Um gênero alternativo: conheça as HQs poético-filosóficas

Por Matheus Moura |Imagens retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Controversas enquanto linguagem, as Histórias em Quadrinhos (HQs) ao longo dos anos foram vilipendiadas por uns, mal interpretadas por outros e, até mesmo, comparada à literatura por uma minoria. O certo é: os quadrinhos, enquanto linguagem, são tão originais e genuínos quanto a própria literatura em si. Não é para menos. A riqueza de temas, narrativas, histórias e modos de contá-las é enorme. Tanto que nessa mídia floresceu um gênero singular, com particular presença no panorama brasileiro, envolto em questionamentos e análises a respeito da condição humana. Por alguns é chamado de poético-filosófico, por outros de fantástico-filosófico. Mas uma coisa é certa: independente da nomenclatura, esse estilo de quadrinho instiga o pensar e vai além de simplesmente contar histórias.

 

Poético-filosófico se refere ao conteúdo e forma desse tipo de histórias em quadrinhos, sendo elas construídas com base na reflexão (filosófica) e, muitas vezes, no lirismo típico da poesia. Para autores como Edgar Franco, “(…) convencionou-se chamar de quadrinhistas poético-filosóficos, anexando a palavra filosófica ao rótulo, por verificar que a maioria deles também apresentava trabalhos com a pretensão filosófica de levar o leitor a refletir sobre alguma questão existencial, citando inclusive filósofos, além de poetas” (2001, p. 14). Já a designação fantástico-filosófica – cunhada por Henrique Torreiro no catálogo da exposição anual de fanzines e prozines de Ourense/Espanha, na década de 1990 – é devido à proximidade dos temas abordados, apesar de centrados no homem, correlacionados com a ambientação fantástica dessas HQs.

 

Para Elydio dos Santos Neto – pesquisador que realizou, em 2010, o pós-doutoramento As histórias em quadrinhos poético-filosóficas no Brasil: Origem e estudo dos principais autores numa perspectiva das interfaces educação, arte e comunicação –, entre o final da década de 1970 e o começo da de 1990, um singular grupo de quadrinhistas, no Brasil, começou a trabalhar com histórias que fugiam do padrão convencional de até então. Esses artistas foram: Flávio Calazans, Edgar Franco, Gazy Andraus, Henry e Maria Jaepelt, Wally Viana, Joacy Jamys, Luciano Irrthum, Eduardo Manzano e Antonio Amaral (SANTOS NETO, 2010, p. 25).

 

 

 

 

 

 

 

Características de definem o gênero

Como salientado, o que diferencia os quadrinhos poético-filosóficos dos quadrinhos tradicionais é o espírito vanguardista de seus autores. Muitos deles não se limitam a simplesmente contar uma história, experimentando e, em alto grau, explorando as possibilidades narrativas da linguagem das HQs. Esse experimentalismo pode ser desde o tema, passando pela estrutura narrativa, pela forma dos enquadramentos e chegando à apresentação da história na página. Porém, todas têm em comum levantarem questionamentos a cerca da existência humana em suas diferentes apresentações. Elydio dos Santos Neto define as três características básicas desses quadrinhos como: “1) A intencionalidade poética e filosófica”, ou seja, ser uma história necessariamente feita para incitar o leitor a pensar; “2) Histórias curtas que exigem uma leitura diferente da convencional”, num formato típico do trabalho nacional galgado na audácia e coragem de inovar, a criar soluções para a limitação de espaço físico – principalmente nos fanzines; “3) Inovação na linguagem quadrinhística em relação aos padrões de narrativas tradicionais nas histórias em quadrinhos”, tendo em seu bojo a experimentação vanguardista de forma e conteúdo (SANTOS NETO, 2009, p. 90).

 

Vale uma ressalva quanto ao uso do termo “filosófico” para identificar o gênero. Para Santos Neto, classificar esse tipo de HQ como filosófica serve para denotar o intuito reflexivo das obras (SANTOS NETO, 2010, p. 37-38) e não uma pretensão filosófica propriamente dita.

