Pocotó-pocotó em Brasília

A representação do espaço contemporâneo no romance Cidade Livre, de João Almino, serve-se de uma estratégia discursiva que lembra a execução de uma dança funk

Por Roberto Sarmento Lima* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

“Pocotó, pocotó, pocotó, pocotó” é o refrão, para quem se lembra bem, de uma canção para lá de pavorosa chamada “Minha Eguinha Pocotó”, de certo MC Serginho. O que se queria, com essa onomatopeia rude, era chamar a atenção do espectador para os passos da dançarina que, sem outra finalidade no palco senão postar-se provocativamente ao lado do cantor e imitar a gentil alimária, animava a grita de toda a gente. Afinal, música e dança são manifestações culturais cada vez mais integradas à mídia televisiva; e, sem pôr em causa aqui a qualidade do produto, isso termina por ser absorvido pela literatura também.

 

Pois foi essa a impressão que tive ao ler Cidade Livre, romance de João Almino que surgiu em 2010. E essa sugestão das batidas do ritmo funk talvez tenha menos a ver com as estradas que se rasgam na cidade que começa a ser construída no Planalto Central, um dos possíveis focos desse texto, do que com as hesitações afetivas do narrador, que também desenham esse caminho íngreme e escarpado.

 

Livre, mas não tanto

Para início de conversa, Cidade Livre é o nome de um povoado, vila ou cidade, não sei exatamente que designação atribuir, que surgiu durante a fase de construção de Brasília; e, tendo sido erguida muito precariamente em meio a poeira, barro e ar seco, apenas para abrigar os operários da construção da nova capital do país, estava fadada à sua desmontagem — “primeira cidade descartável”, segundo o narrador —, assim que fossem concluídos os trabalhos. Mas não foi isso que aconteceu. A cidade arrumou-se um pouco mais, avolumou-se e virou o que hoje se conhece por Núcleo Bandeirante. O que era para ser provisório virou eterno, confirmando a lógica brasileira segundo a qual, no final de tudo, o que deveria existir para sempre se transforma em pó — caso de alguns bons projetos educacionais, que se evaporam assim que novo presidente ou novo governador assumem o posto, ou de prédios que deveriam ser conservados por causa do seu valor histórico e, de repente, com as primeiras chuvas, ou caem de malcuidados que são ou simplesmente são demolidos para dar lugar a um bom estacionamento, isso em qualquer parte do país. Esta é a nossa história: o sertão vira mar e o mar vira sertão.

 

Exemplifiquemos: o narrador, propositadamente chamado João, só para confundir, escreve num blog suas memórias de quando viveu em Brasília na época de sua construção, precisamente na Cidade Livre; o revisor das suas memórias chama-se, propositadamente também, João. E, para piorar a confusão — sempre é possível piorar, claro —, esse revisor, além de ser João, é João Almino, confundindo-se, por sua vez, com o autor do romance, o escritor potiguar João Almino, que nasceu em Mossoró, em 1950, e ensinou no México e nos Estados Unidos e doutorou-se em Paris, onde foi orientando do filósofo Claude Lefort. O desnorteamento só aumenta porque se cria a ilusão de que o relato pode ser fidedigno, não meramente ficcional.

 

 

Mas, pergunta-se, por que, então, um intelectual dessa monta escreveria sobre o nascimento da cidade mais arrojada do mundo, à sua época, numa espécie de miragem e esperança que só o brasileiro, esse visionário incorrigível, é capaz de ter, se não for para poder desacreditar do estatuto da imaginação de escritor? O narrador até cultiva inicialmente nos leitores essa sugestão positiva, essa crença antiga:

“Para dar vida à história, bastava eu me transpor para um dia de minha infância, me imaginar no meio de uma avenida da Cidade Livre” (pág. 24; os grifos são meus)

Literatura com Pedro Bandeira

E, no entanto, ele escreve como quem comanda máquinas pesadas necessárias à construção e à pavimentação de uma cidade, tudo o que, metaforicamente, impede, com a força de pedra e cal, que se tenha da imaginação a fluidez de seu poder fundador:

“(…) e também com tudo o mais com que se devia fazer uma história da Cidade Livre: com máquinas e tratores, com betoneiras, escavadeiras, motoniveladoras, rolos Tander, usinas volumétricas, guindastes, com estacas Franki perfurando o chão (…)”
(pág. 21; os grifos são meus)

 

O romance, assim configurado, nada tem de visionário ou insólito ou maravilhoso, à moda das epopeias, e por isso desencanta a quem esteja procurando lances surrealistas ou efeitos de poderosa imaginação, como superficialmente a visão da nova capital, com seu falso pendor futurista, parece despertar. E, em troca, Brasília, cidade profética e profetizada, tomba como uma cidade geometricamente emparedada, bem ao gosto da narrativa pós-moderna, lugar literário contemporâneo que, no Brasil, ao menos, se revela um mundo sem sonhos, sem horizontes, sem salvação, reduzindo-se tudo a um presente agônico que se tem de suportar, sem saídas possíveis.

