Silviano Santiago e o entre-lugar na Literatura

O Entre-lugar de Silviano Santiago nos mostra como é possível construir uma literatura que transita entre as mais diversas culturas, mas sem perder sua unicidade original.

Por Inês Skrepetz* | Fotos: Divulgação/Cia das Letras | Adaptação web Caroline Svitras

Desde os Ensaios de Michel de Montaigne [1533-1592] a Theodor Adorno [1903-1969], em Ensaio como forma, talvez a perspectiva mais contundente para definir a maneira ensaística é o termo tentativa. O ensaio tende mais para a maneira, o jeito de se escrever do que redutivamente a uma forma ou um molde. O que determina o ensaio é certa falta de “forma”: “Por isso a mais íntima lei formal do ensaio é a heresia” disse Adorno. Se a lei formal mais íntima do ensaio é a heresia, logo, desobedecendo às normas rígidas, ele é livre, maleável e flexível.

 

No ensaio sobressai a voz do autor – nele se inscreve, a sua posição parece ficar mais evidente, mas sem a pretensão de uma verdade. A posição desta ensaísta que prefere permanecer ora na Terceira margem, navegando entre águas turvas, ora na corda bamba, lançada sobre a experiência do abismo, beirando às margens e à deriva, num deslocamento insano e vertiginoso: um ‘des-loucamento’. Arrisca-se a pensar, então, que o ensaio talvez possa ser um fértil espaço-tempo da hospitalidade incondicional, que acolhe o pensamento do outro e o deixa fazer a revolução interna e mudar os trajetos, num contínuo processo de ‘des-loucamentos’.

 

A escrita de Silviano Santiago [1936] trata disso. O escritor brasileiro, que utiliza as “tintas” provindas do estrangeiro, também vai buscar nos quase vizinhos do Velho Mundo, para escrever e desenvolver seu pensamento sobre o entre-lugar do discurso latino-americano, movendo-se entre as literaturas diversas para compor a sua própria.

 

A trajetória de sua vida nos revela a forte impregnação da experiência com a multiplicidade em seu pensar. Nascido no interior de Minas, transfere-se continuamente de um lugar para outro: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, França… Lá, como na carruagem do filme Meia-Noite em Paris [2011], ele encontra a plêiade de escritores de uma literatura universal. Passa um tempo nos Estados Unidos: fora de suas origens, ele origina a si mesmo em seu pensamento, numa autenticidade realizante.

 

É quando retorna aos trópicos, voltando no cenário da crítica literária brasileira, com outras visões e posições, em busca de uma nova teoria literária, problematizando a desconstrução dos métodos analíticos das correntes do século XX, que já estava engendrada em algumas obras anteriores e ensaios dispersos do autor. Como é o caso do conceito, que aqui interessa, de entre-lugar, esboçado no ensaio L’entre-lieu du discours latino-américan, apresentado na França em 1971. Como o próprio Silviano declarou numa entrevista a Jorge Wolff, em 2009: “A verdade é que não sei. Creio que a gênese vem de minha própria situação, um brasileiro professor de francês numa universidade Norte-Americana. […] Não falava mais português. Quero dizer, o português deixara de ter utilidade para mim. Tenho a impressão que deve ter surgido nesse caos. […] Eu não tinha, literalmente, um lugar.”

 

Por isso, ao intentarmos para a análise do conceito de entre-lugar, criado por Silviano Santiago, podemos, até certo ponto, concordar com o autor de que esse conceito se gerou no caos de sua própria existência e experiência e que não foi meramente transplantado de outro campo. O conceito entre-lugar no trabalho de Silviano Santiago emerge em alguns ensaios de Uma literatura nos trópicos (1978), percorrendo os seus trabalhos sucessivos, por exemplo: Vale quanto pesa (1982) e Nas malhas da Letra (1989), sendo disseminado, nos dias de hoje, principalmente pelos Estudos Culturais. Como discute Marcos A. S. Souza [2012], no artigo O entre-lugar e os Estudos Culturais, mapear esse conceito na obra de Silviano Santiago não se resume a “traçar uma reflexão linear e totalizadora, como se o termo sofresse algum tipo de evolução ou progresso, mas demonstrar a sua constituição e desdobramentos […]. É também discutir a sua ideia sem o nome […] o nome fica suspenso e a ideia continua operando leituras.”

 

Se o conceito de entre-lugar foi gerado a partir do caos experimental-existencial do escritor brasileiro, esse mesmo conceito de ideias conectadas, como a partícula entre, faz pulsar os fragmentos, que continuamente se configuram e se reconfiguram, atravessado por várias forças que o movimentam; retirando-o do lugar estático, é um conceito em contínuo processo. Para Marcos Souza: “assume, então, na trilha de Derrida (1995), os sentidos de desvio semântico francês, operado pelo jogo da différance. Diferimento, ou repetição e diferença, que marcam a sua subversão e não apenas a sua dependência.”

 

Différance, nas palavras de Silviano Santiago, no O silêncio, o segredo, Jacques Derrida [2004], é inseminação e disseminação. Por isso, talvez se possa dizer, que o entre-lugar é um conceito que trabalha, ele vai agindo, criando outros matizes, surtindo e causando outros efeitos: desloca-se e difere-se, muitas vezes, na obra do próprio autor… é sempre um movimento de descontinuidade, deslocamento, deformação, diferença. Por isso, foge-se aqui da pretensão de defini-lo de forma “conclusiva” e fechada. Derrida sempre alertou o perigo de transformar esse “entre” em outro lugar, por isso a saída parece “oscilar no abismo”. É no afastamento abissal da verdade que está a verdade: no plano do indecidível.

 

Nesse horizonte, o conceito de entre-lugar pode ser pensado em várias perspectivas, isso é, nos planos ético e estético da cultura e da literatura latino-americana. Um conceito impregnado de contaminações, que trabalha na trilha derridiana da descontrução. É a contínua capacidade de deslocar (ou, des-loucar) o ponto de concepção de onde parte o ensaísta. Não desloca-se, porém, apenas, de um lugar ao outro: des-louca-se a si mesmo, numa metamorfose conceitual e imaginária fértil, inquietante, perturbadora e livre.

 

Silviano Santiago, um escritor brasileiro que se utiliza de “tintas” provindas do estrangeiro, as quais ele também vai buscar/saquear nos quase vizinhos do Velho Mundo, para escrever e desenvolver seu pensamento sobre o entre-lugar do discurso latino-americano, por meio de outros matizes. Original em si mesmo, ele desconstrói a noção basilar da análise de um ensaio. Infelizes são alguns críticos literários: como se estivessem a catar papel em uma ventania, ao enfrentarem o entre-lugar, buscam-lhe origens, querem enquadrar o ensaio, querer colocar-lhe numa forma. Em vão: Silviano viu de tudo um pouco, e sabe que, naquele espaço do entre-lugar, tudo muda, o tempo todo.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 64

Adaptado do texto “Sempre um estranho: Silviano Santiago e o entre-lugar na Literatura”

*Inês Skrepetz é doutoranda em Literatura Argentina e Latino Americana pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.