Senhora, de José de Alencar

Por Maurício Silva* | Foto: Alexandre Jubran | Adaptação web Caroline Svitras

 

É possível compreender o advento do Romantismo no Brasil, no plano literário, como uma autêntica ruptura de conceitos e padrões estéticos até então vigentes, a despeito dos laços de dependência cultural que mantivemos — durante todo o século XIX — com a Europa. Neste sentido e descontadas as diferenças entre as realidades culturais brasileira e europeia, o Romantismo passou a ser, mesmo no Brasil, polo irradiador de tendências estéticas renovadoras, ansiando cada vez mais por um ideário artístico autônomo que desse ao país um lastro identitário próprio.

 

Contudo, nem só do espírito renovador, insuflado pelo Romantismo, viveram os nossos principais autores, sendo mais pertinente entender esse período como uma época regida, no dizer do crítico literário Antonio Candido, pela “dialética do localismo e do cosmopolitismo”, manifestada pelo confronto entre a atmosfera nacionalista que se impunha e a imitação dos padrões culturais europeus.

 

É neste contexto cultural que se insere a produção literária de José de Alencar, moldada por inspiração que, vivendo as contradições próprias de sua época, revelar-se-á ao mesmo tempo localista e cosmopolita, nacionalista e dependente. Na verdade, o romance romântico de José de Alencar padece dessa dicotomia, na medida em que se mostra, por um lado, subserviente aos modelos estrangeiros e, por outro lado, inovador o bastante a ponto de tentar ultrapassar a ingerência de cânones estéticos europeus em nossa literatura.

 

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918. É sociólogo, literato e professor universitário estudioso da literatura brasileira e estrangeira. Possui uma obra crítica extensa, respeitada nas principais universidades do Brasil. Além da carreira de crítico, é também professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É ainda professor-emérito da USP e da UNESP, e doutor honoris causa da Unicamp. | Foto: Divulgação/USP Imagens

 

Seus romances urbanos demonstram de forma exemplar esse fenômeno, sendo construídos a partir da dicotomia entre o indivíduo e a sociedade, estabelecendo conflitos que vão do ideológico ao estético, do psicológico ao linguístico. A própria consideração da produção ficcional de Alencar pela historiografia literária já denota, em princípio, uma realidade que se mostra, no mínimo, diversa. Das obras de Alencar, tomadas pela historiografia e pela critica literárias, como exemplares, destaca-se o romance Senhora, cuja aparente simplicidade é logo desmentida pela qualidade estética que se verifica na construção de personagens, no apuro descritivo, na composição bem articulada, na crítica à sociedade burguesa do Segundo Império, na maneira original como os temas da ambição e da vaidade são tratados. Mas sobretudo pela maneira como Alencar aborda a questão dos conflitos sociais e pessoais.

 

Com efeito, Senhora é, dos romances urbanos de Alencar, aquele em que os conflitos entre homem e sociedade atingem o auge, levando o ser humano a um processo de despersonalização profunda, solapando suas características pessoais e ameaçando-lhe a própria identidade. É o que se pode verificar no trecho que se segue, retirado do romance Senhora:

“– Meu Deus! Exclamou o mancebo comprimindo o crânio entre as palmas das mãos. Que me quer esta mulher? Não me acha bastante humilhado e abatido? Está se saciando de vingança. Oh! Ela tem o instinto da perversidade. Sabe que a ofensa grosseira, ou caleja a alma, se é infame, ou a indigna se ainda resta algum brilho. Mas esse insulto cortês, cheio de atenção, de delicadezas, que são outros tantos escárnios; essa ostentação de generosidade com que a todo o momento se está cevando o mais soberano desprezo; flagelação cruel infligida no meio dos sorrisos e com distinções que o mundo inveja; como este, é que não há outro suplício para a alma que se não perdeu de todo”

 

Não basta, de acordo com o trecho transcrito, a humilhação sofrida pelo fato de Seixas ter sido comprado pelos cem contos de réis oferecidos a ele pelo tutor de Aurélia; o quadro se completa com a vingança da mulher ofendida, que agora toma as rédeas da situação e impõe outros padrões de convivência social; mas também pela perversidade, pela ofensa grosseira sofrida por Seixas, pelo insulto, pelo desprezo, pela flagelação cruel. Indícios claros de uma relação desigual, marcado pelo poder pessoal, mas mediada pela coerção social, já que o insulto é velado; o desprezo, soberano; e o flagelo, dissimulado.

