Seria o TDAH um sintoma contemporâneo?

Por Jane Patricia Haddad* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Quem nunca ouviu falar sobre o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade)? O tema vem sendo veiculado na imprensa, tanto a falada quanto a escrita, além da variedade de reportagens em revistas, jornais e até sites com explicações e orientações de como fazer “seu teste”, não é à toa que o TDAH vem ocupando rodas de conversa em diversos ambientes e principalmente entre pais e professores além dos consultórios médicos, psicológicos e psicopedagógicos. O espaço que o TDAH vem ganhando é assustador, o problema existe, é real, mas acredito que seja necessário mais cuidado e conhecimento ao abordá-lo. O momento contemporâneo é de excessos, tudo ou nada e diante do nada, o vazio aparece e com ele um nome para aquilo que não entendemos, é aí que mora o perigo de uma banalização em torno de tantos transtornos.

 

O que a Medicina tem nos informado acerca do TDAH

A nomenclatura TDAH (Transtorno do déficit de atenção/hiperatividade) passou a ser usada na década de 80, antes disso o transtorno era mais conhecido como DCM (Disfunção cerebral mínima). Naquela época, o transtorno já era tratado com psicoestimulantes. O TDAH é um dos transtornos neurológicos do comportamento mais comuns na infância. A estimativa é de que o transtorno afeta cerca de 5% a 8% da população. Para a área médica o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade é um distúrbio biopsicossocial, ou seja, não se pode separar a causa genética da psicológica e do meio em que se vive. Os principais sintomas aparecem na idade escolar, já que, conforme as exigências escolares aumentam as crianças começam a apresentar falta de atenção, recorrentes esquecimentosdificuldade em se concentrar, em seguir instruções, combinados e em organizar tarefas por suas prioridades, além de iniciarem várias atividades ao mesmo tempo e quase sempre não as finalizarem. Ainda de acordo com o discurso médico as manifestações que hoje caracterizam o transtorno estão classificadas pelo DSM-IV e situam-se em torno de três sintomas básicos: desatenção, hiperatividade e impulsividade. A característica essencial deste transtorno é a persistência de desatenção e/ou hiperatividade.

 

Textos literários e textos informativos: como incluí-los na aprendizagem

 

Algumas dessas ideias são levantadas no livro Cabeça Nas Nuvens – orientando pais e professores a lidar com o TDAH (editora WAK) – lançado em 2013 em diversas capitais do Brasil. O livro foi escrito por mim.

 

De lá para cá e de cá para lá, venho fazendo diversas conferências e debates acerca do tema junto a pais, professores e profissionais. A cada dia que passa, fico mais atenta e focada nos chamados  desatentos”. Passados dois anos da publicação do meu livro, tenho o desejo de explorar as manifestações de   hiperatividade e de déficit de atenção, sob a luz da psicanálise, e é isso que venho fazendo em uma constante interlocução com outros psicanalistas. O TDAH não deve ser visto apenas com os olhos de um transtorno e sim em seu contexto histórico, social e cultural. Quem é o sujeito que sofre?

 

Foto: Divulgação

 

A leitura do livro tem como objetivo, provocar e suscitar caminhos ainda não percorridos por pessoas que buscam outra forma de entender o TDAH. Sempre tenho uma questão que levo comigo:

 

Como posso contribuir de forma efetiva a que sou chamada?

O momento educacional contemporâneo nos convoca ao esvaziamento, deixar tantas certezas e começar a nos interrogar: Por que crianças e jovens andam “hiperativos” e desatentos?

Na esteira desse pensamento não é possível desconsiderar o momento contemporâneo que vem sendo marcado pela velocidade das mudanças e as rápidas transformações de tudo e de todos, sem contar os clicks daqui e dali e com isso rapidamente excluo, deleto, curto ou bloqueio. Os almoços mudaram, os tipos de alimentos diversificaram, o tempo de espera foi encurtado com tantas tecnologias e o tempo e a forma de relacionar-se com o outro mudou. Consigo conversar com várias pessoas ao mesmo tempo, sem estar presente, posso dar boa noite ao meu filho por mensagem e considerar diversas famílias em um mesmo núcleo. Crianças e jovens já nascem conectados em seus aparelhinhos. O mundo mudou, as crianças “levadas”, “molecas”, “desobedientes”, “faladeiras” e “desobedientes”, como eram chamadas em outros momentos, hoje, são conhecidas em uma categoria: hiperativas e desatentas. Como fazer com que elas sigam o protocolo pós-moderno? Onde estão nossas crianças e jovens? Segundo os dados estatísticos, boa parte deles está medicada e tentando cumprir o protocolo de uma educação da eficácia pautada em “bons comportamentos e boas notas”, “bons filhos”, “bons alunos” ficando encoberta a questão primordial do sujeito que sofre. Questão essa que muitas vezes passa despercebida. Com isso, perde-se a possibilidade de pensar a questão do sintoma, algo que é sinalizado pelo sujeito “adoecido”, algo da singularidade.

