Sidney Sheldon: as outras faces de um escritor

A virtude pode, sem dúvida, ser atribuída à vida e carreira de um dos maiores romancistas do século XX, na literatura, ou nas mídias em que trabalhou, e que há dez anos nos deixou: Sidney Sheldon

Por Adilson de Carvalho Santos* | Adaptação web Caroline Svitras

Antes dos livros

Em 1927, aos 10 anos, participou do concurso da revista infantil Wee Widsow, e ganhou 5 dólares por seu primeiro texto. O gosto pelo universo literário já estava plantado em sua alma. Mais tarde, abandonou a Universidade de Northwestern, em Illinois, e passou os anos da Grande Depressão sobrevivendo em empregos menores, como vendedor de sapatos e entregador de drogaria. Nesse período, compôs canções e foi tentar a sorte em Nova York, mas não deu certo, e desistiu. Foi quando se mudou para Hollywood e passou a trabalhar em leituras e resumos de roteiros, e recebia 22 dólares por semana nesse emprego. O ofício lhe abriu portas e, aos 34 anos, conseguiu vender seu primeiro roteiro para a PRC (Producers Releasing Corporation), que veio a ser filmado com o título South of Panama, e lançado em 1941. Novos roteiros se seguiram para as empresas Paramount e Republic, mas parou tudo para lutar na Segunda Guerra, porém, foi impedido de servir o país, devido a uma hérnia de disco detectada durante o treinamento.

 

Algo maior estaria reservado para ele. De volta à vida civil, mudou de ares, foi para a Broadway, onde reescreveu o musical A Viúva Alegre, de Franz Lehar, que se tornou um sucesso. Com isso, Sheldon continuou, e escreveu os espetáculos Jackpot e Dream With Music. Em 1947, teve filmado seu roteiro original de Solteirão Cobiçado (The Bachelor & the Bobby-Soxer), um veículo para Cary Grant, Myrna Loy e Shirley Temple. O resultado foi um Oscar de melhor roteiro que colocou Sheldon, também, responsável pelo roteiro de Desfile de Páscoa (Easter Parade), estrelado por Fred Astaire e Judy Garland. Com os trabalhos em paralelo nos palcos da Broadway e em Hollywood, parecia que a carreira de Sidney Sheldon seguiria em curva ascendente. Logo, assumiria a cadeira de diretor em dois filmes, Quem é Meu Amor? (1953), com Cary Grant e Deborah Kerr; e, quatro anos depois, O Palhaço Que Não Ri (The Buster Keaton Story), a cinebiografia do comediante Buster Keaton, com Donald O’Connor.

 

Apesar de ter sido bem sucedido em 1955, com o texto do roteiro de O Meninão (You’re Never Too Young), comédia da dupla Jerry Lewis & Dean Martin, as críticas negativas a O Palhaço Que Não Ri, co-produzido e co-escrito por ele, lhe fecharam as portas dos estúdios e fizeram Sheldon se retrair. Mais um golpe da vida que poderia ter mutilado seu talento. Mas a tenacidade e a capacidade de reescrever sua vida estavam impressas em seu espírito e tais habilidades ele transferiria para seus personagens, golpeados por revezes, mas sempre se reinventando diante deles. Assim, de volta à Broadway, Sidney Sheldon fez as pazes com o sucesso em várias peças, como o musical Redhead, ganhador do Tony e que permaneceu dois anos em cartaz, mas logo veio a amargar o fracasso de Roman Candle, que não durou mais do que cinco encenações.

 

 

A liberdade nas páginas

Sidney Sheldon já havia experimentado o sucesso e o fracasso, fosse nos palcos ou nos cinemas, e embora tivesse encontrado na TV um terreno promissor, o autor tinha ambições maiores, e escreveu a história de um psicólogo acusado de assassinato, e que duvidava de si próprio, já que constantemente perdia os sentidos. Foi com essa trama que, aos 53 anos, Sidney Sheldon publicou em 1970 seu primeiro romance, intitulado A Outra Face (The Naked Face), pelo qual recebeu o Edgar Allan Poe Awards, prêmio da literatura de mistério, além de ser considerado o melhor livro do gênero do ano pelo New York Times, e de ter permanecido entre os mais vendidos por 53 semanas.