 

José de Alencar (1829-1877) nasceu em Mecejana, no Ceará. Foi romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e atuou na política. Seu romance “O Guarani”, em forma de folhetim, publicado no Diário do Rio de Janeiro, alcançou enorme sucesso e serviu de inspiração ao músico Carlos Gomes, que compôs a ópera do mesmo nome. José de Alencar foi escolhido por Machado de Assis para patrono da Academia Brasileira de Letras. Criou uma literatura nacionalista na qual se evidencia uma maneira de sentir e pensar tipicamente brasileiras. Morreu aos 48 anos no Rio de Janeiro devido à tuberculose, em 12 de dezembro de 1877. | Foto: Divulgação

 

Revelam-se, nesse pequeno trecho, dois fatos particularmente significativos para a compreensão do alcance estético e crítico de Alencar: o conflito que opõe, num mesmo contexto de relações interpessoais, sociedade e indivíduo; e a densidade psicológica de Aurélia, que se pode entrever a partir do discurso de Seixas.

 

Foto: Divulgação

 

De fato, semelhante confronto é assinalado ainda uma vez por Antonio Candido, ao considerar Senhora uma obra em que o conflito social revela-se de dois modos: como desnivelamento de posições sociais (a que o crítico chama de desnível) e como contraste entre o bem e o mal (a que ele chama de desarmonia). A par dessa interpretação que tem, entre outros, o mérito de desvelar um lado mais “sociológico” de Alencar, Candido revela ainda, como aludimos há pouco, a capacidade do romancista cearense em projetar em seus romances tipos humanos acabados, na sua complexidade humana e pessoal, mas também social e histórica.

 

Essa é, de fato, uma condição que se impõe na leitura de Senhora: considerar  as relações estabelecidas entre Seixas e Aurélia sem levar em conta a realidade histórica em que os personagens se encontram, como representantes típicos da sociedade burguesa do Brasil do século XIX, é, no mínimo, promover uma leitura reducionista do romance, que deixa de lado considerações fundamentais para a compreensão dos conflitos internos que se consolidam na trama ficcional e dão à obra maior consistência estética.

 

Dessa maneira, fruto da sociedade em que foi criado, motivo pelo qual apresenta contradições próprias de um tecido social, Seixas não hesita em justificar suas ações como débito da própria sociedade em que foi criado, como verificamos neste outro trecho de Senhora:

 

“– a sociedade no seio da qual me eduquei, fez de mim um homem à sua feição; o luxo dourava-me os vícios, e eu não via através da fascinação o materialismo a que eles me arrastavam. Habituei-me a considerar a riqueza como a primeira força viva da existência, e os exemplos ensinavam -me que o casamento era meio tão legítimo de adquiri-la, como a herança e qualquer honesta especulação”

 

Aqui, os conflitos entre o plano individual e o plano social adquirem estatuto de fator determinante da trama romanesca: a ação deletéria da sociedade, agindo sobre o caráter permissivo e ambição pessoal de Seixas, traço de uma personalidade arrivista, torna-o um ser corruptível, cuja disposição moral é regida menos por um determinismo social de extração naturalista do que por uma fragilidade psicológica de natureza romântica. Daí o fato de Seixas ter se colocado como vítima de condições sociais preestabelecidas e alheias à sua vontade, além do que coexistem numa mesma personalidade a força do hábito e a fascinação materialista. Como vítima das condições sociais que lhe são impostas, contudo, Seixas jamais poderia ser — no esquema mental do século XIX — penalizado, o que acaba determinando, já no final do romance, o desfecho reconciliador. Ao invés de punido, recompensado; em vez de castigado, redimido.

 

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Procuramos destacar, assim, fatos subjacentes à composição da trama romanesca de Senhora, ao mesmo tempo em que buscamos enfeixar algumas considerações acerca da densidade psicológica das personagens que compõem o romance, ocorrências determinantes das relações interpessoais ali presentes.
*Maurício SIlva possui doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo e é coordenador da Pós-Graduação lato sensu, na Universidade Nove de Julho.

Adaptado do texto “Senhora de José de Alencar: um romance de conflitos”