Quem foi Emily Dickson

A poesia melancólica de umas escritoras mais importantes da Literatura Norte-Americana apresenta elementos que refletem a sua vida reclusa numa linguagem bastante inovadora

Por Edmilson Sá* | Adaptação web Caroline Svitras

Emily Dickinson viveu em Amherst, Massachusetts, de 1830 a 1886 e, assim como Robert Frost, é associada à Nova Inglaterra. Porém, diferente de Frost, que escreveu sobre seu cenário e sobre seu povo, Emily Dickinson escreveu principalmente sobre si mesma e foi nas poesias que divulgou o impacto que sua vida muito restrita teve sobre elas.

 

Nascido em 1874 e falecido em 1963, Robert Frost foi um dos mais populares e respeitados poetas americanos, tendo recebido, em vida, quatro prêmios Pulitzer de poesia.

Era a segunda filha de Edward e Emily Norcross Dickinson. Proveniente de uma família abastada, Dickinson teve formação escolar irrepreensível, chegando a cursar durante um ano o South Hadley Female Seminary. Quando completou os estudos, a jovem Dickinson retornou à casa dos pais para cuidar deles, juntamente com a irmã Lavínia que, como ela, nunca se casou.

 

Após uma breve educação elementar, a escritora realista iniciou sua reclusão espontânea na casa de sua família. Vestida sempre de branco como um avental, criou fama como um mito local, uma mulher que se recusava a sair de casa e jamais era vista por estranhos que acaso visitassem a casa de sua família. Por não ter se casado, seus biógrafos até hoje se esforçam para determinar até que ponto seus amores platônicos evoluíram.

 

Filha de puritanos da Nova Inglaterra, Dickinson surpreendia seu pai, um importante advogado da cidade, com seu gosto por literatura e seus hábitos pouco usuais. Em sua casa a única leitura permitida era a Bíblia. Seus primeiros livros eram lidos secretamente para que seu pai não descobrisse. Em torno de Dickinson, construiu-se o mito acerca de sua personalidade solitária, sendo até considerada a “Grande Reclusa”. É importante que se diga que este comportamento de Dickinson coadunava-se com o modelo de conduta feminina que era apregoado no Massachusetts de 1800.

 

A poesia de Ferreira Gullar

 

Dickinson em raros momentos deixou sua vida reclusa, tanto que, em toda sua vida, fez poucas viagens: algumas para a Filadélfia para tratar de problemas de visão e uma para Washington e Boston. Foi numa destas viagens que ela conheceu dois homens que teriam marcado influência em sua vida e inspiração poética: Charles Wadsworth e Thomas Wentworth Higginson. Alguns críticos até creditam a Charles Wadsworth, um clérigo de 41 anos, que conheceu em sua viagem à Filadélfia, como sendo o alvo de grande parte dos seus poemas de amor.

 

Cartas valiosas

Quase tudo que se sabe sobre a vida de Emily Dickinson tem como fonte as correspondências que ela manteve com algumas pessoas, dentre elas Susan Dickinson, que era sua cunhada e vizinha, alguns colegas de escola, familiares e alguns intelectuais como Samuel Bowles, o Dr. e a Mrs. J. G. Holland, T. W. Higginson e Helen Hunt Jackson. Nessas cartas, além de tecer comentários sobre o seu cotidiano, havia também alguns poemas.

 

Em 1862, quando a escritora começou a se corresponder com o poeta Thomas Wentworth Higginson, o qual tratava jocosamente como preceptor, sua primeira carta a ele se iniciava com a seguinte pergunta: “Estaria o senhor atarefado demais para me dizer se meus versos têm vida?”. Higginson ficou surpreso com a poesia de Dickinson, que jamais demonstrou interesse nos padrões tradicionais que ele tanto prezava e apressou-se em corrigir os “erros” daqueles poemas, operações que ela ironicamente chamava de “cirurgias”.

 

Higginson, no entanto, escreveu um importante texto tratando de sua correspondência com Dickinson. Embora no íntimo não a considerasse uma poeta de grande talento, tendo chegado até a desestimular a publicação de seus poemas, ele exerceu papel importante em sua correspondência com Dickinson, que é considerada valiosíssima não apenas para seus biógrafos, mas também por seus dotes literários. Certa vez, ao pedir um retrato de Dickinson, Higginson recebeu uma intrigante descrição: “Sou pequena como um passarinho. Meu cabelo é arisco como a semente da castanheira e meus olhos são como o xerez na taça deixada pelo conviva. Será que isto bastaria?”.

 

O curioso é que na primeira visita que a fez, Higginson a perguntou como vivia isoladamente sem sair de casa sequer para viagens, sem um trabalho. Emily respondeu que as tarefas domésticas a bastavam: “Alguém tem que fazer os pudins”. Para Emily bastavam as “colinas e o pôr-do-sol”. Seu dicionário era também um grande companheiro.

