Caim e Abel na atualidade

Romance que revisita o mito bíblico, Caim, de Saramago, questiona a legitimidade dessa narrativa e faz refletir sobre a vida social contemporânea

Por Roberto Sarmento Lima* |  Adaptação web Caroline Svitras

 

Intrigado com a falta de discernimento que o atrapalha na hora de reconhecer os limites do mal e do bem, Caim torna absoluto o que é definitivamente relativo e precário. Ele mesmo, talvez sem o perceber, é esse umbral onde se mesclam os contrastes de sentimento, atitude e compreensão da realidade, pois, da mesma forma que foi capaz de trucidar Abel, seu irmão, horroriza-se com as injustiças cometidas por Deus, “dono soberano de todas as provas”, visto então como o vilão da história que passa a viver.

 

Daqui para frente, neste ensaio, grafarei com iniciais minúsculas os nomes de personagens e lugares porque foi assim que o fez, e desejou, o escritor que assina o romance Caim (2009), o português José Saramago, o único Prêmio Nobel de Literatura nessa língua. E também porque, concordando com o autor dessa pequena obra-prima, os seres humanos que nela transitam não têm por que se orgulhar de sua humanidade (teríamos nós hoje, então?), cujas ações são invariavelmente sangrentas, todas cheias de erros, cobiça, trapaça e selvageria. Começa o mundo, enfim, pela ignorância, como diz o poeta Gregório de Matos. Pela falta de conhecimento seguro (e daí o medo) do que é a instabilidade, a oscilação entre o bem e o mal, o claro e o escuro. Começa pela covardia, pelo ciúme, inveja e desrespeito às instituições, das quais deus é uma.

 

 

Teste de fidelidade

Nesse terreno, deus e caim não se entendem jamais. No primeiro diálogo, duro e áspero, entre as personagens, depois que o agricultor, “com aleivosa premeditação”, esmaga o crânio do mano “a golpes de uma queixada de jumento”, o impasse se instala para não ter fim:

 

“Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade” (pág. 34)

Ao que deus retruca: “Esse discurso é sedicioso”. E caim, devolvendo com a língua afiada: “É possível que o seja, mas garanto-te que, se eu fosse deus, todos os dias diria Abençoados sejam os que escolheram a sedição porque deles será o reino da terra”. Num crescendo da violência verbal, seja na fala de caim, seja pela boca do próprio narrador, que por sinal adere à causa do fratricida, a narrativa recheia-se de insultos e impropérios capazes de fazer corar o papa. Uma passagem digna de nota é aquela em que, durante sua trilha pelos tempos bíblicos, a personagem-título impede que abraão sacrifique o filho isaac a mando do senhor, envolvendo criador e criatura na mesma cólera – contra o senhor deus, que quis testar a fidelidade de abraão, obrigado a esse ato infame, e contra o próprio súdito carneirinho, que, mesmo se sentindo desconfortável com a ordem recebida, não ousa contestá-la, em nome da prosperidade na terra. Na verdade, é o narrador quem na maioria das vezes fala, mas fala como se fosse caim, destilando sua antipatia contra a divindade. Para isso, serve-se do recurso do discurso indireto livre:

 

“O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que  abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.” (pág. 79) 

 

Persiste o processo do discurso indireto livre, por meio do qual parece concentrarem-se as vozes e consciências de caim, do narrador e – por que não dizer –do próprio Saramago, intelectual conhecido por suas críticas ácidas à religião e às crenças míticas. No tom e estilo de uma objurgatória, mas sem a forma imperativa do verbo que dela faz parte, é lançada contra deus, que “não é pessoa em quem se possa confiar”, e contra abraão, esse “desnaturado pai”, uma censura medonha. Fala, então, o narrador, mas fala como se fosse caim:

 

 “Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes.” (pág. 79)

 

O narrador se associa a caim em uma linguagem nervosa, irritada, quase desesperada diante dos absurdos da existência, para questionar as arbitrariedades do poder e pôr em xeque todas as formas de opressão. Portanto, esse poder e esse domínio cego de uns contra os outros não se reduz a este que o romance enfoca – o de deus sobre os homens que criou –, mas abrange a totalidade dos conflitos humanos, em qualquer época e em qualquer lugar.