 

Não à toa é que se repete, ao longo do romance de João Almino, a imagem de uma feérica brancura — porém suja — surpreendentemente encerrada entre quatro paredes, que, ao que fica apenas sugerido, pode ser concretamente, também, uma alusão à prisão ou ao hospital onde fora parar o pai do narrador:

“Naquela primeira noite, entre quatro paredes de um branco sujo, papai me contou o diálogo que
tivera com ela.”
(pág. 28; o grifo é meu)

“Bernardo Sayão está no começo de muita coisa, me disse papai,
fechado entre quatro paredes”
(pág. 30; o grifo é meu)

 

Ou, ainda:

“Na terceira noite, entre quatro paredes de um branco sujo, papai lembrou o dia em que conhecemos Valdivino, no fim de outubro de 1956, mês que tinha começado com uma visita do presidente JK a Brasília”
(pág. 87; o grifo é meu)

 

E mais e mais citações desse tipo, a lembrar que tanto as personagens ficcionais como Valdivino ou o pai adotivo de João e o próprio João narrador, quanto as personagens históricas, como Bernardo Sayão — o “Bandeirante do Século XX”, o engenheiro agrônomo carioca que fez parte da construção de Brasília, auxiliando o projeto de Juscelino Kubitschek, e que terminou morrendo acidentalmente (e simbolicamente) debaixo de uma árvore derrubada na Floresta Amazônica, durante a construção do trecho sul da Belém-Brasília — são todas achatadas contra o chão. Quem estava procurando fantasia perdeu seu tempo.

 

A liberdade está, portanto, em todas elas poderem apenas mover-se dentro dos limites do quadrado sujo, e somente dentro desse quadrado sujo, em que ordinariamente é dado como certo, com a metáfora da brancura encardida e das grades e paredes fechadas, que ninguém se eleva desse mundo. O que faz a ação das personagens entrar em conflito com o ideal da cidade que se ergue, com seus monumentos, palácios e catedral, todos ironicamente muito brancos e apontados para o céu do Planalto Central.

 

Baile funk

A orquestra funk do pocotó-pocotó, que invade e embala a trilha sonora e espacial do romance, aparece a todo momento de sua massa verbal, evidenciando que João, em sua versão mais adulta e mais madura — o João que, então, escreve suas memórias para o blog e colhe contribuições e opiniões divergentes dos internautas leitores seus —, não limpa o passado com um branco mais puro e cristalino nem com uma música mais suave porque ele só ouve mesmo é o som das escavadeiras e dos perfuradores do solo. Sua vida é a estrada que ele palmilhou desde cedo, e é cheia de buracos, acidentes, algo que só uma égua e um cavalo são capazes de percorrer sem reclamar. Por isso é que, sempre que o narrador faz referências metaficcionais, o espaço discursivo que ele delineia lembra um caminho de altos e baixos, de buracos precisando ser preenchidos com terra, a evocar o terreno da Cidade Livre, um areal no início, depois casas de madeira sendo construídas aos poucos, formando ruas de barro e lama:

“(…) meu relato manteve misturadas minhas memórias, as de papai, minhas pesquisas e as observações de tia Francisca, e cometi o erro de entregá-lo a um escritor que o esvaziou de vírgulas e pontos, o encheu de gírias e cenas de violência, me alertou ser preciso acrescentar-lhe uma dimensão moral e filosófica (…).”
(pág. 15; os grifos são meus)

 

E aí é que se ouve melhor o pocotó-pocotó das bestas nesse exótico baile funk da escrita de Cidade Livre. A aridez do sol recebe mais e mais luz e desfaz-se em poeira que se levanta, comprometendo, no seu momento de fundação, a dignidade da cidade projetada e ideada em sua alvura quase casta, com picos de castelos pós-modernos tocando o firmamento.

