Os (maus) presságios de O Corvo

Cento e setenta anos depois, a considerada obra-prima do escritor americano Edgar Allan Poe ainda suscita múltiplas interpretações e a semiótica pode auxiliar na compreensão das entrelinhas do poema

Por Daniel Cabral de Mello Pinto Arcoverde* e Edmilson José de Sá** | Fotos: Shutterstock / Reprodução Internet

Na literatura encontramos infindas significações do signo e, ao nos debruçamos na obra O Corvo, do escritor americano Edgar Allan Poe (1809 – 1849), entendemos que a composição estética de sua poética parece abarcar significativos elementos relacionados à semiótica, parte da linguística em que se registra a presença de determinados signos linguísticos provenientes da interação entre significante e significado, de modo que o signo pode assumir tantas quantas ressignificações forem possíveis.

 

A cautelosa posição das palavras e o encadeamento das ideias sobrepujam uma sonoridade que elucida a pretensão poética do autor, de modo que a relação que há entre “sentir” o poema e um aporte semiótico delimita e qualifica a abrangência da compreensão dos signos presentes no poema de Poe.

 

A CURTA E LÚGUBRE VIDA DE UM GÊNIO DA LITERATURA

Nascido em Boston (EUA), em 1809, com uma vida destinada à má sorte, já em tenra idade, antes de seus 3 anos, Poe perdera seus pais; fora então adotado, e pouco tempo mais tarde esteve internado; aos 14 anos começara a manifestar suas habilidades literárias; aos 17 anos sua mãe adotiva falecera e o alcoolismo e o jogo já faziam parte da sua vida; retribui a uma terna afeição romântica demonstrada pela mãe de um colega, que logo fora acometida de surta loucura e veio a falecer; casa-se com sua prima, que, apesar de, no que diz respeito à perda de um ente, a vida ter permitido uma trégua, desfalece de tuberculose em 1847. A essa altura já tivera publicado O Corvo durante uma vida boêmia que o conduzia à bebida e à exaltação de amores, em geral platônicos. Ainda assim, passou a escrever ensaios filosóficos e literários, vivendo quase sempre de apresentações nas quais declamava seu poema que logo se tornara famoso.

 

As constantes tentativas de encontrar a estabilidade familiar que nunca possuíra o levou a fazer corte a uma viúva dotada de certa reputação literária, de quem obteve promessa de casamento sob a condição de deixar a bebida, mas fora impedida pelos parentes; nesse meio tempo dizia-se apaixonado por uma suposta Annie Richmond por quem não era correspondido; tentou suicídio, mas a dose fora suficientemente fraca para mantê-lo vivo; propõe casamento a alguém que reencontrara e que fora um de seus amores na juventude, embora se confessasse apaixonado por Richmond. No dia 3 de outubro de 1849, Poe fora encontrado em uma taverna em miserável estado e, levado ao hospital, após vários dias de delírio, falecera ao dia 7 de outubro de 1849.

 

O CAMINHO LITERÁRIO ATÉ ‘O CORVO’

Poesias, contos, ensaios e novelas. Tudo isso compõe a tipologia das obras de Poe, dentre as quais convém citar Tamerlane e outros poemas (1827), Um sonho (1827), Annabel Lee (1849) e Histórias Extraordinárias (1837), em cuja compilação aparecem seus contos mais conhecidos, como A Queda da Casa dos Usher, O Gato Preto e O Barril de Amontillado.

 

Contudo, O Corvo (1845), o poema mais conhecido do autor, tanto durante sua vida quanto agora, não parece tornar relevante a presença de um enredo, mas de acontecimentos simbolizadores representantes dos desejos de Poe na figura do eu lírico; a sequência dos acontecimentos é mero suporte estrutural para fazer prevalecer a veiculação da expressão subjetiva do seu teor emotivo.

 

 

Nesse sentido, não torna menos pertinente descrever em linhas breves a sequência desses acontecimentos. Em uma meia-noite, durante leituras e reflexões, quase adormecido, o personagem escuta alguém bater à porta; tudo o fazia recordar um amor perdido; ele julga ser algum visitante, abre a porta, não havia ninguém, e apesar de ter “ouvido” o nome de um suposto amor perdido, volta, tranca a porta, escuta novamente o batido. Dessa vez ele pondera que “algo” bate e, se não à porta, vai olhar à janela; abre-a, entra um corvo, com quem trava um diálogo e finda o poema com a ideia de morte em vida, conforme é possível observar na primeira estrofe do poema, na tradução do jornalista Milton Amado.

 

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore—
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
“Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door—
Only this and nothing more.”
Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém – fiquei a murmurar – que bate à porta, devagar;
Sim, é só isso e nada mais”.

