Práticas pedagógicas libertadoras e a vacilação

Experiências simples em sala de aula que estimulam o envolvimento do aluno leitor com o texto revela as infinitas possibilidades de leitura e de produção de sentido

Por Douglas de Oliveira Tomaz* | Foto Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

De arquitetura simples, eu havia planejado uma aula de oficina de texto, para as turmas do nono e primeiro ano, que funcionaria a partir do estímulo à produção de uma síntese criativa. Os alunos receberiam um texto, leríamos juntos, discutiríamos seu conteúdo, e depois lhes orientei para que buscassem trechos (palavras, frases, parágrafos) que lhes tivessem subjetivamente impressionado. Após essa seleção individual, teriam que recortar esses trechos e reorganizá-los de modo que produzissem, ou não, algum sentido novo. O texto deveria ser curto, poderia conter uma frase, inclusive. O objetivo era sua participação ativa tanto na compreensão do texto original, intrometendo-se literalmente nele, recortando-o, selecionando as melhores partes; quanto na elaboração de um novo sentido a partir das palavras selecionadas originalmente por outro autor. Nasceria, desta forma, uma relação de coautoria do texto novo.

Os escritos utilizados como base foram: Sobre ser gorda e a farsa da feminilidade, de Beatriz Rodrigues, publicado virtualmente na Revista Capitolina, para a turma do nono ano; e o conto Tentação, de Clarice Lispector, para a outra turma. A seleção dos textos, mais tarde percebi, colaborou para o bom resultado da experiência, pois tanto houve uma identificação instantânea com o assunto discutido no primeiro (o que aumenta o interesse na leitura e no próprio desenrolar da atividade), como uma quase garantia de bons frutos devido ao trabalho poético do segundo.

Enquanto as aulas aconteciam, compreendi aos poucos as diversas camadas da metodologia aplicada. Com cada aluno reorganizando palavras e frases a partir de uma orientação subjetiva, percebi que um texto contém em si infinitos outros, infinitas possibilidades de leitura e produção de sentido — conclusão nada nova, mas só então apreendida. Além disso, o processo de leitura me pareceu ainda mais honesto graças à possibilidade física de recortar o texto e selecionar apenas aquilo que lhes interessasse — muitos somente compreenderam o conteúdo original desta forma, a partir de suas partes. Sem contar, claro, o empoderar-se enquanto ser com capacidade de escrita. Uma aluna do primeiro ano, aparentemente desanimada no início da aula, não havia entendido o conto de Clarice apenas com a primeira leitura. Mas, quando conseguiu produzir o seu próprio texto sintético a partir do conto, ela, mais do que compreender o enredo original, enxergou-se nele. Admirada, me disse no final da aula: “Professor, eu recortei bem aleatoriamente os trechos, mas quando li, o texto era sobre mim!”.

O resultado foram sínteses como estas:

Maria Victória, aluna do nono ano e Beatriz Rodrigues, colunista da revista Capitolina, a partir do texto sobre Ser Gorda e a farsa da feminilidade | Foto:Reprodução/Imagem fornecida pelo autor do texto

 

Mateus Aranha, aluno do primeiro ano & Clarisse Lispector, escritora, a partir do conto tentação | Foto:Reprodução/Imagem fornecida pelo autor do texto

 

Anne Gabrielle, aluna do primeiro ano e Clarisse Lispector, escritora a partir do conto Tentação | Foto: Reprodução/Imagem fornecida pelo autor do texto

A poesia e a profunda compreensão do mundo contidas nesses textos me atravessaram após o trabalho, me fizeram pedir abrigo em casa, tatear inconscientemente por algo. No fundo, foi a esperança, vital ao regime de pensamento democrático, o que me deixou atravessado. Sua capacidade atestada de transformação do mundo.

Mas o que me motiva a compartilhar essa experiência é o desejo de que todos saibam que esse regime de pensamento não está pronto, não é uma cartilha ou um livro didático — na minha prática em sala de aula, inclusive, percebi o quão aprisionantes são os livros didáticos. E, por não ser tão simples como seguir qualquer matriz curricular, é esperado que o modo de pensar aberto ao outro, ao diálogo, vacile, erre, pois a vacilação e o erro são típicos de qualquer processo aberto a si mesmo, honesto.

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Há uma angústia e ansiedade grandes entre educadores comprometidos com uma educação libertadora em relação às metodologias testadas, à eficiência em dialogar, em atingir o outro com alguma reflexão verdadeira e despertar inquietudes subjetivas e alguma consciência do mundo em que está. Este texto foi escrito para relembrar a lição de Paulo Freire e dizer: calma, assumir esse papel de educador também significa assumir-se educando, passível de erros, não exclusivo detentor de verdades, não exclusivo detentor de conhecimento; educar justamente significa troca. Seu saber mais o do outro formarão, enfim, o conhecimento, resultado de uma construção conjunta. Ansiedade e angústia só acontecem devido à falta de confiança que se tem em relação à existência do saber do outro. Confiar que nossos alunos e alunas têm tanto a nos oferecer quanto nós a eles nos faz relaxar mais na prática educacional diária, o que alivia a pressão por eficiência tão típica do capitalismo, além de empoderá-los.

Não custa lembrar que essas contradições, erros e falta de segurança em relação a propostas pedagógicas emancipatórias só existem porque teimamos em pensar e praticar uma educação libertadora em um sistema que trata o aluno como produto a ser escoado para o mercado. Ou seja, na maioria das vezes não são causados por problemas individuais, falta de competência do educador-educando, e sim por toda a pressão estrutural existente para que sejamos os controladores das máquinas. Resistir também envolve quedas. Conhecer-se, conhecendo o outro, envolve vacilações. Não admitir isso é agir segundo as metas de eficiência impostas.

Este texto é para que todos eduquem e permitam-se ser educados, com os ombros mais relaxados, tensões mais dissipadas, silêncios mais vivos, corpos mais abertos ao que nascerá do encontro. Precisamos, enfim, saber incorporar tropeços. Utilizá-los como método.

*Douglas de Oliveira Tomaz é professor da rede privada de ensino em Pirapora (MG), além de escritor e autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br.

 

Revista Literatura Ed. 64