Rei das histórias em quadrinhos

Por Nobu Chinen* | Foto: Divulgação / Editora Criativo | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Will Eisner foi o mais completo profissional dos quadrinhos e sempre levou muito a sério essa linguagem. Ao dialogar com alguns de seus pares mais importantes do meio, ele nos oferece verdadeiras lições de como se forma um artista dedicado a fazer dos quadrinhos um produto de excelência. Shop Talk é um legado, o registro precioso não de um, mas de vários dos nomes mais respeitados dos quadrinhos.

Dicas valiosas dos monstros dos quadrinhos

Quem me conhece sabe que sou meio averso a comentar sobre minha própria obra ou mesmo de trabalhos nos quais tive alguma participação. Admito que é importante saber fazer o marketing pessoal e não tenho nada contra quem o pratica, mas não gosto muito de autopromoção, acho meio deselegante.

 

Bom, feito esse esclarecimento, vou pedir licença para falar sobre o livro Shop Talk com o qual tive o privilégio de colaborar como tradutor. Quem me proporcionou a honra de traduzir essa obra fantástica foi o editor Carlos Rodrigues, a quem aproveito para agradecer aqui de público, que resolveu, há certo tempo, publicar alguns dos livros de Eisner e perguntou se eu não gostaria de traduzir um deles e, o melhor, eu poderia escolher qual quisesse. É claro que nem pensei duas vezes. Shop Talk era não só minha preferência, mas minha referência. Além de trazer a grife Eisner, meu autor favorito, o livro ainda tinha depoimentos de outros grandes ídolos meus: Milton Caniff, Harvey Kurtzman, Jack Kirby, Lou Fine, Neal Adams e vários outros. Não podia perder essa oportunidade.

 

Will Eisner e Jack Kirby, o cocriador de grande parte dos personagens do Universo Marvel.

 

Nenhuma das entrevistas era superficial. Eisner, como profissional da área, buscou extrair informações relevantes indo muito além das respostas óbvias e previsíveis. As conversas giraram em torno de todos os assuntos relativos ao meio. Neal Adams falando das dificuldades de se iniciar no mercado dos quadrinhos na década de 1950. Caniff contando como, por telefone, passava as instruções para seu colaborador fazer os desenhos a lápis das tiras de Steve Canyon que ele próprio finalizaria a tinta depois. Kurtzman falando (e deixando Eisner absolutamente pasmo) de como ele e Bill Elder elaboravam caprichosamente cada página de Little Annie Fanny, para a Playboy, trabalhando diferentes tonalidades, distribuindo-as em sete camadas sobrepostas de acetato. São muitos assuntos, casos, “fofocas” de bastidores contadas por artistas que viveram momentos-chave da indústria e, a seu modo, contribuíram para avançar a linguagem ou, no caso de Phil Seuling, os limites do mercado.

 

Eisner e Joe Kubert, que criou uma escola de referência no ensino de desenho em quadrinhos.

 

As entrevistas que compõem Shop Talk haviam sido originalmente publicadas, entre os anos de 1981 e 1984, nas revistas The Spirit Magazine e Will Eisner’s Quarterly, editadas pela Kitchen Sink. Eram tão extensas que costumavam ser divididas em dois números. No Brasil, o primeiro número da Will Eisner’s Spirit Magazine, publicada em 1997 pela editora Metal Pesado, trouxe um trecho da entrevista de Jack Kirby, mas como o título não teve continuidade, o texto ficou incompleto. A versão em livro só saiu em 2001, pela editora americana Dark Horse.

 

Quase todos os entrevistados, bem como o próprio entrevistador, já faleceram, alguns deles, aliás, já tinham morrido antes mesmo da publicação do livro nos Estados Unidos. No entanto, a obra deles todos continua sendo publicada e é alvo de admiração das novas gerações mundo afora, provando, mais uma vez, que a grande arte sobrevive ao próprio criador.

 

Will Eisner

 


William Erwin Eisner (06/03/1917 – 03/01/2005) é reconhecido internacionalmente como um dos maiores nomes das histórias em quadrinhos, ou “Arte Sequencial”, um termo mais sofisticado que ele criou. Eisner atuou na produção de quadrinhos durante quase 70 anos, tendo visto todas as mudanças pelas quais o segmento passou, até chegar aos atuais quadrinhos digitais (que podem ser lidos em plataformas diferentes do papel, como tablet, celular etc.). Seu estilo de enquadramento e “iluminação” nos quadrinhos – com uma arte em claro-escuro marcante e dramática – fez com que ele fosse citado com frequência como o “Orson Welles dos quadrinhos”. Através de seu personagem “The Spirit”, Eisner desenvolveu todo o potencial das HQs como forma de narrativa gráfica, estabelecendo os principais elementos de sua linguagem. Mas ele criou muitos outros personagens, inclusive superheróis, até que passou a empregar seu talento para narrativas mais maduras em quadrinhos com formato de livros, que viriam a ser conhecidas nos EUA como “graphic novels”. Sua importância para o meio das HQs é tanta, que o principal prêmio dado a artistas do gênero tem o seu nome, o Will Eisner Award.

 

Shop Talk

Por que é legal ler

Pelo tom natural dos diálogos, ler o livro é como acompanhar o papo gostoso de velhos amigos.

Por que é importante ler

Nenhum outro livro reúne gente tão gabaritada para falar sobre um tema sobre o qual eles têm total domínio.

 

 

*Nobu Chinen é publicitário e professor universitário. Pesquisador de quadrinhos, autor dos livros “Linguagem HQ. Conceitos Básicos” e “Linguagem mangá. Conceitos básicos”

Adaptado do texto “Papo de gente grande”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 66