Sobre o misterioso Shakespeare

Embora 400 anos nos distanciem dele, continuamos conectados à sua alma, representada em palavras essencialmente sensíveis capazes de provocar emoções transformadas em imagens, falas e representações que o vivificam

Por Edilaine Correa* | Fotos: Reprodução Internet | Adaptação web Caroline Svitras

 

Imagine um jovem sem fortuna, sem formação universitária – detalhe sempre importante quando se pensa em ter chances de prosperar na vida – nascido em uma pequena cidade da Inglaterra em 1564, tornar-se alguém importante e conhecido por suas obras por mais de quatro séculos!

 

Trata-se de William Shakespeare (1564-1616), um dos escritores mais conhecidos de que se tem notícia e que inicia sua entrada como escritor universal por volta de seus 16 anos de idade, destacando-se com suas obras tanto em sua época, quanto na atual, com algo precioso: suas palavras em emoções distribuídas em 38 peças, 154 sonetos e uma variedade de outros poemas, todos com grandeza poética de linguagem, profundidade filosófica e complexa caracterização de personagens.

 

Os primeiros anos da vida de Shakespeare carecem de documentação que possam revelar fatos sobre sua vida. Isso só faz aumentar as indagações e teorias as mais especulativas sobre sua infância e sua formação educacional e artística. | Foto: Shutterstock

Alguns documentos encontrados atestam, segundo autoridades acadêmicas que investigam as lacunas sobre a vida de Shakespeare, que seu pai, John Skakespeare, ocupando o cargo de bailio, equivalente a prefeito da cidade de Stratford-upon-Avon, tinha como uma de suas atribuições, autorizar a apresentação de espetáculos teatrais de companhias itinerantes como a dos Homens da Rainha e a dos Homens do Conde de Worcester.

 

Julgam ainda que o trabalho do pai justamente promoveu o despertar para a arte da dramaturgia em Shakespeare, quando era ainda menino, ao assistir apresentações tais como a farsa de Plauto sobre gêmeos idênticos, Os Menecmos. Tal afirmação deve-se ao fato de que Shakespeare, à procura de um tema cômico, adaptou-a acrescentando mais um par de gêmeos à peça, aumentando a confusão. Essa obra ficou conhecida como A Comédia dos Erros, peça ovacionada em Londres. Para ter uma ideia da dimensão do sucesso das peças de Shakespeare na época, basta trazer números como de 1.500 a 2.000 espectadores, lotando teatros em diversas apresentações.

 

Impossível não conhecer ao menos uma de suas obras. Talvez a mais lembrada pelo público leigo ou escolares seja Romeu e Julieta. História de amor trágica, apaixonante e que traz ensinamentos morais como a do repúdio jovial à convenção social, à escolha das famílias rivais, aos interesses políticos apresentados e por não haver saída para os amantes senão um fim trágico – ainda que notoriamente apresente pinceladas de comicidade capaz de provocar um mix de emoções que necessariamente agradavam a vários perfis do público.

 

Shakespeare viveu em um cenário de conspirações católica e protestante, testemunhou a peste bubônica que dizimou a população europeia, sofreu preconceito contra a dramaturgia e tantos outros elementos que presenciou, fazendo porém uso deles com maestria e como fonte de inspiração ao criar ou transformá-los em personagens inesquecíveis, tais como Falstaff, Iago, Ricardo III, Hamlet, Lear, Romeu, Julieta, frequentemente vivos em teatros, telas de cinema e de televisão, livros ou ainda em álbuns de histórias em quadrinhos.

 

O célebre ator Laurence Olivier em Hamlet. | Foto: Wikipedia

 

O teatro na época de Shakespeare era um evento altamente social, apresentado para a rainha Elizabeth I, trazendo aos palcos a vida dos reis e mendigos com notas de história antiga, filosofia, teologia, fazendo o público rir e chorar. Uma das características mais importantes do legado shakespeariano talvez seja o fato de suas obras representarem o real.

 

10 curiosidades sobre William Shakespeare

 

Imaginem que as peças eram todas representadas por homens, mesmo para as personagens femininas e em latim, o que prejudicaria a compreensão da população sem estudos. Porém, o público sentia na própria pele a emoção que suas peças provocavam em razão das personagens criadas e a intensidade de suas falas além do próprio enredo, lapidado pelo talento de Shakespeare e, por isso, até hoje em voga.

 

Retrato de Shakespeare encontrado por Alec Coobe – restaurador de arte – como único existente atestado por Stanley Wells professor jubilado por estudos sobre Shakespeare da Universidade de Birminghan.

Foram muitas as questões encenadas por Shakespeare no século XVI para reis e rainhas representando, de forma tão surpreendente quanto luminosa, realidades políticas e sociais de seu tempo. Essas realidades eram trazidas para o palco com estratégias para concentrar a atenção do público, como apelos psicológico, moral e espiritual, agradando não somente o círculo da elite mais culta da época, como também a grande massa da população.

 

Em Segredos e mistérios de William Shakespeare, disponível na internet (basta digitar o título no Google), pode-se saber um pouco mais sobre essa figura emblemática para todos, leigos e pesquisadores. Nele, uma das mais recentes notícias foi a de que Shakespeare tem um rosto bem diferente do atribuído e divulgado em 1623 – sete anos após sua morte –, gravado em cobre por Droeshout como homenagem a Shakespeare com a compilação de suas peças.

 

O volume impresso em 1623 e encontrado em abril de 2016, eleva para 234 exemplares do primeiro fólio com várias peças nunca antes publicadas, contribuindo definitivamente com o compartilhamento de obras como Macbeth, The Tempest e As you like it e, outras que poderiam ter sido aniquiladas para sempre, caso não houvesse a iniciativa de dois atores amigos, John Heminge e Henry Condell, de homenagear postumamente o dramaturgo falecido em 1616.

 

A nova imagem retratada revela um Shakespeare mais jovial, menos formal e, digamos, com um olhar mais enigmático, porque até o presente momento, muitos dos pesquisadores são obrigados a especular algumas passagens biográficas de Shakespeare em razão da perda de registros com o passar do tempo. Ainda assim, novas safras de descobertas vão compondo, como se fossem atos, pedaços de sua vida e obra.

 

Talvez a mais conhecida das frases de Shakespeare – Ser ou não ser, eis a questão! – possa ser complementada com outra de sua autoria tão emblemática quanto – O passado é um prólogo! Shakespeare ainda vive entre nós, e o século em que viveu apenas foi uma introdução de sua história e importância cultural.

 

 

Após 400 anos de morte, Shakespeare ainda traz em suas obras uma série de encantamento e descobertas a seu respeito revelando que ser ou quem foi, sempre será a questão.

 

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*Edilaine Correa é mestre em Comunicação e Semiótica, especialista em literatura francesa (PUC-SP), pesquisadora sobre Histórias em Quadrinhos e charges e membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos (ECA-USP).

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 67

Adaptado do texto “Shakespeare, eis a questão!”