 

É importante mencionar que, ao passo que se traduz uma obra, inevitavelmente se perde parte de sua poética. Na tradução de Milton, por exemplo, considerada uma das melhores traduções das sete mais conhecidas, que inclui a participação de Machado de Assis e Fernando Pessoa, o acréscimo de elementos adjetivais e adverbiais à primeira sequência dos acontecimentos mencionados concorrem ao teor lúgubre do poema, desvelando já a solidão, a obscuridade e o mistério, mas perde toda musicalidade contida no original, “pensada” pelo autor, que veicula através das aliterações os efeitos sonoros que dão profundidade e cadência à poética pretendida.

 

Ainda no que diz respeito à tradução poética, além das questões dos adornos sígnicos e da musicalidade, outro aspecto relevante é a sonoridade própria da pronúncia da palavra. Por exemplo, o timbre oclusivo dos “o’s” que há em “nothing more/nevermore”, dão ao poema um tom soturno, ao passo que quando da tradução para a língua portuguesa esses termos “nada mais/nunca mais” perdem a imponência da sonoridade intencionada do original.

 

 

FENOMENOLOGIA DO SIGNO LINGUÍSTICO EM “O CORVO”

A semiótica é a representação das significações de toda e qualquer linguagem e adquiriu o status de ciência a partir das contribuições do filósofo e matemático americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), com o objetivo de investigar como se processa o fenômeno de produção de significação e sentido dessas linguagens como produto da consciência cognitiva do indivíduo. Desse modo, toda realidade é passível de significação e a formalização desse processo é o que consiste no objeto da semiótica.

 

Estar no mundo como indivíduo social implica comungar de culturas comuns. Compreende à cultura toda atividade que o homem possa desenvolver. Nesse processo, a comunicação é uma condição natural necessária para que haja a interação entre os indivíduos, e pode ocorrer de forma verbalizada (falada ou escrita) e não verbalizada, por meio de simbologias ou evidências. Esse caráter de sociabilidade é apontado na abordagem da semiótica saussuriana, cujas significações compreendem a noção do signo linguístico dentro de um contexto social nos limites de uma língua.

 

Lembrando o pai da Linguística, Ferdinand de Saussure (1857 – 1913), as palavras verbalizadas são unidades léxicas ou blocos que comunicam o que está no pensamento. A esses blocos, Saussure caracteriza como signos linguísticos, os quais são apreendidos pelo hábito de serem associados a um conceito já constituído em um sistema linguístico e, por isso, não arbitrários. A manifestação cognitiva do que tal signo representa é o que ele chamou de imagem acústica, que quando num processo de interação social se fenomeniza em determinada significação.

 

FERDINAND DE SAUSSURE – Linguista suíço que estudou sânscrito na Universidade de Leipzig, sob a influência da escola de neogramáticos e procurou renovar os métodos do estudo da gramática comparativa. Foram seus discípulos: C. Bally e R. Séchehaye. Eles publicaram o Curso de Linguística Geral (1916), uma síntese de seus últimos três anos como professor, retirando as notas das aulas.

 

Nesse sentido, a interpretação que ocorre no eixo cognitivo do indivíduo é resultado da presença de um signo (significante) que, a priori, por força do hábito (fator cultural), remete a uma imagem acústica, que é a ideia ou conceito (significado) de tal signo, a qual inserida em um determinado contexto, e dentro de um sistema linguístico, se encerra na compreensão do interlocutor (significação). É pertinente ressaltar que nem sempre um significante corresponde a um único significado e vice-versa; por exemplo, em [essa manga está doce] e [camisa de manga longa], os mesmos significantes [manga] nos remete a significados diferentes; ao passo que em [semelhante], [parecido] e [similar], tem-se significantes diferentes para o mesmo significado, para a mesma imagem acústica. O mesmo ocorre entre duas línguas: em inglês o signo [friend] possui a mesma imagem acústica do signo [amigo] – destaquemos aqui a semiótica de Peirce, uma vez que essa última correlação interseciona duas línguas distintas, corroborando com a ideia da significação no cerne da linguagem em sua totalidade, e considerando, nesse caso, a possibilidade do fator estrangeirismo dentro de um sistema linguístico, compreendemos, ainda, a abordagem da semiótica saussuriana – da linguagem inserida num contexto social nos limítrofes de uma língua. O que está expresso no texto de Poe é de sua intenção que seja lido, uma vez que o autor se relaciona através de sua obra com o mundo social, uma vez que seu texto encontra interlocutores que, por sua vez, também se comunicam entre si a respeito do mesmo. Percebemos na obra a presença de três ideias pontuais, cada qual representada por um elemento, ou elementos, que as constitui. Como não temos a intenção de fazer uma análise extensa a todo o poema, debruçar-nos -emos nesses elementos centrais. O título em si já carrega o signo “corvo”, ao qual, por ora, lançamos mão da semiótica peirceana, uma vez que tal  signo se encerra em seu próprio enunciado, caracterizando aí a coisa em si, em sua primeira instância, em sua existência, tendo sua origem na condição arbitrária segundo a qual um signo deve ser algo distinto do seu objeto.