A linguagem de Dostoiévski

 

Conta-se também que, numa manhã em que Lavínia arrumou o quarto de Dickinson após sua morte, encontrou uma gaveta bem desarrumada com cadernos e folhas soltas com uma grande quantidade de poemas inéditos. No intuito de divulgar a poesia de sua irmã, Lavínia encontrou em contato com Higginson, que, como se pode perceber, renegou todos os versos que Emily lhe submetera e isso durou trinta anos. Lavínia também entrou em contato com uma abstrusa escritora, Mabel Todd que, por cinco anos, havia frequentado a casa da poetisa sem nunca chegar sequer a vê-la. Graças à união desses dois escritores, surgiu a publicação póstuma de alguns de seus poemas, seguida em pouco tempo de diversas outras edições, em vista da excepcional acolhida que tiveram. Por muitos anos ela viveu como reclusa, enquanto raramente se aventurava para fora da cerca viva que perpassava pela casa de seu pai, exceto para visitar seu irmão por uma porta próxima. Nesse ambiente solitário e quase sempre anônimo, Dickinson produzia seus poemas ambíguos e irônicos, abertos a diferentes possibilidades de interpretação, como se já prognosticasse a liberdade de expressão do período moderno, que surgiria após a sua morte. É, pois, esse misto de solidão e bucolismo que dá hoje a Emily Dickinson um merecido lugar na literatura universal.

 

Dickson e a solidão na Literatura

Vale a pena apregoar também que a autora americana explorava o mundo dos livros. Ela era uma pessoa profundamente religiosa, embora sua forma de adoração poderia parecer não convencional como pode ocorrer em “Alguns Guardam o Sábado Indo à Igreja”, e seus pensamentos remetiam frequentemente à morte e à imortalidade.

 

Emily Dickinson faz parte de um nicho literário que abriga escritores envoltos em uma irresistível aura de mistério. Autores como Rimbaud, Salinger, Genet, Pynchon e Burroughs, de uma forma ou de outra, criaram mitos que, muitas vezes, são mais responsáveis por suas reputações que suas próprias obras. No entanto, Emily é um caso singular mesmo entre estes autores.

 

A lírica de Baudelaire

 

Dickinson escrevia impetuosamente em papéis de embrulho, envelopes usados ou pedaços de papel. Apenas alguns de seus poemas foram intitulados e muitos têm mais de uma versão, sendo difícil saber qual é a definitiva, ou mesmo se há uma versão definitiva. Sua reclusão e seu desinteresse por rodas literárias e autores de seu tempo mantiveram sua obra distante do público até após sua morte. As primeiras seletas de seus poemas foram publicadas após 1890. Muitos editores decidiram “corrigir” os poemas, substituindo seus característicos travessões por pontuação convencional, corrigindo o uso de iniciais maiúsculas, inserindo conjunções e artigos e estabelecendo títulos para muitos deles.

 

Emily Dickinson foi propriamente descoberta já neste século quando os modernistas se encantaram com sua obra, que guarda grande semelhança com os autores do período. De fato, Dickinson antecipou muitos artifícios que só foram introduzidos muito depois de sua morte. Além disso, aboliu a rigidez na métrica e na rima, insistindo em variantes métricas não fixas e em rimas assonantes. Seus poemas são também concisos e telegráficos, diferindo muito do estilo discursivo de sua época.

 

Seus poemas tratam basicamente da morte, do amor e da natureza, nos primeiros casos de forma fervorosa, refletindo sua influência da Bíblia e dos hinos religiosos, e no último com uma leveza poucas vezes tão bem realizada em poesia. Fazendo uso de elementos simples da natureza, como flores, abelhas e colinas. Seus poemas são rápidos instantâneos que retratam com maestria impressões epifânicas. As mais básicas experiências diárias eram para Dickinson fontes inesgotáveis de encantamento, ironia e ambiguidade. Sua sensibilidade e sua imaginação compensavam enormemente seu isolamento e a trivialidade de sua vida diária. “Encontro êxtase na vida”, disse ela, certa vez, pois “a mera sensação de viver é felicidade bastante”.

 

Dos 1775 poemas que Dickinson escreveu apenas 10 foram publicados durante sua vida, todos anonimamente. Pouco a pouco, os breves poemas que ela escreveu e guardou durante anos em meros alfarrábios de papel foram juntamente levados. Uma seleção apareceu pela primeira vez em 1890. Em 1955, uma edição definitiva foi publicada pela Harvard University Press.

 

Hoje, Emily Dickinson é classificada como uma das poetisas verdadeiramente espetaculares da América. Seus poemas são novos e originais: ela trata da liberdade com gramática, pontuação e uso de maiúsculas e minúsculas; e suas inovações estão cada vez mais sugestivas. Porém, mais particularmente é a fusão caprichosa de pensamento com suas pinceladas rápidas de verdade que encantou uma nação e estende a sua reputação no exterior.

 

Muitos de seus poemas têm sido traduzidos em vários idiomas em todo o mundo. Manuel Bandeira realizou a excelente tradução de “I died for beauty” que ele intitulou de Beleza e Verdade:

Beleza e Verdade

Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.
(Antologia da Poesia Americana,
Ediouro, 1992 – RJ, Brasil.)
Nunca vi um campo de urzes
Nunca vi um campo de urzes.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei a urze como é,
Posso a onda imaginar.

Nunca estive no Céu,
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.

Minha vida acabou duas vezes
Já morri duas vezes e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida,
Sofrerei assim
Dor tão profunda e desesperada,
O pungir cotidiano e eterno.
Só sabemos do céu que é adeus,
Basta a saudade como inferno.

*Edmilson Sá é professor de Literatura Norte-Americana no Centro de Ensino Superior de Arcoverde e mestre em Linguística – UFPE e Doutor de Letras – UFPB. Contato: edmilsonjsa@hotmail.com

Adaptado do texto “A natureza e a Clausura em Emily Dickson”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 57