Saiba como trabalhar a leitura na infância

Por Aline Fernanda Camargo Sampaio* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Os textos lúdicos da infância podem ser elencados em um currículo, entretanto é preciso ficar atento à descaracterização que eles sofrem quando são introduzidos por manuais de alfabetização. Por exemplo, uma adivinha pode muito aparecer para o aluno por meio da escrita, mas na essência esse gênero é oral, ou seja, é oferecida à memória do interlocutor e este ao receber o texto entra em atividade de associação com os seus antigos textos e recursos linguageiros (tenta buscar as metáforas, as alegorias, os nonsenses presentes na adivinha) — mas, veja bem, tudo isso no jogo oral. Uma parlenda, um brinco e todos os outros gêneros lúdicos exigem uma dinâmica de corpo e linguagem em que a presença do outro é fundamental, sobretudo nos primeiros anos do ensino infantil. (BELINTANE, 2006, p.6)

Na realidade, esses textos lúdicos da infância subvertem os esquemas linguísticos habituais, ampliam as possibilidades de uso da linguagem, e se tornam potencialmente um delicioso material para a decifração do mundo pela criança.

 

Incentive as crianças a ler

 

Ainda na esteira da discussão sobre o papel exercido pela escola no trabalho com os textos da tradição oral, o autor completa:

Por mais que as escolas afirmem que colocam o aluno em contato com os textos da tradição oral, constatamos, cotidianamente em nossas pesquisas, que tais textos não entram na escola pela ordem de Mnemósine (deusa da memória, mãe das musas inspiradoras dos poetas) e sim pela ordem da escrita, em geral, em uma posição de confronto. (BELINTANE, 2013, p.57)

Considerando a sensibilidade, a criatividade e a grande capacidade de fruição da linguagem poética pelas crianças, José Paulo Paes fez da poesia infantil um convite essencialmente lúdico, e por isso bem atraente, quando sustentou em seus versos que “poesia/ é brincar com palavras/ como se brinca/ com bola, papagaio, pião” (1990). Segundo o poeta, deve-se despertar o gosto pela poesia na infância, que, quando bem iniciado, pode se estender na juventude e até mesmo na idade adulta.

Vale ressaltar também que, os contos de fadas e os mitos constituem formas simbólicas pelas quais a psique se manifesta e contribuem para a formação harmoniosa da criança.

Ao usarem a mesma linguagem que o inconsciente, esses textos falam diretamente com a criança, sem a mediação da razão ou sem a necessidade de explicações, conselhos ou sermões. Com o auxílio das fadas e de outros elementos mágicos, a criança adquire forças para vencer o que a assusta ou preocupa. Enquanto não soluciona o seu problema inconsciente, ela ouve ou lê histórias inúmeras vezes, até que o resolva.

 

Contos de fadas na formação moral humana

 

É mister salientar, ainda, que os contos de fadas auxiliam as crianças no processo de construção de sua identidade e no desenvolvimento de suas habilidades sociais, culturais e educativas. É o que afirma Bettelheim (1980), na obra A Psicanálise dos Contos de Fadas:

(…) os contos de fadas têm um valor inigualável, conquanto oferecem novas dimensões à imaginação da criança que ela não poderia descobrir verdadeiramente por si só. Ajuda mais importante: a forma e a estrutura dos contos de fadas sugerem imagens à criança com as quais ela pode estruturar seus devaneios e com eles dar melhor direção à sua vida. (BETTELHEIM, 1980, p.16)

Desse modo, pode-se dizer que o trabalho com os textos lúdicos da infância é fundamental para a formação da personalidade da criança e para o seu desenvolvimento no processo de socialização. Por meio desses textos, os pequenos ouvintes podem perceber outras dimensões, usar a imaginação e principalmente se descobrir, se reconhecer como parte integrante daquela história que lhes foi contada, criando, assim, interesse pela leitura.

 

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*Aline Fernanda Camargo Sampaio é mestra em Educação e Linguagem pela USP, Especialista em Docência no Ensino Superior, Graduada e Licenciada em Letras/Português pela USP, Pesquisadora do Grupo DiCLiME-USP (Diversidade Cultural, Linguagem, Mídia e Educação) e Professora Universitária.

Conhecimento Prático – Literatura Ed. 71

Adaptado do texto “O trabalho com textos lúdicos da infância”