Poesia para quê?

Poesia em relevo na Pós-era dos extremos

Por Valmir Luis Saldanha* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Deriva de Alfredo Bosi a reflexão sobre “Os estudos literários na era dos extremos” que ora nos guia. O crítico foi buscar no conhecido livro de Eric Hobsbawm, sobre o “breve século XX”, a ideia de que se viveu a era dos extremos entre 1914 e 1991, e de que isso pode ter trazido dois polos para a cultura letrada desse período: o indivíduo-massa — cuja personalidade é construída pela lógica do mercado — e o indivíduo diferenciado — “maneirismo pós-moderno feito de pastiche e paródia, glosa e colagem” (BOSI, Alfredo. Literatura e Resistência. São Paulo: Ed. Cia das Letras, 2002, p. 252). Com isso, Bosi chega à conclusão de que “hoje, quem dá as cartas e conta os pontos do jogo é o vale-tudo do mercado ou, à sua margem, mas bem protegido pela Academia, o discurso sofisticado da desfiagem retórica” (BOSI, 2002, p. 254).

 

Sétimo ocupante da Cadeira nº 12 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 2003, Alfredo Bosi escreveu os livros Pré-Modernismo (1966) e História Concisa da Literatura Brasileira (1970). | Foto: Divulgação

A abordagem de Alfredo Bosi, como era de se esperar, está toda encerrada no discurso de Hobsbawnm, para quem a crise mundial vivenciada era derivada de um “aparente fracasso de todos os programas, velhos e novos, para controlar e melhorar os problemas da raça humana.” (HOBSBAMW, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX: 1914-1991. 2 ed. Tradução de Marcos Santarrita; Revisão técnica de Maria Célia Paoli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 541.)

 

Como se vê, na era dos extremos, os estudos literários, culturais, ou mesmo humanísticos já pareciam ter perdido terreno. Sendo assim, o que devemos entender quando alguém se propõe a estudar poesia no século XXI, ou no que eu chamo de Pós-Era dos Extremos? Para responder a essa pergunta, temos de passar por uma visão crítica dos anseios que moveram e movem nossa sociedade ontem e hoje, e por uma prospecção do futuro que se deseja abrir às gerações vindouras.

 

Poesia X mercado de trabalho

Há quase um consenso de que o mundo do século XXI e as novas tecnologias pedirão cada vez mais pessoas que estejam aptas a trabalharem em rede, conectadas, que saibam resolver situações-problema imprevisíveis, que sejam boas no trabalho em grupo e excelentes nas metas pessoais, que sejam criativas e inovadoras, buscando sempre “otimizar” os lucros com a diminuição de despesas e, se possível, respeitando o meio ambiente.

 

Nesse contexto eminentemente pós-industrial em que se configurou a chamada era cibernética, em que tudo é passível de se dar por intermédio do virtual e do digital é que, hoje, inserem-se os estudos literários. Dessa forma, convém perceber que há estreita relação entre os saberes, as competências e as habilidades que se esperam de um trabalhador ou de uma trabalhadora do século XXI e os estudos literários, principalmente, em nosso caso, no que tange ao poema e à poesia.

 

A poética de Vinicius de Moraes

 

Durante muito tempo imaginou-se que o poeta ou a poetisa eram seres inspirados por uma entidade mágica, espiritual, e que apenas tomadas pelo transe seriam capazes de dar à luz suas criações. Ao mesmo tempo, havia aqueles que observavam no ato da criação poética não uma inspiração divina, mas a revelação de um trabalho intelectual mais racionalizado, meticuloso e ordenado. Por certo, quer seja de uma forma quer seja de outra, todo poema está centrado na ideia de criação, criatividade e imaginação, sem que se possa definir com precisão o quanto há de intuitivo ou de racionalizado em cada palavra que o constitui.

 

 

O sentido mais genérico que os dicionários dão para a palavra criar é o de “dar existência a algo ou a alguma coisa”, ou seja, o de gerar algo ou alguma coisa. Daí que não se pode gerar algo sem que alguém seja o responsável por essa geração e a este ser gerador nós chamaremos de poeta ou de poetisa. Por consequência disso, são muitas vezes classificados como gênios criativos os poetas e as poetisas que inventam mundos por meio das palavras e que fazem existir outras possibilidades de vivência para além daquela que ocupa o cotidiano sumário da maior parte das pessoas. Por isso, são os responsáveis por gerar, germinar, dar princípio, fecundar, dar forma, enfim, imaginar.

 

Não são outras as habilidades que se elogiam nos homens e mulheres que são produtivos e ativos no atual mercado de trabalho. Também estes precisam atingir metas de maneira criativa e dar forma a uma vivência para além do cotidiano, mas que, necessariamente, esteja intrincada no próprio cotidiano. O conflito que se forma, no entanto, parece bastante explícito: vive-se em um mundo que exige habilidades quase poéticas para o bom desempenho de um sem par de atividades, mas toma-se como desnecessário ou inútil qualquer esforço de se alavancar estudos nas chamadas ciências humanas, justamente por se imaginar como um gasto improdutivo e ineficiente.

