Rastreando a Retórica em Guimarães Rosa

Por Maria Aparecida Damasceno Netto de Matos* | web Caroline Svitras

No auge da democracia clássica grega a oralidade era tão valorizada que as primeiras disciplinas ensinadas nas escolas eram: lógica, gramática e retórica. Os conceitos retóricos, porém, foram sendo abandonados através dos séculos.

 

Recentemente, no entanto, devido a uma nova postura filosófica, em que se dá conta de ser a sentença governada por forças textuais e discursivas, observa-se o redespertar da Retórica na forma das chamadas Novas Retóricas. Na verdade, pode-se afirmar que os retóricos nunca abandonaram o texto e o discurso. Neste artigo, apresento alguns resultados de pesquisa que venho desenvolvendo sobre a linguagem oral-escrita de Guimarães Rosa, analisando retoricamente os contos Primeiras Estórias e a novela O Recado do Morro. É meu objetivo mostrar, a despeito do descaso com que têm sido tratadas as figuras retóricas por parte dos especialistas em estudos literários, que elas constituem uma rica ferramenta para a análise de textos literários. No caso específico da literatura Roseana, cuja linguagem é considerada estranha e singular, constata-se que grande parte dos recursos linguísticos utilizados por Rosa, considerados inovadores, já se encontram há muito arrolados entre as figuras retóricas. Pretendo também demonstrar que, além da significativa presença de figuras de dicção, as de pensamento e os tropos — o emprego figurado de palavra ou locuções — vinculados à elocutio, elencadas pelos retóricos antigos, identifica-se também, na linguagem Roseana, expressiva presença de traços de inuentio retórica, expressos pelo uso de argumentos retóricos, além de outros processos que guardam estreita relação com os ensinamentos dos clássicos.

 

No final dos anos 1950 e princípios dos anos 1960, o interesse pela retórica renovou-se com o surgimento do que ficou conhecido como a nova retórica. Não se tratava de um movimento homogêneo, mas de várias correntes que partilhavam entre si um interesse muito diverso pela retórica. Uma dessas correntes incluía Roland Barthes que reduzia a retórica ao conhecimento dos procedimentos da linguagem que são característicos da Literatura, isto é, às figuras de estilo.

 

A esta corrente de tendência literária opunha-se, no entanto, a de Chaïm Perelman, cuja obra principal, escrita com Lucie Olbrechts-Tyteca, é o Tratado de Argumentação, publicado em 1958. Na tradição de Aristóteles, Perelman vê na retórica a teoria do discurso persuasivo. O seu ponto de partida é o problema da justificação do juízo de valores e, por extensão, da moral, do direito e da política — a procura de uma lógica paralela à lógica demonstrativa, uma lógica do juízo de valores identificado com a retórica. A obra de Perelman é responsável pelo ressurgimento do interesse e pela renovação da retórica no século XX.

 

1. Língua oral

É inegável que os estudos linguísticos da oralidade quanto mais são investigados mais suscitam indagações. Sabe-se que a linguagem é predominantemente oral. Das três mil línguas hoje faladas, somente setenta e oito têm, de fato, uma literatura. W. Ong (1967) admite que “ver a linguagem como um fenômeno oral parece inevitável e óbvio”.

 

Marcuschi (2001) define oralidade como “uma prática social interativa para fins comunicativos que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na oralidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso.

 

É inegável que os estudos linguísticos da oralidade quanto mais são investigados mais suscitam indagações. É inegável que os estudos linguísticos da oralidade quanto mais são investigados mais suscitam indagações. Se por um lado atribui-se à linguagem falada as características de “linguagem menos culta”, desvalorizada, sem “regras normativas”, por outro lado, ela é considerada como natural e, portanto, estabelece-se a primazia do discurso oralizante.

 

É falso afirmar que a oralidade privilegia apenas a espontaneidade, o relaxamento e até a falta de planejamento. Os pensamentos e expressões na língua oral são altamente organizados, mas desconhecidos, geralmente pelas pessoas acostumadas à cultura escrita. Dessa forma, como disse Fávero (2003), “é necessário mostrar que há diferentes níveis de fala e escrita, isto é, diferentes níveis de uso da língua, e que a noção de um dialeto ou falar padrão uniforme é apenas teórica, já que isso não ocorre na prática”. Para se entender o oral e o escrito, não como visões antagônicas, mas como variações das formas em que o mundo do discurso está dividido, os estudiosos têm se colocado entre dicotomias. Não é meu objetivo discutir a superioridade entre as duas modalidades de linguagem, que embora sejam dois sistemas discursivos diferentes, completam-se e são, para a comunicação, igualmente importantes.

