Sérgio, Chico e as raízes da cordialidade

São Paulo, 1902: nascia Sérgio Buarque de Holanda. Ele, que entre as estantes das livrarias e as mesas dos bares paulistanos cresceria como provocador, jornalista, crítico literário e historiador.

Por Bárbara Diniz* | Foto: | Adaptação web Caroline Svitras

Descrevia-o Manuel Bandeira em uma crônica publicada no livro Flauta de Papel: “nunca me esqueci de sua figura certo dia em pleno Largo da Carioca, com um livro debaixo do braço e no olho direito o monóculo que o obrigava a um ar de seriedade. Naquele tempo não fazia senão ler. Estava sempre com o nariz metido num livro ou numa revista – nos bondes, nos cafés, nas livrarias. Tanta eterna leitura me fazia recear que Sérgio soçobrasse num cerebralismo…” Mas o “cerebralismo” curou-se na boemia. A marca da irreverência e do apego ao novo se encontra mesmo na extensa obra do autor do célebre Raízes do Brasil, tão famoso que muitas vezes faz esquecer os outros livros; autor e historiador sempre preocupado com os “pormenores significativos” dos fluxos e refluxos da dança do tempo. Com modéstia, sim, mas também com válido orgulho, diria mais tarde, em entrevistas, “eu sou apenas o pai do Chico”.

 

Pai de Francisco Buarque de Holanda, um dos maiores nomes da música popular brasileira, herdeiro da exigência de pensar de forma radical, ou seja, pela raiz. Pensamento este que cavou um túnel em direção ao mais profundo da nossa identidade; em busca da alma do Brasil. Assim como o pai, entendeu um presente “grávido de futuro”. E, se Sérgio escreveu que as épocas realmente vivas nunca foram “tradicionalistas por deliberação”, Chico soube perceber a dinâmica vivaz da época em que vivia, transformando-a em ritmos e versos cujo compasso muito revela sobre a cadência da vida social brasileira: uma orquestra regida pela esperança irresponsável, pelas emoções transbordantes e pelo semear de sonhos.

 

Essa relação entre ritmos e conceitos, bem como a originalidade decorrente da resistência a convenções, mostra a possibilidade de diálogo entre os Buarque de Holanda. Pai e filho, Sérgio e Francisco, combinaram e entrelaçaram linguagens tão distintas quanto complementares. Transitaram entre História e literatura, palavras e imagens, fatos e repercussões no imaginário. Retiraram de cada uma dessas linguagens detalhes que compõem uma obra maior, quase como um pintor que aumenta sua variedade na paleta de cores para que o quadro tenha maior possibilidade de composição. Com essas linguagens, cada um a sua maneira constituiu, enfim, gêneros diferentes e igualmente representativos da cultura brasileira: o ensaio e a canção, a reflexão social e a música popular.

 

Em trechos explícitos ou não, é possível encontrar na obra musical de Chico Buarque situações presentes e preciosas no ofício do seu pai. Ambos adentraram em tempos diferentes dos seus, viajaram por lugares remotos que não lhes pertenciam e tentaram ouvir e entender vozes que já se calaram, pela “necessidade de unir o estudo dos mortos ao dos vivos” (na expressão de Marc Bloch). Com ainda mais força, as relações aparecem em músicas cujos argumentos são diretamente históricos, entre elas Fado Tropical.

 

Originalmente, essa canção faz parte da peça Calabar, o Elogio da Traição, e foi composta em parceria com Ruy Guerra entre 1972 e 1973. A alegoria, censurada em 1974, tinha como objetivo fazer a defesa de dois personagens, filhos de duas épocas distintas, ambos considerados traidores pela História oficial: João Domingos Calabar, que em 1632 deserdou as tropas lusas para lutar pelos holandeses em Pernambuco, e Carlos Lamarca, que deserdou o Exército e entrou para a luta armada contra a ditadura civil-militar brasileira a partir de 1964. Nas palavras do próprio Chico Buarque, “a ideia da peça era discutir a traição, mas a traição com uma finalidade louvável. Era como discutir se o Lamarca, um militar que passou para o lado da guerrilha, era ou não um traidor. Havia um paralelo evidente.”