 

Com relação à parte gráfica, diferentemente dos quadrinhos tradicionais, os poético-filosóficos não seguem padrões estéticos rígidos, o que possibilita uma abertura maior de inovação estilística. Não raro o leitor comum, a primeira vista, estranha essa nova visualidade que lhe é apresentada, geralmente constituída de imagens em preto e branco, com traços “sujos” e “carregados”, ou mesmo, limpos e complexos em composição, com rica teia simbólica disposta pela página. Talvez por essa diferenciação visual, tema ácido e, por vezes, hermético, o leitor médio não se sinta atraído, uma vez que eles encaram os quadrinhos como entretenimento – em outra palavra, diversão – e ao não se depararem com essa expectativa lúdica, são repelidos.

 

A própria sequência narrativa desse tipo de quadrinho subverte a maneira tradicional de disposição de tempo-espaço na linguagem quadrinhística. Na linguagem dos quadrinhos, a sarjeta, ou requadro (o espaço que se forma entre os quadros), determina a ação e tempo discorrido na história. Por meio da disposição de cenas estáticas, diferentes (mas com pontos em comuns entre si), passamos a ler a sequência narrativa dada pela HQ. Em uma história convencional, ou seja, que segue os meios comuns de criação, essa passagem de tempo-espaço ocorre natural e linearmente.

 

História em Quadrinhos: Os elementos de uma linguagem

 

Já nos poético-filosóficos, não. De acordo com que McCloud (2005, p. 74), há várias maneiras de se ligar uma cena a outra, sendo elas classificadas em seis formas: 1) momento para momento; 2) ação para ação; 3) tema para tema; 4) cena para cena; 5) aspecto para aspecto; e 6) non-sequitur (MCCLOUD, 2005. p. 74). O pesquisador destaca ainda que nos quadrinhos ocidentais são três os tipos de transições mais usados: ação para ação, tema para tema e cena para cena. No Japão há uma tendência em se experimentar mais nesse sentido, criando uma variação muito maior de transições de cena. McCloud justifica esse fato à própria cultura Oriental, que se propõe com mais facilidade a observar e sentir minucias do dia a dia do que a Ocidental. Assim, a narrativa torna-se mais cadenciada, com tendências a expressividade e divagações dos autores. “A arte e a literatura do Ocidente não divagam muito. Nós temos uma cultura muito orientada pelo objetivo. Já o Oriente, tem uma tradição de obras de arte cíclicas e labirínticas. Os quadrinhos japoneses parecem herdar essa tradição, enfatizando mais o estar lá do que o chegar lá” (Idem, 2005, p. 81 – grifos do autor).

 

Se nos quadrinhos americanos e brasileiros em geral, a tendência é usar a transição de momento para momento; ação para ação; e cena para cena, os poético-filosóficos tendem a usar mais as sequências de aspecto para aspecto; e non-sequitur (MCCLOUD, 2005, p. 74). Isso significa que essas histórias costumam empregar de cortes mais semelhantes aos utilizados pelos orientais, principalmente os japoneses, que habitualmente criam longas sequências reflexivas com ênfase ao momento, ao clima e aos sentimentos suscitados pela paisagem/instante.

 

Apesar dessas características traçadas aqui, a intenção não é limitar ou determinar o gênero poético filosófico. Isso por haver a compreensão que o gênero extrapola tais conceitos pré-definidos, podendo histórias que estejam fora desses padrões encaixarem-se como tal. Um bom exemplo, para fechar essa questão, são os quadrinhos de Flávio Calazans, apontado antes, como o precursor do gênero. A maioria, dos trabalhos desse autor, em termos de apresentação gráfica, transita muito próximo do que pode ser tomado como quadrinho tradicional. Isso se deve ao modo expositivo de Calazans, o qual, diferentemente de Amaral, Andraus e Franco por exemplo, escolhe uma narrativa linear, com traços em linha clara, com figuras, humanas ou animais, bem definidas. A força, assim, de seus quadrinhos poéticos, encontra-se mais no argumento (ou poesia) do que na estética.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 51

Adaptado do texto “Quadrinhos poético filosóficos”