 

O blog, que é o campo de experimentações discursivas de João, é o texto que vai sendo gradualmente composto por vários colaboradores e pelo próprio João. Se este concentra em si e em sua capacidade de memória o cerne da narrativa, aqueles fornecem informações históricas capazes de acrescentar-se ao texto todo, cuja autoria, a essa altura, é posta em questão, além do seu estatuto de ficcionalidade. O que é história e o que é arte passam a ser um capítulo secundário nesse modelo de escrita contemporânea.

 

Música é literatura?

 

O ato de compor assume, assim, o ritmo do funk, lembrando em tudo o caráter descartável da Cidade Livre e a necessidade ao mesmo tempo de atingir o ideal da completude, que, no entanto, não se confirma em nenhum dos aspectos:

“Aquela discussão demonstra ao mesmo tempo a utilidade e a inutilidade do blog, que permitiu uma louvável troca de ideias, mas desviou a atenção dos meus leitores (…). Fora o acréscimo deste parágrafo — que seria descartável se eu não o aproveitasse para pedir desculpa ao admirador de Lucrécia que quis diminuir sua idade —, mantive meu texto sem tirar nem pôr, o que tem ocorrido cada vez mais.”
(pág. 121; os grifos são meus)

 

O ritmo dos morros cariocas, o que melhor se adaptou a esse relato de hesitações, se impõe à escrita com seus pequenos acordes, batidas repetitivas, quase capengando, esbarrando nos sinais de pontuação e na escolha das palavras, como é o que parece assinalar com insistência esse narrador inquieto. Assim é que o ritmo parece engolir, por exemplo, a vírgula que separaria normalmente uma oração subordinada adverbial anteposta à sua principal enquanto nos faz ouvir o martelar dos instrumentos de percussão, nessa mistura de sons e influências musicais que vêm de longe, da música negra norte-americana:

“Se eu pudesse continuava a conversa com papai. Sinto a falta dele, e meu coração mistura sentimentos que não deveriam estar misturados, de ternura e ódio, enquanto fico remoendo suas palavras, e um vento forte bate nas palmeiras, segredando suposições e me ajudando a martelar o teclado do computador.”
(pág. 23; os grifos são meus)

 

O narrador luta, incansavelmente — e inutilmente também —, contra a precariedade rítmica do relato que engendra suas lembranças. Quer dar unidade ao que já vem misturado e sincopado, tal como se dá no funk, o que faz julgar que a palavra ou pode ser dispensada, em razão das batidas recorrentes, ou acrescentada, tal a sensação de que falta algo enquanto ele remói as lembranças. O narrador almeja dizer tudo, sim, mas o inerente desacerto de opiniões dos leitores do blog e a própria traição da memória o impedem disso. O tom irônico contido no adjetivo “livre” do título do romance e do topônimo revela o Brasil que se moderniza na marra, contra tudo e contra todos, naquela ocasião, afundado, porém, numa história de enganos que a arquitetura de Oscar Niemeyer tentou mascarar enquanto anunciava o tempo do futuro, que, enfim, não chegou nem chega até este momento. Pois tudo parece enquadrado, sempre, emparedado, sujo no seu branco exposto nas praças e nos monumentos de Brasília, que já virou símbolo de corrupção nacional.

 

Abolicionismo brasileiro

 

Como o refrão “pocotó, pocotó, pocotó, pocotó” do funk de MC Serginho, somos um povo até ingênuo, embora magoado pela vida afora, sem perspectivas. O narrador parece dizer isso mesmo quando vislumbra o futuro, negado pela raiz.

 

A vida do João narrador é, pois, essa via incerta, evocando as ruas toscas da precariamente erguida Cidade Livre (livre, como vimos, só no nome). Desconfia do pai, Moacyr Ribeiro, e ama-o, entretanto; tacha-o de corrupto, ao saber que ele anda enrascado com negociatas escusas que estiveram na origem da construção de Brasília — cidade que, apesar de ser o alvo da sacralização do futuro, “não é”, como ele mesmo constata, “coisa alguma”. Desse caldo em que se misturam o amor e o desprezo e o desapontamento por não ter acertado as contas com o passado não sai nada de bom, porque a imagem torturante de Moacyr toma conta de todo o relato do filho, assim como o invade o tempo inteiro a Cidade Livre, que, na sua indigência, não passa de um funk pocotó.

 

*Roberto Sarmento Lima é doutor em Letras e professor da Universidade Federal de Alagoas. contato: sarmentorob@uol.com.br