 

 

Recebo em meu consultório, jovens que estão nos cursinhos da vida, tentando um lugar ao sol e vez ou outra eles chegam com suas latinhas de “energético” na mão. E eu pergunto: Para que isso fulano? Rapidamente vem a resposta: para eu conseguir ficar ligado. Vale ressaltar, que dois deles fazem uso de outros estimulantes, receitado por seus médicos. Vale ressaltar, que não estou aqui para levantar nenhuma bandeira contra a medicina e muito menos contra ou a favor dos medicamentos prescritos e seus desdobramentos. Apenas quero chamar atenção para o acompanhamento por parte dos médicos junto à escola e suas famílias, pois já tenho relatos de jovens que em dia de provas, levam seus comprimidos para socializar com seus amigos.

 

No início deste mês, recebi a ligação de uma mãe desesperada porque ela não concordava com o uso do medicamento (ritalina) pelo seu filho de 12 anos e o pai do garoto não abre mão, já que o médico da família prescreveu para o menino. A mãe relatou-me que seu filho é quem cuida da administração do próprio remédio e o critério do menino é: a quantidade de deveres e provas, quanto mais obrigações, mais ele toma e já teve dias em que o menino tomou três comprimidos. Ela por ser uma mãe muito atenta, além de ser psicóloga, estudou a propriedade da droga e descobriu que o metilfenidato tem o mesmo mecanismo de ação que as anfetaminas e cocaína, a diferença está na intensidade. Para resumir este caso, dentre outros que estamos acompanhando, esse garoto e seus colegas estavam inalando o remédio, pois dessa forma, ele teria quase que o mesmo efeito da cocaína. Como ele descobriu isso? É simples, basta ter acesso ao Dr. Google que descobriremos coisas que nem imaginamos. Não vamos esquecer que as novas gerações estão anos-luz de nós, no quesito tecnologia.

 


Vale lembrar que existe um controle especial das receitas (amarelas), feita em três vias, sendo que duas são retidas pela farmácia, bem como todos os dados registrados no sistema do órgão para que se possa fazer o diagnóstico do comportamento do mercado brasileiro de remédios controlados…isso já não basta, no mundo contemporâneo. Muitos pais e professores, só conhecem os benefícios da droga e o que precisam é da receita. Nunca ouvi tantos relatos de pais que foram “assaltados” e suas receitas roubadas, o que isso nos sinaliza? Outras receitas são fornecidas. Sem contar que alguns pais sugerem a outros pais que seus filhos experimentem. Na minha opinião, isso é crime.

 
Volto a ressaltar que o que venho observando são crianças e jovens em sofrimento psíquico, porque se veem como “os diferentes”, muitas vezes ao serem enquadrados nesses diagnósticos, deixam de ser vistos e escutados como sujeitos, e passam a atuar como invisíveis em nossas escolas e famílias.

 

O que venho constatando em minha prática é um exagero na forma com qualquer dificuldade, seja ela de que ordem
for. Venho recebendo casos em que a realidade social dessas crianças e jovens vem sendo banida de tais diagnósticos.
Não nego que algumas poucas crianças necessitem do medicamento, o que defendo é que existe um caminho que pode ser percorrido ANTES que isso ocorra.

 

Práticas pedagógicas libertadoras e a vacilação

 

Defendo um reposicionamento por parte das crianças e jovens frente as suas dificuldades, desde que atrás deles hajam adultos que possam orientá-los a lidar com suas dificuldades. Crianças e jovens necessitam de modelos adultos, sujeitos que possam direcioná-los e chamá-los junto as suas responsabilidades. Como as novas gerações vêm encarando seus estudos? Quando paramos para escutar a rotina dessas crianças e jovens, entendemos boa parte de suas “hiperatividades”. Que lugar o compromisso escolar tem em suas agendas? Como vem sendo estabelecida a relação entre professor e aluno? Entre família e escola? Estas são algumas questões que devem ser esgotadas no corpo docente para que algo interno na escola também seja alterado. O ser humano é complexo, os novos sujeitos adentraram as escolas e talvez ainda não saibamos como lidar com isso. Educação para todos é um direito e dever, porém ela começa com UM a UM e isso leva tempo, um tempo que é incompatível com a pressa. Educar é incompatível com a pressa. Estaríamos diante de um sintoma contemporâneo?

 

 

Ritalina

Cura ou condiciona?

A situação é tão grave que inspirou a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a fazer uma declaração bombástica: “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro”, disse ela em entrevista ao Portal Unicamp. “Quem está sendo medicado são as crianças questionadoras, que não se submetem facilmente às regras, e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de mil anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível”, diz ela.

 

 

 

Hiperatividade

O individuo hiperativo apresenta comportamento desatento, dificuldade para se concentrar e fixar a atenção em algo. A hiperatividade também pode se apresentar como dificuldade de raciocínio, de avaliar situações e abstrair informações. O tipo mais comum de hiperatividade é aquele no qual a pessoa sente dificuldades de se manter quieta, age com desatenção e impulsividade.

 

 

 

Conceito TDAH

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade  (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por  sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção).  Em inglês, também é chamado de ADD, ADHD ou de AD/HD.

 

 

 

 

 
*Jane Patricia Haddad é Mestre em Educação. Formada em Psicanálise. Psicopedagoga. Escritora. Entre os livros lançados está “Cabeça nas Nuvens: orientando Pais e Educadores sobre o
Transtorno do Déficit de Atenção”. Publicado pela editora Wak.

 

Texto e imagens: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed.62