Prepare-se para o vestibular

Confira a análise do professor Caio Fernando de Oliveira e tire de letra as provas do vestibular e o Enem

Por Caroline Svitras | Foto: Shutterstock

Estamos na metade do ano e com a aproximação de um novo semestre vem também a chegada da época de Enem e vestibulares. Este período pode parecer tenso e cansativo para o estudante, mas revisar diariamente o conteúdo para as provas e manter-se calmo e confiante é a melhor pedida para tirar os exames de letra e garantir sua vaga na Universidade.

Para ajudar você, estudante, a se preparar para esse desafio, decidimos preparar um conteúdo com a análise das obras de leitura obrigatória da Fuvest. O primeiro escrito analisado é Memórias Póstumas de Brás Cubas, clássico de Machado de Assis. Confira a revisão oferecida pelo professor e coordenador do colégio Eniac, Caio Fernando de Oliveira, e boa prova!

 

Você pode nos explicar melhor o período em que ela foi escrita e como o livro se relaciona com o contexto da época?

O século XIX, mais precisamente a segunda metade do século, oferece-nos um retrato de uma civilização que passa por transformações profundas que preparam, em certa medida, o mundo como o conhecemos hoje. O fim da escravidão, os ventos republicanos, as mudanças na geopolítica mundial, o advento de uma nova ordem econômica guiada pelo capitalismo, um enfraquecimento da Igreja católica, a industrialização tardia que acometeu o Brasil são acontecimento que circundam o surgimento das Memórias. Mas, dentre tantos acontecimentos que podem contextualizar, o Cientificismo da época parece ser aquele que mais agrada aos vestibulares, quando a ideia é entender a obra à luz do seu momento histórico.

O Cientificismo é uma corrente de pensamento que pretende se distanciar da observação subjetiva do universo e lançar sobre ela um olhar mais objetivo, guiado pela razão e pela ciência. Grosso modo, o cientificismo pretender ocupar um espaço que invariavelmente disputa com a subjetividade humana.

Memórias Póstumas é uma obra que dialoga com este contexto na medida em que pretende lançar sobre o homem um ponto de vista que enfatiza a diferença entre o que o homem deve ser e o que ele realmente é, afastando desta análise as variáveis subjetivas de índole ou de algum tipo de influência divina e metafísica na constituição do caráter do sujeito. Em Memórias Póstumas, o homem é o que é e não aquilo que os deuses querem que ele seja. Trata-se do que veio se chamar Determinismo Social, diferente da ideia de destino, intrínseca à mitologia cristã de um deus que guia o futuro da humanidade.

Estes paradoxos (“o que o homem é e o que deve ser”) dão um tom irônico e se transformam, na mão do hábil M. de Assis, em um dos principais instrumentos para denúncia das mazelas e contradições da alma humana.

Brás Cubas, protagonista e narrador da obra, é um sujeito de índole duvidável. Trata-se de um homem mesquinho, mentiroso, oportunista, aproveitador, machista, racista, arrogante, falastrão, dentre outros predicados pejorativos que ainda caberiam. Estes predicados saltam aos olhos do leitor melhor avisado justamente a partir da comparação entre o que narra o protagonista e aquilo que realmente é.

Como exemplo, sua relação com a jovem Eugênia. Ali, temos o retrato de um sujeito menor que diminui a humanidade de Eugênia na medida que a vê, tão somente, como um corpo físico, ignorando sentimentos vários que habitam a alma humana e que afloram principalmente nas situações de flerte, como era aquela que envolveu Brás e a jovem Eugênia.

Não obstante, também há o momento em que relata o velório do pai. Brás gasta boa parte das palavras refletindo sobre a importância do nariz. Trata-se de um egocentrismo incoerente com o que se espera de um filho que viveu sempre às custas do pai dando-lhe bons números de desgostos.

Esta atmosfera de paradoxos tão absurdos e evidentes dá ao texto um tom irônico que se transforma, na mão do hábil M. de Assis, em um ótimo instrumento de análise da alma humana e distancia-se do romantismo de observá-la à luz das vontades divinas.

Qual o movimento ao qual pertence a obra? Quais suas principais características? 

Trata-se da obra inaugural do Realismo no Brasil.

O Realismo nasce do cansaço do romantismo. Ou seja, a idealização romântica que criou a virgem Iracema, de José de Alencar, dá lugar à Virgínia, que, por exemplo, – apesar do irônico nome – conserva uma relação adúltera com o próprio Brás.

De fato, o Realismo pretende chocar a arte acadêmica da época. É aí que ganha força aquilo a que se chama de “romance de tese”. São romances que pretendem comprovar teorias cientificistas a partir da observação do comportamento das personagens nas obras. Tal como se fossem ratos de laboratório. Mas, é bem verdade, que Machado de Assis consegue subverter esta determinação e dá às personagens uma humanidade que engrandece a análise e faz da obra um compêndio de consulta que deve ser sempre visitado quando se quer entender a alma do homem.

 

Você pode citar alguns elementos no texto que explicitam características desse movimento? 

Ao apresentar um defunto-narrador, Machado encontra uma saída literária para apresentar o homem em sua forma mais pura, longe da influência de análises metafísicas ou subjetivas, afinal – seu narrador já se afasta da perspectiva cristã, visto que Deus não aparece para ele no momento da morte como espera a mitologia cristã.

É certo dizer que, em Memórias, a idealização romântica é descartada. Podemos elencar: as personagens perdem o glamour das histórias românticas; a organização da obra é disruptiva em relação à literatura praticada até então; as relações humanas não são guiadas pelo amor, mas sim por forças escusas como o sexo, o status social e o dinheiro (não há o amor que outrora via-se nas obras românticas, mas um jogo de mentiras, traições e falsidades a que as personagens da obra dão o nome de amor).

 

 

O que é importante que o estudante saiba sobre o escrito?

A leitura das Memórias Póstumas deve ser feita, principalmente, com o aviso de que o narrador que conduz a história está comprometido a convencer o leitor de que as incoerências que relata são reais. Assim, o exercício é manter-se sempre em desconfiança.

Observar o relato parcial que Brás Cubas faz do momento político e econômico brasileiro, bem como da situação dos negros, das mulheres, dos pobres, enriquece a leitura e permite ao aluno entender a intenção da obra, o que parece ser o mais interessante aos vestibulares.