Sabia que as histórias em quadrinhos passaram 30 anos censuradas?

A era negra dos quadrinhos

Por Alexandre Callari | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O momento em que a chamada Era de Ouro dos quadrinhos entrou em sua fase crepuscular, em meados da década de 1950, coincidiu com um dos períodos mais negros da publicação do gênero: foi quando entrou em vigor, também, o Comics Code Authority, um código de censura que regulamentou a publicação de quadrinhos nos EUA durante quase três décadas.

 

Em 1954, a publicação do livro Seduction of the Innocent (Sedução do Inocente), escrito pelo psiquiatra Fredric Wertham, foi o estopim que detonou uma série de ações que, alguns anos depois, resultariam na criação do código. O livro, dividido em 14 capítulos, expunha a indústria de quadrinhos de forma histérica e exagerada, e a responsabilizava pelos graves problemas que a juventude de então apresentava, que incluía o que se considerava a problemática do desvio do comportamento sexual e o aumento da criminalidade e da delinquência. Tomando como modelo a própria “caça às bruxas” empreendida pelo Senador Joseph McCarthy alguns anos antes (na qual os norte-americanos foram obrigados a ver seus direitos civis serem atropelados e a própria Constituição do país tripudiada, ao serem perseguidos e presos com a desculpa de serem possíveis comunistas), Wertham decidiu empreender a sua própria cruzada contra as supostas HQs violentas e em prol do que ele considerava o ideal dos bons costumes, a verdadeira moral e ética.

 

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Deliquência juvenil

O caso é que Wertham havia montado uma clínica que se especializou no tratamento de delinquentes juvenis e o que o psiquiatra observou foi que a maior parte de seus pacientes era consumidora de quadrinhos. Assumindo que essa poderia ser a causa em comum para os males dos jovens e desconsiderando o fato de que milhares de outros consumiam o mesmo produto sem apresentar as mesmas características de seus pacientes, Wertham iniciou uma longa pesquisa que, segundo consta, durou sete anos e culminou no lançamento da obra.

 

Dr. Fredric Wertham, o inimigo número um da arte sequencial nos anos 1950.

 

De acordo com sua crença particular, os quadrinhos estimulavam os piores impulsos dos jovens leitores, sendo que ele era capaz de enxergar maus exemplos em qualquer página, por mais inocente que esta fosse. De quadrinhos de super-heróis ao Pato Donald, passando por Brenda Starr e histórias de crimes e horror, o psiquiatra não poupou ninguém, citando centenas de casos em uma obra que beira as 400 páginas. O exemplo mais famoso de sua perseguição foi sem dúvida a insinuação de uma relação homossexual latente entre Batman e Robin, porém dentre outras coisas, ele afirmou que o Super-Homem era fascista e antiamericano e que a independência e força da Mulher-Maravilha faziam dela uma lésbica, além de defender categoricamente que os quadrinhos traziam mensagens subliminares. Apesar de sofrer alguns arranhões em sua imagem, os heróis saíram quase ilesos da problemática que Sedução do Inocente causou.

 

 

EC Comics

Contudo, ao longo de sua epopeia, que acabou sendo apoiada por uma grande parcela conservadora da população norte-americana, o psiquiatra conseguiu entre outras coisas enterrar diversas editoras (ainda que indiretamente), incluindo a lendária EC Comics, que era a única empresa na época que trabalhava com material adulto. Em um de seus famosos exemplos, Wertham cita uma história da editora na qual um homem é morto a pauladas por seus compatriotas por que não saúda a bandeira norte-americana. No final, descobre-se que o sujeito era cego. Os objetivos do conto, que são claros a qualquer um, na visão de Wertham tornam-se uma história que favorecia o tratamento a indivíduos não patrióticos!

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O livro de Wertham, na verdade, consolidou um movimento que vinha desde a década anterior, mas carecia de embasamento científico para justificar a perseguição. Sedução do Inocente foi a ferramenta que faltava. As repercussões desse período negro para as HQs foram enormes e não só atrasaram a evolução da indústria quadrinhística norte-americana, como também a arremessou pelo menos 20 anos para trás.

 

Wertham causou tanto rebuliço com seu livro, que conseguiu levar o assunto ao Congresso Norte-Americano, tendo aparecido ante o Subcomitê de Delinquência Juvenil do Senado, então presidido por Estes Kefauver. O objetivo do psiquiatra era obter ações rígidas do Estado contra as HQs consideradas prejudiciais à juventude. Suas longas dissertações, contudo, não conseguiram fazer com que o Senado considerasse os quadrinhos culpados pelo aumento da criminalidade e pela delinquência juvenil, mas em seu relatório final, o alarmado comitê sugeriu que a indústria regulasse de alguma maneira, voluntariamente, o conteúdo de suas publicações.

