleta de gravuras dos anos 40, que mostra o panorama da Itália nesse período, o fascismo, a guerra, assim como referências literárias, históricas, filosóficas, religiosas e políticas.

 

Foto: Divulgação

 
Em 2010, Umberto Eco lançou “O Cemitério de Praga”, na obra, o avô do protagonista é um antissemita que acredita que os maçons, os templários e a seita secreta dos Illuminati estiveram por trás da Revolução Francesa.

 
No seu mais recente trabalho “Número Zero” (2015), o autor escreveu sobre as teorias conspiratórias no ambiente da redação de um jornal de Milão, em 1992. Um olhar sobre a informação no século XXI e a internet, campo de batalha das ideias, das notícias e das mentiras. Controlar a verdade do que aparece na rede era, para Eco, imprescindível. Eco descreveu a história de seu país a partir do fim da 2ª Guerra Mundial, destilando sua fina ironia sobre temas como a máfia, a corrupção e, claro, o jornalismo contemporâneo, alvo de crítica mordaz.

 

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Suas obras sempre proporcionaram e continuarão possibilitando a diversidade das ideias, a capacidade de reflexão e criticidade, a noção de flexibilidade e a tolerância para com o diferente.

 
Como toda arte amplia a visão da realidade, a leitura e reflexão sobre suas inúmeras obras despertam em nós o desejo de desvendar aquilo que nos inquieta e nos atrai de algum modo a literatura e sua importância para a formação cidadã. O legado de Umberto Eco é uma contribuição que transcende a Literatura, a História, é poesia para a alma, é a possibilidade de múltiplas interpretações da realidade em que vivemos.

 

 

 

*Simone Viana é professora do curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá, Pesquisadora em Cultura e História Regional.

Adaptado do texto “Umberto Eco:  “nem todas as verdades são para todos os ouvidos””

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 66