Ronaldo Correia de Brito fala sobre ser escritor

O projeto de contar uma boa história

Por Franco de Rosa* | Adaptação web Caroline Svitras

Em 2008, Galileia, romance de estreia do contista, dramaturgo e roteirista de cinema — e médico — Ronaldo Correia de Brito levou o Prêmio São Paulo de Literatura e o destacou como uma das vozes mais originais da literatura brasileira atual. A imprensa, como O Estado de S. Paulo, viu nele um “modo de construção cinematográfico”. E o descreveu como um romancista “econômico, conciso, cortante”, que reúne “os fragmentos da tradição oral e ergue uma catedral literária com os cacos da ruína sertaneja e da tragédia clássica”. Quando lançou o volume, antecipou-se à crítica, sem temer o rótulo de regionalista: “Ronaldo Correia de Brito não teme o rótulo de regionalista e se adianta às críticas: ‘O meu sertão é a paisagem através da qual eu interpreto o mundo, o de hoje, o globalizado, o que rompeu com as tradições. Interessa-me a decadência, a dissolução. Meus personagens migram, sofrem o embate com as outras culturas. Sei que tenho sido vítima de preconceitos pela escolha dessa paisagem.’.”

 

Brito nasceu no sertão do Ceará, onde fica a fazenda Galileia, onde adaptou sua história. Assim, ele conhece profundamente o cenário escolhido para ambientar seu primeiro romance. “Tivemos um ciclo épico e de tragédias nesse vasto sertão cearense. Nada disso foi representado até o esgotamento, como o ciclo do faroeste americano, a conquista do Oeste. Cadê os nossos John Huston, John Ford, Sergio Leone? Glauber e os diretores do ciclo do cangaço fizeram uma leitura sobretudo do lado social. Os acontecimentos foram bem mais transcendentes. A nova geração de escritores prefere escrever sobre os dramas urbanos”, observa o autor em entrevista sobre sua obra. Ele acrescentou, ainda: “Trato das questões do nosso tempo, os conflitos de cultura, as migrações, a dissolução da família tradicional. Jogo na mesa os conflitos insolúveis entre cidade e campo.”

 

Orgulhoso de ser herdeiro da tradição oral de sua terra, o escritor cearense observou ainda: “Se você elabora uma personagem complexamente neurótica, feminista, com todos os anseios urbanos, e se você senta esta mulher numa cadeira de couro, olhando uma paisagem desolada do sertão, há quem enxergue apenas o cenário e três ou quatro substantivos locais. Embora essa mulher fale da mesma dor e da mesma solidão de uma negra americana do Harlem. Brito acredita na supremacia da narrativa. Esta, segundo ele, só perderá a função quando os homens perderem a fala, a audição e o dom de mentir.

 

“Costumo lembrar o quanto eram importantes os velhos narradores que tinham por única função na vida andar pelas casas interioranas, repassando conhecimentos que eles adquiriram e guardaram na memória. Acho que nenhum deles se perguntou algum dia sobre o valor do seu trabalho. Como também acredito que os aedos (artistas gregos que cantavam as epopeias) não se fizeram esta pergunta, enquanto fixavam o idioma, a mitologia e a épica grega”, lembra Ronaldo. Ele explica, também, sua recorrente inspiração em passagens e personagens bíblicos: “Aprendi a ler numa História Sagrada, que é uma seleta da Bíblia. Quando tinha 7 anos, meu pai pediu que lesse em voz alta, para toda a família, um trecho da história de José do Egito. Foi a minha diplomação”, conta ele.

 

No livro seguinte, Retratos Imorais, lançado dois anos depois, Brito surpreendeu mais uma vez, com uma estrutura que se distancia de suas obras anteriores, ao amplificar as tensões íntimas de Galileia para criar uma coleção de contos cheia de fúria, de dor, que vibra com uma força criadora pouco vista na literatura brasileira. A obra é dividida em três partes. Segundo ele, como a exposição de retratos numa galeria, os contos nos mostram figuras de homens e mulheres despedaçados, assombrados pela memória e pelo impacto do presente. Mãe e filho numa relação obsessiva, um garoto que sonha o grande mundo, um cirurgião que no momento crítico se sente paralisado. No conto que dá título ao livro, um homem lancinado no leito hospitalar, arrependido da vida violenta que levou até então, nos atira no abismo. “Meu nome é Claudiney Silva. Num álbum de fotografia que hoje folheio horrorizado, apareço abraçando uma menina. É minha filha.”

 

Em 2012, lançou Estive Lá Fora, em que retoma o fio de memória de Galileia para compor um enredo inovador, sem equivalentes na produção brasileira atual. Na trama, do alto da ponte da Madalena, em Recife, Cirilo observa as águas lamacentas do Capibaribe. Está pronto para pular; é a segunda vez em quatro anos que vai até lá e, parado na borda, observa os caranguejos das margens. No entanto, algo o faz mudar de ideia. Ao perambular pelas ruas dilapidadas do centro, o leitor aos poucos passa a conhecê-lo. Cenário de pleno regime militar, no final dos anos 1960. Recife é uma cidade violenta. Cirilo está prestes a terminar o curso de medicina, mas a opressão que sofre de colegas e professores não mudou em todos esses anos. Escreve à mãe cartas angustiadas, e seus relacionamentos na cidade são instáveis. Geraldo, o irmão mais velho, é um líder estudantil cheio de certezas e ideais; está desaparecido, e o pai, que acompanha sua trajetória a distância, recolhido na fazenda da família, espera o pior.

 

 

Quando, de fato, começou sua ligação com a literatura, o momento em que você esboçou seus primeiros textos de ficção? Você tinha quantos anos?

Acho que minha paixão pelos livros acontece quando eu leio para a família um trecho do relato de José do Egito, numa velha História Sagrada. Torno-me leitor aos 7 anos e esse é o meu batismo. Na escola, as professoras sempre pediam que eu lesse para a turma as minhas redações. Era constrangedor, porque me colocava num lugar diferenciado. Escrevia cartas e discursos por encomenda. Isso para mim já era escrita. O primeiro conto, só apareceu quando eu tinha 19 anos. Chama-se ‘Lua Cambará’ e está publicado no livro Faca, da CosacNaify. Ele saiu 33 anos depois da primeira versão, que mostrei apenas aos amigos. Não podem me acusar de ser um cara apressado.

 

Os primeiros textos que concluiu foram publicados? Tratavam do quê, e onde e quando saíram?

Comecei publicando em jornais e revistas. Depois, ganhei um concurso do Governo do Estado de Pernambuco, e, aí, saiu um livrinho com os quatro autores premiados. Minha coletânea de três contos se chamava Histórias na Noite. Em seguida, ganhei um concurso de teatro, em parceria com Assis Lima, e foi publicado o nosso Arlequim de Carnaval.

 

O fato de estar longe dos grandes centros editoriais, como Rio e São Paulo, de fato dificulta para um escritor do Nordeste?

Atualmente, bem menos, porque circulamos bastante pelo país e a internet facilita o envio de textos, a conversa com jornalistas. Mas é sempre mais fácil para um escritor do Sudeste do que do Nordeste se colocar no mercado e na mídia. Gilberto Freyre é uma exceção, por ter escolhido viver sempre no Recife. Ariano Suassuna, também. O mais comum é que os escritores nordestinos migrem para o Rio de Janeiro ou São Paulo.
Ainda de acordo com a pergunta anterior, você pensa em dar algum passo em relação ao estilo, ou sua preocupação é apenas contar boas histórias?

O que mais quero é ser um narrador, alguém que conta com perícia boas histórias. Não é fácil, poucos alcançaram esse êxito como Tchekhov, Babel, Borges, Maupassant, Karen Blixen, Rosa e Machado. Até um escritor da grandeza de Thomas Mann demorou a compreender a genialidade de um contista como Tchekhov, impressionado pelo fulgor de romancistas como Tolstoi ou Goethe. Desejo retornar às narrativas dos livros Faca, Livro dos Homens e Retratos imorais. Não penso, neste momento, em encarar um novo romance, por mais que o mercado prefira isso.

 

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Fotos retiradas da revista.

*Franco de Rosa é editor de livros, ilustrador e quadrinhista.