Toda Terça inicia uma linguagem única e inovadora entre os Romances

Em razão de certo virtuosismo e de estudada mistura de linguagens e artifícios literários já conhecidos, o romance contemporâneo não raro se esquiva de uma classificação

Por Roberto Sarmento Lima* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Toda terça-feira Laura ia ao consultório do seu psicanalista, na verdade muito mais para conversar e passar o tempo do que, de fato, entregar-se a uma sondagem da alma. Depois, ia a um cinema e assim esgotava a tarde, voltando, sozinha, para o seu apartamento. “Raramente”, como diz essa narradora, “ia à faculdade”; e, desse modo, preferia não fazer nada. Eis, em uma radiografia exemplar, o retrato dos anti-heróis contemporâneos. O nada, ao que parece, é a matéria privilegiada de hoje, mais ainda do que já fora um dia, quando Brás Cubas anunciou “a derradeira negativa”, o famoso não ter filhos a quem pudesse transmitir “o legado da nossa miséria”.

 

Acontece que o nada de hoje é diferente do nada de ontem. Hoje, não ter nada, não sentir nada, não fazer nada é até uma coisa muito positiva, quase um trunfo nas mãos. Arnaldo Antunes, numa canção de 1998, “Socorro”, jacta-se desse estado. Em outra época, porém, não ter nada ou não alcançar nada poderia até significar desconforto, perda ou desamparo. Agora, não mais:

“ Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir
(…)
Já não sinto amor nem dor
Já não sinto nada.”

O poeta ainda deseja “uma emoção pequena, qualquer coisa”, mas não demonstra desespero ao recortar esse eu lírico. Há, sim, certo alívio, motivo para achar graça nesse vazio, deixando-se levar por certo humor negro: “Socorro, alguma alma mesmo que penada / Me empreste suas penas”. Posso até dizer, sem medo, que Machado de Assis, muito particularmente ele, se antecipou ao destilar o cinismo que nossos contemporâneos desfiam. Afinal, nesse mercado de emoções, completa Antunes, “tem tantos sentimentos” que, sem dúvida, “deve ter algum que sirva”.
É assim também que se encontra Laura, que afirma: “A verdade é que, além da visita que fazia a Otávio toda terça-feira, na maior parte das vezes não fazia nada”. Persegue as frases dessa narradora um não esperar nada da vida, um não saber o que vai fazer nos próximos minutos. Eis alguns exemplos, tirados quase ao acaso, já que não é difícil achar no livro declarações desse tipo:

 

“Bom, saí de casa sem saber muito bem para onde, fui até Ipanema, fiquei dando voltas por Ipanema, depois, peguei um táxi até Botafogo. No início, eu não sabia muito bem o que iria fazer em Botafogo.”

 

Sempre com um ar de deboche e de frivolidade que não pretende esconder, muito pelo contrário, quer exibir:

 

“(…) o problema é esse, eu não sei ao certo se é isso que eu quero, quer dizer, pode até ser que eu queira agora, mas, amanhã, é possível que eu não queira mais, que eu queira outra coisa, como, por exemplo, fazer artesanato, ou ser trapezista de circo.”

 

A dança dos amantes

O livro de que estou falando desde o início deste ensaio é Toda Terça, da chilena naturalizada brasileira Carola Saavedra, publicado pela Companhia das Letras, em 2007. Por esse romance, como ocorre em vários da atualidade, sai-se da leitura com a impressão de que todos os acontecimentos narrados pertencem a essa atmosfera de esvaziamento da própria circunstância que se apresenta. Laura, a primeira narradora do romance, vive quase à deriva do desejo e do imprevisto.

 

O amor em diferentes formas nas poesias

 

A rotina dessa personagem, fragmentada em momentos bastante pontuais, mas sem solidez ou significado mais amplo, é tão somente um teste para a formação do próximo incidente, que ela, sem pompa e demonstração firme de interesse, segue e acompanha, num ziguezaguear contínuo, sem premeditar os passos dados. Foi num desses súbitos passeios pela cidade do Rio de Janeiro que Laura, ao entrar num cinema de shopping, depara com um desconhecido que lhe chama atenção. Otávio, o psicanalista, ao saber do fato, a faz dar uma declaração sobre o amor depois de lhe dizer, em tom professoral (não seria aqui a paródia do intelectual circunspecto e limitado por suas convicções teóricas um tanto convencionais?), que tal nobre sentimento assume várias faces, das quais uma seria o amor que se pode ter pela humanidade — ao que Laura retruca, com ironia:

 

“— Só que é bem mais fácil amar um desconhecido no cinema do que amar a humanidade.”

 

Essa definição do Amor não é certamente a sua definição clássica, muito menos romântica; nos dias que correm, combina bem com a frivolidade dos atos e tem a instantaneidade e velocidade da mesma luz que leva a imagem à tela. Daí não ser ociosa a menção constante ao cinema — lugar onde se dá a fisgada amorosa e, ao mesmo tempo, imagem que faz nascer a metáfora das vivências pessoais. Como se a vida tivesse de ter a mesma profundidade de uma tela de cinema ou tivesse de se confundir com uma página de livro. Aliás, o amor, como o compreende Laura, é apenas uma dança entre os amantes, uma quadrilha, da mesma maneira como Carlos Drummond de Andrade o concebeu, num poema antológico que leva esse nome. É assim que ela fala a Otávio sobre si mesma (ela era amante de um homem casado, Júlio, mas, aqui e ali, vivia à cata de amores rápidos, como o que ela desenvolve depois de conhecer um homem de ar enigmático no cinema):

 

“Pois é, só que os desejos são raramente correspondidos, veja o meu caso, a mulher do Júlio deseja o Júlio, que por sua vez deseja a mim, quanto a mim, eu desejo o cara do cinema, e o cara do cinema deseja, quem sabe, a vizinha ou a mulher da banca do jornal, quem sabe. (…) Isso sem falar na possibilidade de eu estar redondamente enganada e a mulher do Júlio não estar nem aí para ele, desejando na verdade o seu personal trainer, e o Júlio, então, talvez quem ele deseje mesmo seja a secretária do quinto andar, vai saber.”

 

Laura afirma não se incomodar com isso, com essa ciranda amorosa, pois a relação que estabelece com o mundo, assim descrito e considerado, é à prova da resistência dos sentimentos: um comércio de emoções. A linguagem que perfaz essa peculiaridade lembra a de um escritor de ficção barata, dessas que são vendidas em bancas de jornal, com a diferença de que um novelista, querendo conquistar o seu público, também barato, finge acreditar em amor eterno e quer passar isso para o seu leitor banal, enquanto Laura é absolutamente sincera, como o é Brás Cubas. Aliás, o romance Toda Terça é uma escrita que jamais, em página alguma, se envergonha de suscitar o declínio e a vulgaridade das emoções. E é este o seu requinte.

 

 

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56

Adaptado do texto “Um romance tipo assim”

*Roberto Sarmento Lima é doutor em Letras e professor da Universidade Federal de Alagoas (sarmentorob@uol.com.br)