Sobre celulares e superproteção na escola

Por Luísa Amélia Andretti* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Minha atuação na área da Educação difere da vivência das outras pessoas que têm falado de sua experiência em salas de aula neste espaço. Ensino inglês em escola particular de idiomas, dou aulas para turmas de adolescentes de 10 a 15 anos, e, naturalmente, o espaço em que trabalho tem mínima semelhança com o da rede pública de ensino, por exemplo.

 

Mesmo assim, posso dizer que as questões que vou colocar, são questões que têm a ver com as relações entre escola X aluno X professor que ocorrem em todo ambiente de ensino, com maior ou menor intensidade.

 

O uso de telefones celulares está disseminado de tal forma que, hoje, é praticamente impossível encontrar um estudante/adolescente que o dispense de espontânea vontade durante as aulas — por mais autocontrole, inspiração e capacidade de ministrar aulas que tenha o professor, o uso de telefones, IPhones e similares por alunos, durante as aulas, é um teste para o seu bom humor e integridade emocional — tive conhecimento de colegas que desistiram de dar aulas porque foram incapazes de controlar o caos estabelecido por grupos de adolescentes superativos e empolgados com seus “brinquedos”.

 

Na escola onde trabalho a situação ficou dramática, e houve até, há alguns anos, uma disposição para se proibir o uso desses aparelhos durante as aulas, mas, o protesto inevitável e imediato dos alunos ganhou um reforço que nós, professores, não esperávamos — os próprios familiares dos adolescentes geraram uma revolta contra a medida que, por isso, nunca foi colocada em prática. Vi uma senhora chegar na escola em pânico, ante a possibilidade de perder o contato com seu rebento por meros 60 minutos. Na verdade, os pais querem manter a sensação de controle sobre os filhos em tempo integral, e isso leva à outra questão a meu ver incontornável: a superproteção.

 

A maioria dos alunos chega e sai acompanhada, tudo bem, isso contribui para a segurança, mas parece-me que os pais são incapazes de confiar em seus filhos, e o que se vê na entrada da escola é um festival muito constrangedor de interrogatórios, de recomendações, de conselhos, de ordens, de reprimendas e até de ameaças! O que os pais pensam que pode acontecer? Que os meninos vão saltar os muros da escola e fugir? Que vão delinquir, formar quadrilhas? Talvez estejam vendo filmes demais ou assistindo a programas policiais de mau gosto na TV, sabe-se lá! Melhor seria se os pais rompessem o exagero com que protegem seus filhos; eles ganhariam mais tranquilidade se dessem asas aos filhos em vez de tantas restrições; deviam tratá-los com menos suspeitas e com mais respeito, assim, ajudariam na formação de pessoas mais confiantes e seguras, pelo menos.

 

Enfim, o problema do uso de celulares foi contornado com grande dificuldade, muito pulso e negociação. Os aparelhos, agora, ficam ligados no modo “silencioso” e os alunos não os usam mais durante as aulas. Quanto à superproteção, ah, isso não creio que vá atenuar nem mesmo a longo prazo.

 

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Adaptado do texto “Sobre celulares e superproteção”

*Luísa Amélia Andretti é professora de inglês e português.