 

Nesse momento, nascia o romancista que imprimiria um estilo próprio, que arrebatou fãs no mundo todo. Desde seu primeiro livro, o autor seguiu um ritual para escrever: ditava a história, para que sua secretária a datilografasse, e, em seguida, revisava tudo, e assim levava o processo até terminar o livro, o que geralmente levava um ano, até que a editora o publicasse.

 

Em 1973, publicou O Outro Lado da Meia-Noite (The Other Side of Midnight), por muitos considerado seu magnum opus, com narrativa passada durante a Segunda Guerra, na qual o autor destila suas memórias do conflito como pano de fundo para a história entrelaçada de duas mulheres: a manipuladora e sexy Noelle e a virginal Catherine Alexander. Uma das características mais peculiares de sua escrita é a de dar grande destaque a seus personagens femininos, sempre representados como figuras de atitude, que mantêm sua feminilidade, ainda que atuantes em jogos de poder. Suas mulheres são fortes, enfrentam adversidades e se sobressaem, apesar da inclemência e da vilania da sociedade patriarcal. É o caso de Elizabeth Roffe, de A Herdeira (Bloodline), uma mulher rica que enfrenta sabotadores na empresa fundada por seu pai, e da advogada Jennifer Parker de A Ira dos Anjos (Rage of Angels), que se envolve em uma intricada trama com mafiosos. As mulheres de Sheldon servem de inspiração para o público leitor feminino e, na mesma medida, são apaixonantes e envolventes para os homens, como Tracey Whitney, de Se Houver Amanhã (If Tomorrow Comes), que é traída pelo seu noivo e acusada de um crime que não cometeu. Anos depois de conseguir a liberdade, busca vingança e se torna uma hábil golpista. Este é seu sétimo romance, publicado originalmente em 1985, quando o autor já gozava a reputação de ser um campeão de vendas.

Resenhas depreciativas

A crítica especializada parecia desprezar os méritos de Sidney Sheldon, não reconhecia seu valor, e publicava resenhas depreciativas. O autor não se abatia e dizia “Falo do universo humano. Não posso agradar a todos. Tento chamar a atenção dos leitores através de assuntos que possam interessar a eles, que são professores, estudantes, empresários, prostitutas, caminhoneiros e donas de casa (…)”.

 

O fato é que, mesmo que nunca tenha ganhado a honraria de um Nobel de literatura, Sidney sabia que seus leitores estavam lá, sedentos por um novo livro. Ele sabia como envolver o leitor em uma trama de suspense; tecia uma rede conspiratória, e brincava com o destino de seus personagens, como o mistério por trás do comércio de diamantes na África do Sul em O Reverso da Medalha (Master of the Game) ou a constante ameaça de morte pairando sobre a embaixadora Mary Ashley na Romênia, em Um Capricho dos Deuses (Windmills of the Gods). A força de seu texto também residia no apuro de suas descrições e na honestidade com seu público-leitor. Ele se dizia incapaz de enganar o público e por isso viajava aos lugares que precisava, para descrevê-los em suas histórias. Assim, visitou a Romênia, para poder escrever Um Capricho dos Deuses. Sua experiência em Hollywood ele utilizou para escrever Um Estranho no Espelho (A Stranger in the Mirror).

 

O renomado autor também era hábil em dar continuidade às suas histórias e, assim, continuou a história de Catherine Alexander, personagem central de seu segundo livro, em Lembranças da Meia-Noite (Memories of Midnight), lançado em 1990. Com o fito de ampliar seu público leitor, enveredou esporadicamente pelo campo da literatura infantojuvenil, com tramas mais simples, ainda que embebidas em mistério como em O Estrangulador (The Strangler), O Fantasma da Meia-Noite (Ghost Story) e Os Doze Mandamentos (The Twelve Comandments), todos editados nos anos 1990.

 

Leia o artigo na íntegra na revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 72. Garanta a sua aqui!

Adaptado do texto “Sidney Sheldon – As outras faces de um autor”

Fotos retiradas da revista.

*Adilson de Carvalho Santos é Professor licenciado em Inglês e respectivas literaturas pela UERJ e licenciado em Português e Literatura pela UNIGRANRIO. Autor de artigos sobre cinema e adaptações literárias em blogcineonline.wordpress.com.