 

Ação censora

Tomando essa sugestão como um vislumbre de uma possível ação censora a ser levada a cabo pelo próprio governo, diversos editores e empresários da época se adiantaram e desenvolveram em tempo recorde a CMAA – Comics Magazine Association of America. A principal ação tomada por esta associação foi a criação do famigerado Comics Code Authority. O código, um selo de censura descabido e que hoje mais parece uma piada de mau gosto, tinha por objetivo regular tudo o que era publicado e tomava como ponto de partida o próprio livro de Wertham. Assim, ele não só proibia insinuações sexuais e imagens violentas (o que já seria esperado), como também tratou de banir conceitos inteiros, como histórias de terror e menções à corrupção. Chegou até mesmo a censurar o uso de determinados termos. O código era absurdamente específico em relação a certos aspectos e temas, era demasiado moralista, reacionário e se dizia proteger instituições sagradas da sociedade, como o casamento. As relações matrimoniais, de acordo com o que o código propunha, jamais deviam ser mostradas de forma pejorativa, assim como divórcios nunca poderiam ser retratados como uma ação desejosa por parte dos personagens. Na verdade, se um divórcio fosse parte da história, deveria ser para mostrar que ele traria consequências terríveis para quem o praticasse. A falta de moralidade em hipótese alguma poderia ser recompensada e estupros e perversões sexuais não poderiam ser sequer mencionados.

 

 

Como resultado, as HQs retroagiram em termos de temática e conteúdo, tendo sido reduzidas a publicações de mentalidade infantil. O Dr. Wertham, por incrível que pareça, mostrou-se descontente com o posicionamento que o Senado tomou e chegou a condenar publicamente a iniciativa do código, alegando que se tratava de uma tentativa pueril de resolver o problema. Segundo ele, os editores eram incapazes de policiarem a si mesmos, de forma que o Estado deveria investir em um controle maior da venda de quadrinhos para menores e informar melhor os pais sobre o problema.

 

 

Bode expiatório

O fato é que a publicação de Sedução do Inocente fez com que a sociedade americana da época, angustiada pelo sentimento pós-guerra e desesperada com a expectativa de que a ameaça vermelha (comunismo) trazia, elegesse um bode expiatório para exorcizar seus problemas, os quais eram evidentemente muito mais profundos do que qualquer perturbação que uma história em quadrinhos pudesse eventualmente causar a um indivíduo. Assim, muitas pessoas começaram a interpretar de maneira equivocada o conteúdo das HQs e condenar sua temática, tomando sempre como base o livro de Wertham, o qual apresentava supostas provas clínicas e científicas dos efeitos danosos causados pela leitura do gênero.

 

 

Uma das primeiras editoras que desapareceu por conta da criação do Code foi a Comics House Publications, que lançava gibis altamente populares, como Daredevil Comics, Silver Streak Comics, Crime Does Not Pay e Boy Comics. Ironicamente, foi justamente o sucesso dessas séries que levou à derrocada da empresa em 1956 e reverteu-se na primeira vitória de Wertham, que via na revista Crime Does Not Pay um de seus principais alvos. Anos depois, Stan Lee faria para a Marvel uma reformulação do personagem Daredevil, o qual existe até hoje com grande sucesso. Aliás, se levarmos em consideração que a Marvel foi criada praticamente inteira na década de 60, ou seja, um período no qual o Code estava em seu auge, os gênios criativos de Stan Lee, Jack Kirby e seus colaboradores ficam ainda mais evidentes.

 

Assim, nos anos 50, quase automaticamente à criação do Comics Code, houve uma mudança radical no mercado de quadrinhos, que levou ao desaparecimento de revistas policias e de terror, cuja popularidade se mantinha em alta até então. Em meio a toda essa turbulência, a EC Comics foi a editora que mais batalhou contra a censura. A empresa pertencia a William Gaines, que a havia herdado de seu pai, Max Gaines. William promovera uma completa alteração na linha editorial da EC, que na época de Max, era a sigla para Educational Comics (quadrinhos educacionais), sendo que a editora lançava, entre outros materiais, coisas como a Bíblia em quadrinhos. Ao assumir a empresa após o súbito falecimento do pai, William Gaines cancelou a linha educacional, alterou a sigla para Entertaining Comics (quadrinhos de entretenimento) e passou a publicar essencialmente material de terror e ficção científica, lançando revistas como Crypt of Terror, Vault of Evil e Haunt of Fear. As revistas da Cripta eram de longe as mais adultas da época, as mais arrojadas e inteligentes, as mais inovadoras tanto em termos visuais, quanto narrativos e ainda tiveram o mérito de revelar artistas como Wallace Wood e a lenda Frank Frazetta. De 1950 a 1954, a EC Comics se manteve no topo, até, é claro, a chegada de Wertham e, posteriormente, do Comics Code.

