Semelhanças em contos machadianos

Por Leo Ricino* | Fotos: Criativo Mercado Editorial | Adaptação web Caroline Svitras

 

Distam poucos anos entre a publicação de Uns Braços, inserto em Várias Histórias, 1896, e Missa do Galo, de Páginas Recolhidas. Nas várias releituras dos dois contos, pude constatar muitas semelhanças. Diferenças há, é claro, pois são histórias distintas.
No que os contos se aproximam:

1) Os dois maridos das protagonistas, Meneses, de D. Conceição, de Missa do Galo, e Borges, de D. Severina, de Uns Braços, atuam na área da Justiça. Meneses é escrivão, e Borges, solicitador, algo semelhante a advogado nos dias de hoje.
2) D. Conceição era magra e D. Severina era fisicamente grossa (não necessariamente gorda), mas ambas apresentavam, ao caminhar, algum pequeno obstáculo: a primeira, embora magra, diz o narrador, parecia ter dificuldade de carregar o corpo; a segunda, em pé, era bem vistosa, mas caminhando apresentava “meneios engraçados”.
3) Os braços, aliás, como era comum em meados do século 19, funcionam como uma espécie de fetiche nos dois contos. D. Conceição permitiu, com intenção ou não, que Nogueira vislumbrasse parte dos braços dela nus e isso o deslumbrou muito mais durante a conversação dos dois; D. Severina trazia-os sempre nus em casa, pois já não dispunha de vestidos de mangas longas.
4) Tanto Nogueira, de Missa do Galo, quanto Inácio, de Uns Braços, eram do interior e estavam na capital, Rio de Janeiro, com a mesma finalidade: preparar-se para as profissões futuras.
5) Em ambas as histórias, os quadros nas paredes ganham seu destaque. Em Missa do Galo, dois quadros, um representava “Cleópatra”, o outro também representava mulheres, ambos vulgares no presente da narração e bonitos na época da conversação. Em Uns Braços, dois quadros religiosos, um São João e um São Pedro, completamente ignorados pelo menino Inácio, que só tinha olhos para os braços de D. Severina ou tinha-os impressos na memória, como diz o narrador.
6) Ambos os maridos estavam fora de casa durante os episódios. Em Missa do Galo, Menezes tinha ido ao “teatro”, ou seja, estava com sua ‘comborça’ (amante de casado) e isso funciona como uma espécie de justificativa para a atitude, digamos, intuída como provocativa de D. Conceição. Já D. Severina, de Uns Braços, antes de praticar seu ato, espera o marido virar a esquina, como garantia de que não voltaria tão cedo. Para onde ele foi, não foi dito.
7) Conceição, no momento da narrativa, está com trinta anos, mas ela se casou com Menezes aos vinte e sete, a mesma idade que Severina tinha no momento do episódio com Inácio, ou seja, duas mulheres praticamente balzaquianas.
8) Ambas as histórias são calcadas em sensações nunca superadas pelos dois adolescentes. Uns Braços assim termina:
“E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana:
— E foi só um sonho! Um simples sonho!”
Missa do Galo é todo calcado na sensação indecifrada do narrador.

 

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*Leo Ricino é professor da Fecap – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado