Resenhas literárias podem contribuir com a formação de leitores. Entenda

A depender de seu objetivo, e de como está escrita, uma resenha pode despertar a curiosidade necessária para incitar um novo leitor

Por Tiago Eloy Zaidan* | Foto Shutterstock

Por volta de 1860, o jornal Atualidade, do Rio de Janeiro, publicou uma crítica literária a qual versava sobre a obra Sátiras, epigramas e outras poesias, do padre Correia de Almeida, crítico devotado do autoritarismo da república nascente. O texto analítico era de ninguém menos que Bernardo Guimarães, conhecido pelo livro A escrava Isaura.

A polidez passou longe. Segundo Cláudia Nina, em Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapés às resenhas, Guimarães escreveu: “Se a vulgaridade da ideia, a sordidez do pensamento, se a trivialidade dos conceitos, a insipidez e a dissonância do verso fossem os grandes dotes do cultor das musas, o Sr. Padre Correia seria o maior poeta do mundo”. Pelo que se depreende deste episódio, a história da crítica literária brasileira é mais apimentada do que supõe o apressado.

As resenhas literárias – em geral classificadas como um dos gêneros opinativos do texto jornalístico – podem ser pertinentes como instrumento em favor da leitura. A depender de seu objetivo, e de como está escrita, uma resenha pode despertar a curiosidade necessária para incitar um novo leitor.

Os novos autores são especialmente conscientes do quanto a publicação de uma resenha nos meios de comunicação tem cacife para fazer decolar as vendas de um livro. Isso porque muitas das informações e ideias que chegam até nós dependem do fluxo que a mídia controla, seja por meio de um jornal, blog ou outro veículo. Sem espaço na mídia, uma grande quantidade de títulos é lançada periodicamente sem que os leitores em potencial sequer tomem conhecimento.

PARTICULARIDADES
Vale frisar que resenha não se confunde com resumo. Além de uma bem-vinda sinopse da obra tratada, em geral a resenha conta com uma apreciação crítica, uma angulação própria de quem a escreveu. O caráter opinativo, aliás, ajuda a distinguir uma resenha de uma notícia – gênero jornalístico eminentemente informativo –, ao passo em que a aproxima, de certa forma,
de um texto dissertativo-argumentativo.

Contudo, para quem escreve, uma resenha pode ter um caráter menos sisudo que um texto dissertativo. Para o professor de Língua Portuguesa e Literatura do Instituto Federal de Alagoas Ari Denisson da Silva, o texto dissertativo, por geralmente ser solicitado no bojo de uma avaliação, é menos maleável. “[A dissertação] pede regras bastante específicas para que possa encaixar-se numa tabela de competências a serem observadas da maneira mais geral possível, a fim de mensurar a proficiência do autor de modo razoavelmente justo”. Enquanto isso, “a resenha literária também precisará observar regras de estilo, mas estas, a depender do veículo onde for publicada – periódicos acadêmicos, revistas, jornais, portais de notícias – podem ser flexibilizadas até certo ponto”.

Apesar de ser figura carimbada no jornalismo, a resenha é perfeitamente cabível em sala de aula. Ari Denisson sugere a apreciação de resenhas conjugada à leitura das obras propriamente ditas. Os discentes, após a leitura do texto literário original, poderiam ser incentivados a analisá-lo, como faria um crítico. “A partir daí, o docente poderia trazer as resenhas como uma maneira de demonstrar como um crítico profissional ou um jornalista lê aquele texto, observando os aspectos que ele mais valoriza e as linhas de pensamento que ele segue”, recomenda o professor, o qual é doutorando em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Alagoas.

Este exercício não apenas contribuiria para a imersão dos leitores nas obras, como, ainda, treinaria os alunos para um consumo crítico dos textos jornalísticos. Ao ler uma resenha, após ter realizado sua própria leitura do texto resenhado, o aluno irá se defrontar com a visão do jornalista, a qual, não necessariamente corresponde a sua própria visão. Os alunos também podem ser convidados a confeccionarem as suas próprias resenhas. Sem querelas pessoais com os autores dos textos literários, as análises dos discentes, espera-se, estarão menos revestidas de passionalidade que a crítica de Bernardo Guimarães ao desafeto padre Correia.

*Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco; graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas; coautor do livro Mídia, Movimentos Sociais e Direitos Humanos (organizado por Marco Mondaini, Ed. Universitária da UFPE, 2013) e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB).

Revista Literatura | Ed. 66