Bill Gaynes, que herdou a EC Comics em 1950, mudou a linha editorial da empresa, e passou a editar quadrinhos de terror, suspense, ficção científica e
crime.

Restrições

Não dá para evitar a sensação de que os demais editores da época simplesmente usaram o código para esmagar Gaines e seus rentáveis quadrinhos, já que alguns dos itens que vigoraram pareciam remeter diretamente (e estritamente) às publicações da EC. Por exemplo, uma das cláusulas do código proibia o uso das palavras “crime”, “terror” e “horror” nos títulos das revistas. Outras restrições baniam o aparecimento de vampiros, lobisomens e zumbis nas histórias e uma terceira cláusula impedia que qualquer autoridade pública (como juízes ou delegados) pudesse ser culpada por crimes. Ironicamente, o único editor que foi se explicar perante o comitê do Senado na mesma sessão na qual Wertham expôs suas ácidas considerações havia sido o próprio William Gaines, que defendeu como pôde a classe dos editores e quadrinhistas.

 

Vale ressaltar que o código era uma iniciativa privada e não tinha qualquer autoridade legal, sendo que os quadrinhos poderiam continuar sendo legalmente publicados, inclusive os de Gaines. Contudo, em face da enorme comoção que tomava a população da época, os distribuidores simplesmente se recusavam a distribuir revistas que não tivessem o CCA estampado em suas capas, o que obviamente lhes inviabilizava a venda. Enquanto muitos editores buscaram formas de se adaptar a esses tempos sombrios, a EC acabou cancelando toda sua linha de quadrinhos, à exceção da revista MAD, que viria a se tornar a maior referência para o gênero no futuro, persistindo até hoje como um sucesso formidável no mundo inteiro.

Com todos os problemas que a EC Comics teve com a censura, a Mad, revista de humor, foi a única publicação da empresa que continuou vendendo solidamente.

 

Personagens com parceiros mirins

Outras vítimas do Comics Code foram os personagens que tinham parceiros mirins, principalmente o Batman. Em Sedução do Inocente, Wertham dedica longos parágrafos acerca de um suposto conteúdo homoerótico que as histórias do homem-morcego continham, em detrimento à maneira como as mulheres eram apresentadas, segundo ele,sempre de forma estereotipada, como intragáveis, bruxas ou violentas. Para Wertham, o próprio design musculoso de um super-herói tinha como objetivo estimular a curiosidade sexual dos jovens leitores, desviando-os de suas vocações, deturpando a sexualidade e, consequentemente, a verdadeira moral. A visão preconceituosa do escritor não poupou também a maior heroína dos quadrinhos: segundo ele, a Mulher-Maravilha era apresentada de forma forte e resoluta, apenas para incitar as jovens mulheres a se tornarem lésbicas. Incrivelmente, a despeito do incontestável e descabido machismo que essa proposição elencava, a sociedade da época o endossou.

 

Repercussões

No mundo inteiro, principalmente na Europa, o Comics Code revoltou o mercado dos quadrinhos, sendo que a Inglaterra chegou a proibir a importação de gibis norte-americanos para seu país. Quadrinhos europeus adotaram uma posição claramente reacionária, em resposta à hipocrisia que consumia os EUA, e de certa forma, isso foi bastante positivo para a evolução do gênero mundo afora.
A força do Comics Code foi se perdendo gradualmente, em parte por conta da cena de quadrinhos underground, que começou a crescer a partir de meados da década de 60, em parte por conta da inevitável mudança do pensamento social.

 

 

O fim do Comics Code

O golpe de misericórdia contra o CCA foi dado em 1971, quando o governo norte-americano, por meio do departamento de Saúde, solicitou que Stan Lee escrevesse uma história do Homem-Aranha, no qual a problemática do uso de drogas fosse abordada. As revistas da Marvel, até então, saíam com o selo de aprovação do código, contudo o responsável na época, John Goldwater, recusou-se a aprovar a história por causa de seu conteúdo. Lee, cansado de submeter-se a um código que considerava ultrapassado e sem sentido e, confiante na credibilidade que tinha ao ser contatado pelo próprio governo, seguiu em frente com a publicação sem o selo do CCA. A história saiu de maio a julho de 1971, na revista Amazing Spider Man 96-98 e foi tremendamente bem recebida pelo público, que estava a par de todo o problema. As boas vendagens de um produto sem o CCA marcavam o fim definitivo de uma era. Apesar de existir até hoje e de ter passado por várias revisões, o CCA perdeu definitivamente sua força e atualmente, leitores novos sequer sabem de sua existência.

 

O livro Sedução do Inocente jamais foi lançado no Brasil, entretanto está inteiramente disponível online!

 

Fotos e texto retirados da matéria ” O Comics Code Authority”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed.51