Saiba tudo sobre a vida de Manuel Bandeira

Manuel Bandeira construiu uma espécie de relato íntimo, no qual desfilam cenas tradicionais e comuns em sua infância, consegue tornar vivos, no presente, os jogos, as crenças e as cenas carregadas de conteúdo folclórico

Texto Simone da Silva Viana* | Fotos Wikipedia

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886. Um dos ícones do Modernismo, o pernambucano se consagrou com um estilo solto e despojado, tratando de assuntos do cotidiano. Defendia que o modernismo não precisava se desfazer do passado para se firmar, exercia grande influência em sua estrutura de pensamento, e também tentar entender a constituição desta geração de forma mais ampla.

ANOS DE FORMAÇÃO
Em 1913, Manuel Bandeira vai para o sanatório de Cladavel, na Suíça, para tratar-se de tuberculose. Lá, ele conhece e convive com o poeta francês Paul Éluard, que coloca Manuel Bandeira a par das inovações artísticas que vinham ocorrendo na Europa. Discutem sobre a possibilidade do verso livre na poesia. Esse aspecto técnico veio fazer parte da poesia de Bandeira, que foi considerado o mestre do verso livre no Brasil. Com o início da Primeira Guerra, em 1914, Bandeira volta a morar no Rio de Janeiro. Em 1916, morre sua mãe. Em 1917, publica seu primeiro livro “A Cinza das Horas”, de nítida influencia Parnasiana e Simbolista – essa obra teve apenas 200 exemplares, custeados por ele próprio. Em 1918, morre sua irmã, que tinha sido sua enfermeira durante muito tempo. Em 1919, publica “Carnaval”, que representou sua entrada no movimento modernista. No ano seguinte morre seu pai.

MANUEL BANDEIRA E A SEMANA DE ARTE MODERNA
Apesar de ter feito parte do modernismo brasileiro – a pintora Anita Malfatti e os escritores Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia lideraram o movimento (com Tarsila do Amaral eles formavam o “Grupo dos Cinco”, que defendia as ideias da Semana de Arte Moderna) –, Bandeira não participou da Semana de Arte Moderna, que ocorreu entre 13 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com participação de artistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. O evento contou com apresentação de conferências, leitura de poemas, dança e música.
Uma das poesias de Bandeira foi declamada por Ronald de Carvalho na abertura da Semana: “Os Sapos” apresenta uma crítica ao parnasianismo, movimento literário que caracterizou seus primeiros escritos.

 

Os participantes da Semana de 1922 causaram enorme polêmica na época. Sua influência sobre as artes atravessou todo o século XX e pode ser entendida até hoje.
Dentre os muitos escritores que fizeram parte da primeira geração do Modernismo destacamos Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Alcântara Machado, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida.

VIDA E OBRA SE MISTURAM
Manuel Bandeira, o poeta que contribuiu para as culturas pernambucana e brasileira, de grande sensibilidade e profundo lirismo, abordou sobretudo o cotidiano e o biográfico. Construindo  uma espécie de relato íntimo no qual desfilam cenas tradicionais e comuns em sua infância, consegue tornar vivos no presente os jogos, as brincadeiras, as festas, as crenças, as cenas carregadas de
conteúdo folclórico, edificadas nas práticas do cotidiano e cultura de sua vida, marcada pela temporalidade. Suas obras nos possibilitam múltiplas interpretações da realidade em que vivemos.

Além de um grande legado na poesia, prosa e antologias, também utilizou a adivinha, como elemento lúdico de integração e desenvolvimento na pedagogia dos lares, nas brincadeiras infantis, nas reuniões de adultos. As adivinhas ainda se conservam no meio rural, em feiras do sertão brasileiro. O colocador de adivinhas era e sempre será uma figura imprescindível; ao seu redor se juntavam
velhos, moços e crianças para o torneio verbal. Desse modo, aproximava-se mais de seu leitor, ao mesmo tempo em que fortalecia as raízes nacionais e refletia sobre a grandeza do cotidiano.

Em suas obras destacam-se as seguintes características: o verso livre, a poética da libertação, o poema-piada, o humor cortante, às vezes negro, a presença de problemáticas relacionadas às camadas sociais menos privilegiadas, as origens pernambucanas e familiares, além das temáticas mais antigas da morte, da solidão e da dor, formando uma obra rica e abrangente.