 

 

 

A atualidade de Caim

Desse modo, em alguns momentos da massa verbal de Caim se surpreende uma dicção que parece extrapolar os limites da ação romanesca e vir em direção aos dramas mais atuais, como, por exemplo, a questão judaica e suas intermináveis desavenças entre povos irmãos, como judeus e palestinos:

 

“Como sempre tem sucedido, à mínima derrota os judeus perdem a vontade de lutar, e, embora na actualidade já não se usem manifestações de desânimo como as que eram praticadas no tempo de josué, quando rasgavam as roupas que tinham vestidas e se lançavam ao chão, com o rosto na terra e as cabeças cobertas de pó, a choradeira verbal é interminável.”
(pág. 112)

Ao testemunhar ações incompreensíveis – a destruição, pelo senhor, da torre de babel ou o massacre de inocentes, em sodoma e gomorra –, caim, sempre vigiado por esse narrador conivente e solidário, convida o leitor a compartilhar o horror de que ele mesmo é capaz mas ao qual se opõe tenazmente quando não é ele quem o promove; e, assim, sem esse sentimento de culpa, o nosso herói pode naturalmente indignar-se e lamentar o que vê:

 

“Vou-me embora, disse ele, já não suporto ver tantos mortos à minha volta, tanto sangue derramado, tantos choros e tantos gritos.”
(pág. 116)

Dessa contradição caim parece não ter a menor ciência. Nesse sentido é que se pode dizer que ele nem sempre ouve o que diz o narrador porque, diante de sua precária humanidade, não sabe aquilatar tudo o que vê pela frente. Apesar desse nojo contra o crime (dos outros, é claro), caim comete mais crimes ainda, ao fim do livro, já dentro da arca de noé, onde viaja como um dos passageiros. Com o dilúvio em marcha, exterminando todos os que ficaram em terra, entregues à própria sorte, caim, em posição privilegiada, fora induzido por deus a cruzar com as noras desse outro patriarca bíblico: seu papel, ali, seria o de semear e gerar o novo mundo anunciado pelo senhor. No entanto, desafiando todas as previsões, caim, em fúria incontida, contraria mais uma vez o plano divino: mata um a um daquela família, deixando vivo apenas noé, que, desconsolado por ter fracassado na sua missão, termina por suicidar-se.

 

 

Assim como tinha uma justificativa, pessoal, sim, para matar abel, caim tinha agora uma outra razão, desta vez bem mais nobre. A ideia desse agricultor primevo era arrasar a raça humana e varrê-la da terra. É a essa altura que Saramago ensaia o mais belo confronto do livro:

 

“Caim és, e malvado, infame matador do teu próprio irmão, Não tão malvado e infame como tu, lembra-te das crianças de sodoma. Houve um grande silêncio.” (pág. 172)

 

Deus lança a última – e inútil – cartada para mostrar quem é que manda, no que não se sai tão bem diante da argúcia da criatura que engendrou:

 

“Depois caim disse, Agora já podes matar-me, Não posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu primeiro me haveres devorado o espírito.” (pág. 172)

 

O romance termina com a decretação mais definitiva do mal, após essa luta de egos vaidosos e intransigentes: “A história acabou, não haverá nada mais que contar.” Acabaria de todo, assim, a vida na terra; acabaria tudo que a vida constrói, a literatura no meio de todas as ações humanas. A mensagem final não poderia conhecer maior desolação do que esta. E, nesse mundo esvaziado, deus perderia completamente seu sentido. Reinar sem súditos, ocupar um tronos em adoradores próximos – esta é a solução plena de coerência para a vida que termina. Pode-se dizer então que Caim é um romance que não só revisita o mito bíblico – que, no livro, serve de pretexto para ampliar tal debate em direção aos dias que correm –, mas também, por isso tudo, atualiza a cada página o eterno drama humano da cobiça e da inveja, ditos os sentimentos virulentos da raça humana, aos quais Saramago não faz concessões. O amor passou foi longe. Não há amor nesse mundo; há sexo, nenhuma amizade; há desejo, erotismo e concupiscência. Daí, irmão desconhece irmão, pai desconhece filho. Antes, todos se detestam ou se ignoram mutuamente, ou competem entre si. Tanto deus e os seus filhos humanos, quanto caim e o filho que gerou com a sensual e dominadora lilith. Um mundo assim, conclui Saramago, é melhor que nem exista.

 

O sermão do diabo

 

 

Diálogo de terras secas

É possível que se encontrem algumas semelhanças, formais e ideológicas, entre Caim e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, embora não coincidam na delimitação do universo romanesco. Deu-me vontade de ir a uma sessão espírita e perguntar a Saramago se ele leu o romance do escritor alagoano e se dele tirou alguma lição. Pois há em comum desde paisagens secas e pedregosas às andanças sem destino certo, à toa, pela terra inóspita e selvagem, com ar de abandono e esquecimento, como o pode revelar esta descrição, entre tantas outras:

 