 

2. Oralidade – escrita em Guimarães Rosa

A maioria dos estudos sobre os textos de Guimarães Rosa toma, como referencial teórico, o conteúdo literário. Alguns se concentram no conteúdo metafísico-filosófico, nos elementos épicos e míticos. O Recado do Morro, por exemplo, se constrói norteado pela simbologia do número sete. Apesar do mérito literário dos textos Roseanos em português e em outras línguas, acredito que a diferença de enfoque, ainda pouco explorado, justifica a elaboração de mais um estudo sobre o tema: a oralidade – escrita em Guimarães Rosa.

 

Nas culturas orais, os provérbios constituem a substância do pensamento. Para Ong (1998), o pensamento oral é impossível sem os provérbios, porque consiste neles. Nesse sentido, provérbios e ditados não são meras “decorações jurisprudenciais”, mas constituem a própria lei. Dessa forma, encontram-se várias expressões com sabor proverbial, povoando o universo oral de Guimarães Rosa: … o que não põe nem quita (67), Primeiras Estórias.

 

Ainda no caso específico de Rosa, como já afirmado, constata-se presença de importantes figuras retóricas. Iremos mostrar algumas tiradas da Retórica a Herênio, de Cícero, apud Mendes, 2010 e outros. São vinculadas à elocutio retórica.

.Figura de dicção: comprida, comprida… (65), Primeiras Estórias
– repetição (Português)
– repetitio (Latim)
– epanophorá (Grego)

.Figura de pensamento – Nós, cá fora. Seo Fifino meu filho desta banda, o Bibião na parte do morro, na ponte do córrego o Baldualdo (148), Primeiras Estórias
– brevidade (Português)
– Bremitas (Latim)
– enárgeia (Grego)

.Tropos: … olhava-o, de arrevirar bogalhos (24), O Recado do Morro
– superlação (Português)
– superlatio (Latim)
– hyperbolé (Grego)

 

Vale observar alguns exemplos comuns na fala sertaneja e presentes na arquitetura retórica:

Adagium: E, sem pau nem pedra… (27), O Recado do Morro.

Metaplasmo: …tornar a escutar os sofrês cantando claro…(13), O Recado do Morro.
Epexegesis: Éramos onze,digo, doze (83), Primeiras Estórias.

 

Identificam-se, também, traços da inuentio retórica: Percebem-se, no enredo curto e cheio de surpresas, casos do sertão. Pode-se chamar a isso “indução plena da lógica”, ou seja, “ exemplo”.

 

Os argumentos retóricos são tridimensionais, mas para o estudo dentro da retórica, dividem-se em três estratégias, isto é, em três tipos diferentes de argumentação: lógos, que diz respeito à argumentação racional propriamente dita; éthos refere-se ao aspecto ético ou moral que o enunciador deixa entrever em seu discurso e páthos relaciona-se ao envolvimento do interlecutor.

 

Alguns argumentos retóricos, com os quais o leitor se depara nos textos Roseanos, chamam a atenção. Cito dois diferentes tipos de persuasão:

 

Pelo Éthos:

Na minha família, em minha terra, ninguém conheceu uma vez um homem, de mais excelência que presença, que podia ter sido o velho rei ou o príncipe mais moço, nas futuras estórias de fadas.

 

Pelo Páthos:

Escutem minha voz que é do Anjo dito, o papudo: o que foi revelado.Foi o Rei, o Rei Menino, com espada na mão!… Ninguém tem tempo de se salvar… Aceitem meu conselho, venham em minha companhia… Deus baixou as ordens, temos só de obedecer,É o rico, é o pobre, o fidalgo,o vaqueiro e o soldado…Seja Caifaz, seja Malaquias! É o fim é à traição.Olhem os prazos!…

 

Considerações finais

Neste artigo, busquei incitar uma reflexão prévia sobre oralidade, objetivando revitalizar a Retórica dentro da oralidade – escrita em Guimarães Rosa, descobrindo traços, vinculados à elocutio, expressos pela presença de figuras de pensamento, de dicção e do tropos – o emprego figurado de palavra ou locução, e à inuentio, pelo uso de argumentos retóricos, além de outros processos que guardam estreita relação com os ensinamentos dos clássicos…

 

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Fotos: Conhecimento Prático – Literatura Ed. 52

*Maria Aparecida Damasceno Netto de Matos – Professora de Leitura e Produção de Textos da Faculdade “Santa Rita” – Fasar – Conselheiro Lafaiete – MG, Pós- Graduada Lato Sensu em Leitura e Produção de Textos, pelo UNI-BH e Mestre em Linguística, pela UFMG.

Adaptado do texto “Rastreando a Retórica em Guimarães Rosa”