Outro poema importante é Evocação do Recife, que mostra os laços de Bandeira com sua terra. Tendo vivido a maior parte de sua vida em Santa Tereza, no Rio de janeiro, Bandeira não deixou de, com esse poema, prestar homenagem às memórias de uma infância tipicamente nordestina, carregada de referências regionais e pessoais.

Ainda sobre a relação com o Recife, em “Andorinha” Bandeira descreve minuciosamente a casa de estilo neoclássico onde morou na Rua da União (bairro da Boa Vista, onde hoje funciona o Espaço Pasárgada). “Na rua, com os meninos da minha idade eu brincava ginasticamente, turbulentamente; no quintal sonhava na intimidade de mim mesmo. Aquele quintal era o meu pequeno mundo dentro do grande mundo da vida…”, escreveu, em 1965. Mais adiante, em outra crônica, lembra quando aproveitava os meses de verão para tomar banho no rio Capibaribe, nos arredores da casa do avô, no bairro Caxangá. E recorda o terror de acordar, certo dia, para fugir de uma violenta cheia. Na memória, a imagem de um boi morto passar carregado pela força das águas.

Por todas as suas obras, muitas contribuições permanecem até os dias atuais, nos saberes e vivências, cultura, literatura e histórias, oportunizando uma importante implicação para a compreensão da articulação entre cultura e literatura popular, sem perder de vista as particularidades do contexto vivido por ele em cada verso de suas obras.

Foram muitas obras literárias, que se eternizaram na nossa literatura brasileira, como as Poesias: A Cinza das Horas, 1917 ; Carnaval, 1919 ; Poesias (acrescida de O Ritmo Dissoluto), 1924; Libertinagem, 1930; Estrela da Manhã, 1936; Poesias Escolhidas, 1937; Poesias Completas acrescida de Lira dos Cinquentanos, 1940; Poemas Traduzidos, 1945; Mafuá do Malungo – Barcelona, 1948; Poesias Completas (com Belo Belo),1948; Opus 10, 1952; 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, 1955; Poesias Completas (acrescidas de Opus 10), 1955; Poesia e Prosa Completa (acrescida de Estrela da Tarde), 1958; Alumbramentos, 1960; Estrela da Tarde, 1960; Estrela a Vida Inteira, 1966 (edição em homenagem aos 80 anos do poeta); Manuel Bandeira – 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, 2006. As Prosas: Crônicas da Província do Brasil, 1936; Guia de Ouro Preto, 1938; Noções de História das Literaturas, 1940; Autoria das Cartas Chilenas, 1940; Apresentação da Poesia Brasileira, 1946; Literatura Hispano-Americana, 1949; Gonçalves Dias, Biografia, 1952; Itinerário de Pasárgada – Jornal de Letras, 1954; De Poetas e de Poesia, 1954; A Flauta de Papel,1957; Itinerário de Pasárgada, 1957; Prosa, 1958; Andorinha, Andorinha – José Olympio, 1966; Itinerário de Pasárgada, 1966; Colóquio Unilateralmente Sentimental, 1968; Seleta de Prosa e Berimbau e Outros Poemas. Outro legado importante, as antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Moderna, Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Moderna, Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, Antologia dos Poetas Brasileiros – Poesia Simbolista, Antologia Poética, Poesia do Brasil, Os Reis Vagabundos e mais 50 Crônicas, Manuel Bandeira – Poesia Completa e
Prosa, e Antologia Poética.

Inúmeras obras literárias foram realizadas em conjunto com outros poetas, diversificando sempre seu trabalho, para promover a poesia e a literatura com outras linguagens da arte, como o audiovisual, a música e o teatro.

