Uma leitura de Manoel de Barros

Ignorar as palavras para que se volte às origens

Por Andrei Ferreira de Carvalhaes Pinheiro* | Adaptação web Caroline Svitras

Reconhecido por seus “delírios frásicos”, como ele mesmo os chama, e pela sua proposta de retorno às origens, à qual se alia uma valorização da infância, Manoel de Barros explora o desconhecimento. Não se trata, contudo, simplesmente da negação do conhecimento, mas, de certa forma, de uma extrapolação do conhecimento formalizado. Este artigo visa, pois, a observar como se constroem esses elementos em um poema de Barros. Proponho que se analise, para esse fim, o poema XIX da primeira parte de O livro das ignorãças, originalmente publicado em 1994.

 

Que se parta, então, de algumas leituras de Manoel de Barros. Heyraud (2010, p. 145), por exemplo, aponta para uma ‘metamorfose’ nos poemas desse autor: Barros quer se desprender do estatuto habitual do homem. Para isso, suas frases deliram – o chamado “delírio frásico” –, de tal maneira que se quebre com a normalidade e que se dê vida, enfim, a um poeta.

 

Silva (2008, p. 54) também se volta à descrição de um estatuto cambiante quando diz que “as ‘invenções’ poéticas de Barros tangem a esfera do provisório para exercitar a dinâmica de ver o mundo em contínua transformação”. Além disso, a autora destaca o retorno às origens proposto por Manoel de Barros, que, valendo-se da memória, quer voltar à infância (Linhares 2006, apud Silva 2008, p. 59). A ‘escolha’ de Barros pela infância, certamente, não teria sido gratuita: de acordo com Linhares, é, em tese, ao longo da infância que a identidade e a personalidade do sujeito se delineiam. Dessa forma, o poeta, voltando ao seu ‘eu-criança’, poderia expressar não a sua identidade real/atual, mas a identidade que ele almeja ter.

 

Em relação ao desconhecimento, que é elemento central na poesia de Manoel de Barros, Azevedo (2003, p. 3) escreve que, em O Livro das ignorãças, o poeta se volta a momentos que antecedem as formações de conceitos e de sentidos; o poeta, portanto, retira a palavra do seu uso comum, dando-lhe sentido conforme o seu modo de ver o mundo, tal qual uma criança faria (Heyraud 2010, p. 144; Azevedo 2003, p. 4). Nas palavras de Rodrigues (2006, p. 11), como se complementassem as de Azevedo, “[a] poesia barreana, apreciada como exercício de transver o mundo, aposta na recombinação do código estabelecido a fim de libertá-lo da determinante documental e conseguir transcender a arrumação habitual”.

 

Recuperadas essas leituras e apresentados esses conceitos, parta-se, enfim, à análise do poema XIX que compõe “Uma didática da invenção”, primeira parte de O Livro das ignorãças.

 

XIX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa voltaque o rio faz por trás de sua casa se chama enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa.

Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

 

O poema se inicia por duas voltas: a volta feita pelo rio e a volta no tempo – essa última demarcada pelo passado em “fazia”. Na verdade, não parece tão produtivo dissociá-las, visto que — e isso se constrói ao longo do poema – falar de um rio que faz uma volta é mais significativo à poética de Manoel de Barros do que falar de um rio que corre reto. Ora, ‘fazer uma volta’ antecipa a ideia de um “mundo em contínua transformação” apontada por Silva (2008, p. 54); afinal, toda volta requer um movimento de ida. Isso remonta à ideia de volta no tempo demarcada no verbo “fazia”: ou agora, no tempo da narração, não há mais rio atrás da casa apresentada, ou já não se mora mais na mesma casa. De toda forma, faz-se o leitor imaginar um contraste entre um eu-atual e um eu-do-passado, como também apontado por Silva (2008, p. 51).

 

Em sequência, lê-se que o tal rio “era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás da casa”. Aqui, pela linguagem, ou seja, por um “delírio frásico”, cria-se um vidro diferente do vidro cotidiano; nas palavras de Azevedo (2003, p. 3), Barros busca “desabrigar a palavra de seu sentido usual”. Destaque-se, ainda, que ao vidro (re-)criado se atribui uma característica, a princípio, incomum: ele é mole. No entanto, para o poeta, tal característica cabe perfeitamente, porque ele, como defendem Azevedo (2003, p. 4) e Heyraud (2010, p. 144), se assemelha a uma criança. Nas palavras de Azevedo (op. cit.),

 

Chegar ao criançamento, por exemplo, soa como chegar a uma dimensão não de algo intocado, adormecido, mas que, ao contrário, está em movimento, em transformação, pois a criança para estar sempre nomeando as coisas por conta própria, às vezes chega mesmo a criar uma língua paralela à sua. Chegar ao criançamento seria, quem sabe, chegar ao um [sic] não lugar, a uma não coisa ainda.

 

Dessa forma, entende-se que o “vidro mole que fazia uma volta atrás da casa” não é o vidro com que estamos acostumados: pode se tratar de um ‘não vidro’, de algo cuja definição se mantém em formação. O fato de se remeter a um conceito nunca pronto se evidencia por, versos depois, se referir a esse mesmo vidro não como um “vidro mole”, mas como uma “cobra de vidro” – uma alternância possível, dado que se trata de uma “não coisa ainda”, como disse Azevedo. Novamente, o verbo delira.

Para ler na íntegra garanta a sua revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 72 clicando aqui!

*Andrei Ferreira de Carvalhaes Pinheiro é Licenciando em Letras: Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) E-mail para contato: andreifcpinheiro@gmail.com.

Fotos retiradas da  revista.