Umberto Eco e os quadrinhos

Por Álvaro de Moya | Adaptação web Caroline Svitras

Embora tendo sido dos primeiros a colocar os comics nos seus estudos em Obra Aberta e Apocalípticos e Integrados, analisando Peanuts e Superman (este, melhor enfocado em clave humorística por Quentin Tarantino, em Kill Bill 2, onde explica que o disfarce do herói é Clark Kent!), a relação de Eco com os quadrinhos é tumultuada.

 

Obra Aberta é o número 4 da Coleção Debates, da Editora Perspectiva, Apocalípticos e Integrados é o número 19. No meu livro Shazam!, número 26 da mesma coleção, eu escrevo nas páginas 90 e 91 uma contestação:

 

Umberto Eco em ‘A Estrutura Interativa nos Quadrinhos’ diz: ‘A maior diferença que distingue o apaixonado dos quadrinhos do não apaixonado é que o não apaixonado pode, por complacência, ler uma, duas, três páginas da história que lhe é proposta, afirmando tranquilamente que não encontrou nenhum prazer. Naturalmente, é o não apaixonado que tem razão.’.” Essa ideia falsa do distanciamento é covarde em relação aos quadrinhos. Basta mudá-la para um crítico musical da obra de Bach para ver como ela é absurda: “A maior diferença que distingue o apaixonado da música de Bach do não apaixonado é que o não apaixonado pode, por complacência, ouvir uma ou mais composições de Bach que lhe são propostas, afirmando tranquilamente que não encontrou nenhum prazer. Naturalmente, é o não apaixonado que tem razão.”

 

É difícil para um ex-seminarista fugir do sofisma (segundo o Michaelis, 1 Lóg Raciocínio capcioso, feito com intenção de enganar. 2 Argumento ou raciocínio falso, com alguma aparência de verdade. 3 pop Dolo, engano, logro).

 

Escrevendo sobre quadrinhos

 

Quando, nos anos 1960, o cineasta francês Alain Resnais fundou uma associação de estudos sobre as bandes dessinées, os italianos fãs de fumetti, imediatamente entraram na luta e, finalmente, os comics tiveram a bênção dos europeus. O Salão de Humor de Bordighera acolheu os defensores dos quadrinhos e Umberto Eco estava lá. Mas na ocasião em que a cidade de Lucca acolheu os Salões dos Comics para ser a Cannes dos Quadrinhos, Eco recusou a sua participação, com a assertiva absurda que num congresso de cardiologia, os doentes não participavam com os médicos. Ou seja, os estudiosos de comics são mais importantes que os artistas-autores.

 

Felizmente, em 2004, Eco publica seu livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, destacando uma imagem ícone de Brick Bradford, em que uma rainha do erotismo, no alto do seu trono, olha os leitores. Uma obra que lembra os filmes de Fellini, na qual Eco reencontra sua juventude. A purgação de seu amor pelos quadrinhos, como um apaixonado…

 

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*Álvaro de Moya é escritor e teórico especializados em HQs, professor universitário; idealizou a Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos mundial; homem de comunicação, criou conceitos e estruturas que revolucionaram a maneira de se fazer TV que perduram ainda hoje.