A OBRA DE BANDEIRA PARA AS NOVAS GERAÇÕES

Pensando as obras de Manuel Bandeira para o cenário educacional, as mesmas possibilitam às crianças conhecer e reconhecer o espaço onde vivem, pertencer e se apropriar do mesmo no decorrer da sua história, promovendo a troca de significados e vivências, criando-se uma cumplicidade entre o ser social e cultural, contribuindo no seu desenvolvimento intelectual. A redescoberta dos valores e cultura de seu tempo e de outros tempos; com sua história, com sua vida, a partir da realização do projeto pedagógico “Cultura, poesia e prosa… conversando com Manuel Bandeira” – realizado na Universidade Estácio de Sá com alunos do curso de metodologia dos conteúdos de geografia e história. Tem como proposta possibilitar o aluno a vivenciar dentro da literatura infantil um mundo rico em cultura, que possibilitará a compreensão de sua história, suas tradições e cultura, desenvolver a imaginação, a criação, o sonho, se perceber como sujeito de sua própria história. O projeto objetiva estimular a memória, as vivências e a percepção visual do mundo em que vive; sensibilizar os alunos quanto à valorização e a importância da nossa literatura e história; estimular a imaginação através de diversas atividades metodológicas; conhecer a importância de Manuel Bandeira na literatura e na História do Brasil, ouvindo e recontando suas poesias e prosas. Uma nova forma de ver e ensinar Cultura, aprimorando a vida social e cultural, significa fazer um ensino reflexivo e relevante para o cenário atual, um exercício do aprender a aprender; aprender a ser; aprender a conviver e aprender a fazer no cenário educacional. Oportunizar ao aluno a busca de suas  raízes, em relembrar coisas do passado, seja na família ou comunidade, na cidade ou região, tornando a história viva. Diversas atividades podem ser realizadas sobre o tema. Há muitas sugestões para a Educação Infantil ao Ensino Fundamental I, tais como:

1ª ATIVIDADE
Realizar de forma dinâmica e criativa a exposição dialogada, leitura e análise de obras de Manuel Bandeira, que atenda ao universo infantil, oportunizar um ambiente livre em que o aluno possa ler e ouvir poesias; Familiarizar-se com a escrita por meio do manuseio de livros (mídia imprensa); Escutar poemas lidos, apreciando a leitura feita pela educadora; Observação e manuseio de materiais impressos, como livros e textos, e de vídeos de saraus de poesias retirados da internet.

2ª ATIVIDADE
Quebra-cabeças com diversos versos relacionados às poesias e prosas escolhidas: as peças serão confeccionadas de materiais recicláveis pelos professores e alunos, embaralhadas, e, de forma coletiva, realizar a montagem do quebra-cabeças; o professor, neste momento, contará as poesias e prosas para os alunos.

3ª ATIVIDADE
Pedir aos alunos que criem ilustrações com dobraduras diversas, sobre seu ambiente, sua vida, suas memórias familiares… instigando-os a se conhecerem, serem eles mesmos, compreenderem sua história. Estas ilustrações serão expostas em um “Varal de Histórias”, e todos os alunos irão visualizar os trabalhos realizados, compartilhando novas vivências. Para esta atividade, sugiro a poesia Recife:

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das
Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
– Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
(BANDEIRA, 1966)
4ª ATIVIDADE
Confecção de um livro coletivo, elaborado com materiais recicláveis. Com o apoio do professor, os alunos irão construir a sua percepção do mundo em que vive. Possibilitando também a oportunidade de elaborarem histórias contadas por eles, sobre sua vida, suas memórias e vivências. Por se tratar de Educação Infantil, o livro coletivo será realizado com gravuras, ilustrações, dobraduras e imagens que expressarão o fazer e pensar dos alunos, seus saberes e representações fundados em dimensões materiais e simbólicas, construídas nas práticas do cotidiano e cultura que fazem parte de suas vidas.

5ª ATIVIDADE
Fazer uma exposição do livro coletivo, com poesias e apresentação de um sarau de poesias. Além de torneio de advinhas. Esta é uma prática metodológica que irá oportunizar ao aluno a busca de suas raízes, em relembrar coisas do passado, seja na família ou comunidade, na cidade ou região, tornando a sua história viva; e ao mesmo tempo desenvolver sua sensibilidade e encantamento para as poesias e prosas da literatura brasileira.

*Simone da Silva Viana é professora e pesquisadora da Universidade Estácio de Sá.

CANDIDO, Antonio e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira: Modernismo – História e Antologia. 15ª. Edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

FIGUEIREDO, Eurídice; NORONHA, Jovita Maria Gerheim. Identidade Nacional e Identidade Cultural. In: __. Conceitos de literatura e cultura. Niterói: EdUFF, 2010.

SILVA, Marina Cabral Da. “O Modernismo no Brasil “; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/literatura/o-modernismo-no-brasil.htm>. Acesso em 30 de junho de 2016.

Revista Literatura | Ed. 68