 

O escritor Chico Buarque

 

Mas Fado Tropical vai além. Personificando o elo entre as raízes ibéricas e a cordialidade, mostra as influências do personalismo e da explosão sentimental na colonização do Novo Mundo português. Mais: revela o comportamento nem um pouco brando desse homem cordial instável e intenso, capaz de qualquer violência para defender os laços de coração. Nele, a compaixão de um “peito que se desabotoa” convive com a brutalidade insana e com a violência rasgada de uma crueldade nua. Diz o personagem: “Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

 

Chora e se entristece confuso, como o protagonista de outra canção, Pelas Tabelas. Este, cansado de esperar pela amada, caminha errante pela cidade. De súbito, porém, ao dobrar uma esquina, depara- se com o povo que saiu às ruas em passeatas e comícios no mês de abril de 1984 pelo movimento das Diretas-já, vendo-se inevitavelmente engolido pela multidão:

 

Em outro contexto, faz-se o diálogo. As Diretas-já foram um dos movimentos de maior participação popular da História do Brasil, cuja proposta de eleições diretas para a sucessão do general Figueiredo na presidência reuniu mais de um milhão de pessoas. Desnorteado ao tentar interpretar o contexto pela sua lógica afetiva, o personagem tem sua confusão também representada estruturalmente nos versos. O fim e o começo de alguns deles se fundem em sílabas repetidas, e as palavras que trocam de lugar reforçam a narrativa em círculos que gira como a cabeça do protagonista. A ideia quase narcísica pode ser comparada à do realista francês Gustave Flaubert, que no livro A Educação Sentimental narra um caso amoroso também frustrado, no qual o personagem vaga pelas ruas de Paris e encontra pelo caminho o poderosíssimo fluxo das multidões no ano de 1848.

Chico Buarque e o Prêmio Jabuti

 

Mas, ao contrário de Flaubert, Chico Buarque não quer mostrar o ruir do romantismo frente à afirmação burguesa. O tema sobre o qual Pelas Tabelas parece recair é, na verdade, o autocentramento. A superposição de imagens da cena pública e do cotidiano do indivíduo nos faz retornar à constituição do Homem Cordial, para quem a natureza privada do amor triunfa até mesmo sobre o estouro libertário das forças públicas. A fronteira entre esses dois mundos é, pois, diluída pela fluidez das suas relações. Relações tão fluidas quanto as do Brasil contemporâneo, incrivelmente retratadas por uma música que remete ao passado escravocrata e revela suas consequências: Bancarrota Blues. Tradição de origem africana, o blues tem notas graves, estrutura repetitiva e expressa melancolia; a palavra, além do substrato musical, denota também esse sentimento e estado de espírito. Sentimento este no qual está mergulhado um Brasil onde qualquer coisa pode ser colocada à venda e onde o individualismo utilitário cava as ruínas de uma modernização que não se deu por completo:

 

“Sou feliz
E devo a Deus
Meu éden tropical
Orgulho dos meus pais
E dos filhos meus
Ninguém me tira nem por mal
Mas posso vender
Deixe algum sinal” 

 

Mesmo com todas as diferenças entre as áreas e os trabalhos dos dois, os diálogos entre as obras mostram a possibilidade de luta contra esse tempo de violência e de delicadeza quase perdida. “Antes que o esquecimento/baixe seu manto/seu manto cinzento”, ainda há tempo para a conciliação das forças públicas e privadas, da imaginação e da realidade, do desejo e do porvir. E, apesar das dificuldades e das rodas-vivas que carregam a esperança para lá, a compreensão histórica e o lirismo que “todos nós herdamos” e que transformou sofrimentos numa cultura única hão de ser os essenciais artífices dessa conciliação.

 

Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60

Adaptado do texto “Sérgio, Chico e as raízes da cordialidade”

*Bárbara Diniz é Universitária da área de História.