“A paisagem era seca, árida, sem um fio de água à vista. Diante desta desolação era inevitável que caim recordasse a dura caminhada depois de o senhor o ter expulsado do fatídico vale onde o pobre abel para sempre ficara. Sem nada para comer, sem uma sede de água salvo aquela que, por milagre, veio a cair finalmente do céu quando as forças da alma já de todo minguavam e as pernas ameaçavam ir-se abaixo a
cada passo.”
(págs. 75-76)

Além disso, que é o mais superficial que se pode constatar nessa comparação entre narrativas, detecta-se uma noção de história como ciclo, como se fosse a natureza, e não a sociedade, que servisse de parâmetro para a maior parte das ações humanas. Há, nesses dois romances, andanças circulares das personagens no espaço e no tempo, dando a impressão de que aquele percurso já foi feito ou simplesmente se repete, à exaustão; o ritmo do pensamento obedece ao ritmo da seca e da chuva; são frequentes, enfim, as oscilações entre o desejo das personagens e o seu entorpecimento.

 

 

Não se podem aqui aprofundar essas considerações para estabelecer com sucesso tal paralelo, mas ao menos se pode vislumbrar um enlace de obras. Visto que o mundo da devastação e do isolamento, para a família de Fabiano e Sinhá Vitória, era, assim como o mundo onde viveu caim, um cenário em tudo contrário à civilização, pode-se pensar que, se em Graciliano, o conforto da vida material era um sonho daquela família de desvalidos, em Saramago a atmosfera árida prepara coerentemente a derrocada final, numa solução mais radical ainda, já que se trata do desaparecimento do homem na terra e de todo poder, humano ou sobrenatural, que nela possa existir.
Nem Vidas Secas, no seu último capítulo, com aquele otimismo fugaz (será essa a explicação para o título do capítulo, “Fuga”?), consegue escapar de um sentimento de perda irreparável, pois a ação, no final dessa narrativa, se restringe a projeções de um futuro melhor e mais próspero, sem que, no entanto, elas se concretizem na diegese. A civilização, portanto, não é para o bico de Fabiano; e, no caso de caim, que representa o duelo entre o bem e o mal, em todas as épocas – sempre, em todos os dias, teremos o nosso Caim e um senhor pronto para opor-se-lhe –, o tom civilizador nem mesmo à diegese pertence, pois é atributo tão somente da fala do narrador. Caim fica, pois, dispensado dessa reflexão e desse desejo. Quer resolver tudo na violência. Já o narrador é um civilizado, embora mantenha sua voz e espírito coladinhos aos do protagonista:

“Aí está a praça. Em verdade, ter chamado a isto uma cidade foi um exagero. (…) faltam aqui os automóveis e os autocarros,
os sinais de tráfego, os semáforos, as passagens subterrâneas, os anúncios nas frontarias ou nos telhados das casas, numa palavra, a modernidade,
a vida moderna.”
(pág. 47)

 


Ao chegar caim à terra de nod, definida como a “terra da fuga” (alguma semelhança com Vidas Secas?) ou “terra dos errantes” (Fabiano e sua família?) – pode-se perguntar, bem a propósito, se Fabiano ou caim, se algum desses aí fugiu mesmo, e para onde, se é que para eles havia algum tipo de salvação possível. Pois reinam por toda parte a secura e a devastação:

 

“O mal é que em todo o redor da paisagem não se vê ao menos uma sombra aonde acudir.
A meio da manhã o sol já é
puro fogo.”
(pág. 76)

Se irrompe o verde na paisagem, isso não anima nem consola, nem num romance nem no outro. Não há esperança, pois sempre se volta ao mesmo lugar, enfrentando, no caso de caim, as objeções do senhor ou, no caso de Fabiano, buscando entender as contas rapaces do patrão. Em ambos, avançar é um desafio, uma inutilidade; o mais confiável é retornar ao ponto de onde partiram:

 

“Olhou para trás, a mesma aridez de antes, a mesma secura, ali nada havia mudado.”
(pág. 76)

Fabiano e caim são gente como a gente, ao nosso lado, à nossa frente, nós, nas nossas perenes contradições. São eles dois textos, que se confrontam e dialogam como se fossem “dois países” vivendo males semelhantes:

 

“Era como se existisse uma fronteira, um traço a separar dois países, Ou dois tempos, disse caim sem consciência de havê-lo dito, o mesmo que se alguém o estivesse pensando em seu lugar.”
(pág. 76)

Graças ao discurso indireto livre, recurso pleno nos dois livros, há de se perceber que somos todos iguais nesta noite. Caim está aí, na próxima esquina, se é que ele não é eu mesmo.

 

 

*Roberto Sarmento Lima é doutor em Letras e professor da Universidade Federal de Alagoas.

Contato: sarmentorob@uol.com.br

Adaptado do texto “Caim nosso de cada dia”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 61