 

Disso vem a importância de se dar uma resposta também à noção de utilidade ou inutilidade dos estudos literários. Útil é o que tem ou pode ter algum uso, que serve para alguma coisa, que traz vantagens; enquanto o inútil define-se pela negação da utilidade, isto é, o que não é útil, que não tem préstimo, infrutífero, sem nenhum resultado, em vão. Por isso, para tantos, aquilo que é útil é o que vale ser buscado no campo das preocupações diárias, enquanto o inútil (justamente por ser inútil) deve ser descartado. Ou seja, se algo tem “valor de mercado”, se vai trazer algum tipo de vantagem, então, deve ser valorizado, mas se, pelo contrário, não traz resultado algum, então não deve ser valorizado.

 

A poesia de Ferreira Gullar

 

Essa lógica que domina boa parte do pensamento contemporâneo não pode ser descartada, principalmente por fazer parte do modo como nós construímos nossa identidade, assumindo que algumas coisas servem para nós e outras não, porém, não deve ser a única lógica possível em nosso universo de possibilidades. Aquilo que é considerado útil é sempre “servil”, pois que não encerra seu valor em si mesmo, precisando sempre construir “pontes” que levem a outro lugar. Isso explica, entre outros fatores, a eterna busca de melhorias da existência humana e sua nunca completa satisfação com suas invenções e criações, o que deve ser entendido como algo bom.

 

A ideia de ócio criativo demonstra como a alegria e a satisfação pessoal no dia a dia aumentam a criatividade, que por sua vez faz crescer o potencial de imaginação necessário a um melhor desempenho produtivo no trabalho.

Por outro lado, aquilo que é considerado inútil nunca pode ser considerado “servil” – em termos de linguagem —, já que não serve para nada e, portanto, tem sua natureza definida apenas por si mesmo.

 

A poesia e o poema, vistos em termos de utilidade, só podem ser entendidos como inúteis, pois não fazem “pontes” para fora, mas para dentro de cada ser humano, criando e inventando mundos que parecem absurdos fora dos domínios poéticos. Todavia, se almejamos uma sociedade em que as soluções para os problemas da existência sejam soluções efetivas e criativas, não podemos esperar que elas (as soluções) trilhem por caminhos já traçados, mas sim, que abram novas possibilidades, as quais, num primeiro momento, podem até soar absurdas.

 

É desse fator que escapa o paradoxo da útil-inutilidade, já que uma pressupõe a outra e qualquer delas que seja apagada implica a perda da metade, ao menos, das possibilidades de realização humana. O problema, portanto, é o “valor” que algumas práticas assumem na “sociedade de mercado”, não propriamente a “sociedade de mercado”.

 

Uma sociedade em que as práticas “inúteis”, como as da poesia ou da filosofia, por exemplo, sejam valorizadas positivamente, terá oportunidades de estabelecer paradigmas que respeitem objetivos concretos sem fugir às abstrações fabuladoras.

 

Homo Ludens é um livro escrito por Johan Huizinga, editado em 1938, em que o jogo assume as características de um fenômeno cultural. | Foto: Reprodução

A existência humana que foge às seleções e combinações poéticas diversas especializa-se em traçar metas e obter resultados, mas tem de fixar-se apenas nisso e acaba por esvaziar o que a vida tem de lúdico. Nossa concepção sobre a importância dos estudos poéticos em nossos dias vai desde as ideias de Homo Ludens, de Johan Huizinga, para quem o jogo é criador da cultura, por meio do ritual e do sagrado, da linguagem e da poesia, até o Ócio Criativo, de Domenico de Masi, para quem trabalho e ócio criativo são as duas partes de uma mesma unidade.

 

As ferramentas de observância da existência estão, em determinada medida, na própria crítica da poesia. O professor Antonio Candido, em seu O Estudo Analítico do Poema, por exemplo, explicita que se pode comentar qualquer tipo de poema, mas que só são analisados e interpretados aqueles “que nos dizem algo”. Do mesmo modo, pode-se comentar sobre a vida de si ou de outrem sem nunca ter verdadeiramente vivido, ao passo que só se pode analisar ou interpretar uma vida que minimamente, ao menos, toca na nossa própria. Na análise, o foco é sobre as partes; enquanto na interpretação, o foco é no todo. Adquirir ferramentas para ver esses itens por meio de análises poéticas é fundamental, por exemplo, para poder recombinar, reagrupar e reverter quadros desfavoráveis em ambientes de trabalho.

 

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*Valmir Luis Saldanha é mestre em Estudos Literários pela Unesp Araraquara e professor de Língua Portuguesa, Literatura e História da arte nos colégios SEB Coc Ribeirão Preto, Coc Araraquara e Objetivo Monte Alto.