 

 

No fim do terceiro verso da primeira estrofe, a palavra tapping, que é signo equivalente, na língua portuguesa, a “bater” de leve ou “batida” leve, que em sua tradução Milton Amado o concebe como “ruído”, é possível que Poe faça uma alusão à própria consciência na figura do eu lírico, como um dispositivo que dê partida ao dinamismo poético com que pretende anunciar o que será o desfecho. Essa alusão pode ser justificada pela intenção que o autor tem de confabular, por meio da poesia, uma espécie de conspiração surreal que a vida remonta à sua condição de sucessões trágicas em sua trajetória. Tido a consciência praticado a ação de “bater”, de provocar um “ruído”, ela é representada por “alguém”. “Alguém” é outra unidade lexical a quem se atribui a ação descrita. Outros significantes aparecem para retomar a mesma imagem acústica da ideia de consciência, como “visitante”, “amigo”, “escuridão”, silêncio”, “vento”, “corvo”, assim, nessa mesma ordem.

 

Em língua inglesa, esses signos estão dispostos no poema de modo que se coadunam a outros signos descritivos, que sob o efeito da musicalidade e das aliterações – efeitos esses só possíveis por meio da fonologia própria da língua a qual deu origem ao poema —, estampa-se uma lúgubre cadência dos acontecimentos. Então, deste modo, quem “bate” à porta é “alguém”, um “visitante”, um “amigo”, e quando abre a porta, ninguém, só a “escuridão”, depois o “silêncio”, o ruído continua, é o “vento” [e nada mais], enfim o eu lírico abre a janela, entra um “corvo”. Esses signos seguem uma linearidade que desemboca no último elemento “corvo”. Esse corvo crocita o monótono “nunca mais” em resposta a cada pergunta ou lamentação feita pelo eu lírico de forma muito intrigante e engenhosa, na medida em que misteriosamente parece ter conhecimento da condição do personagem, o que provoca uma crescente angústia, uma vez que cada “nevermore” corvejado suscitava uma verdade que o personagem já sabia e só acentuava seu desespero contido.

 

Em sua “A Filosofia da Composição”, também traduzida por Milton Amado, Poe justifica a escolha de um elemento desprovido de intelecto que pudesse refletir um dinamismo que interagisse com o eu lírico. Esse dinamismo advém do crocitar do corvo sonorizado em “nevermore”, que compreende universalmente como símbolo de mau agouro. Retomando os oito significantes, em nível de interpretação, é possível atribuir uma mesma significação.

 

 

Notamos que tanto na visão saussuriana quanto na peirceana há os mesmos referentes (objetos) – implícitos no diagrama antes do significante –, cada quais representados arbitrariamente, por convenção social, por seus significantes geradores de suas respectivas imagens acústicas –, às quais estão diretamente associadas aos seus respectivos conceitos apregoados por Saussure. Tal associação constitui-se num fenômeno mental ou psicológico. Nesse momento, o conceito já é passível de significação. O que é, para Saussure, a noção de signo linguístico, é para Peirce a constituição de um significatum, podendo ainda este desdobrar-se no chamado terceiro signo, que pode assumir um significado não convencional de tal significante; onde, para ambos, o que dá cabo à significação que se intenciona é o contexto o qual determinado signo está inserido, e ainda, de quem o insere. No caso do segundo gráfico, onde o significante que “bate” é “alguém”, um “visitante”, um “amigo”, percebemos que, na verdade, não havia ninguém batendo, mas a noite erma e sombria. O que havia era a “escuridão”, o “silêncio”, o “vento”, e o que batia era um “corvo”, de modo que podemos depreender ainda que, na narrativa, a demora do personagem para descobrir que era um o corvo era o adiamento para encarar sua consciência pelo temor do desígnio da própria condição. O segundo elemento passível de ressignificação é o nome Lenore, ao qual a princípio remete-nos unicamente à amada morta. Porém, em determinado momento, após recorrentes menções da mesma, o personagem parece carregar nesse nome outros elementos geradores de um bem-estar que não fosse apenas a presença da mulher amada, mas alegrias, satisfações, realizações, quando trouxe à baila o termo balm (bálsamo), na décima quinta estrofe, ao aludir à necessidade de algo que reconstituísse todas as instâncias de sua dolorida alma, além do último “nunca mais” do poema – “dito” que constitui a ideia da morte em vida, como uma reverberação do “nunca mais” “corvejado”.

 

Enfim, é possível compreender que o corvo deixa de ser morfológico para ser algo simbólico, na medida em que o enunciado “nunca mais” sofre uma transferência de quem o enuncia (do corvo para o personagem) encerrando o personagem numa máxima concentração possível de tristeza e desespero, confirmando por meio de toda engenhosidade poético-melancólica de um gênio, o pretexto todo forjado poeticamente ao desfecho clímax da obra. Tudo era desejo, tudo era consciência.

 

Apetecemos, dentro do âmbito acadêmico, confirmar a aplicabilidade das abordagens semióticas legadas por Charles Sanders Peirce (1839 – 1914) e Ferdinand de Saussure (1857 – 1913) ao nos utilizarmos da linguagem poética. Enquanto para um a semiótica abarca toda vastidão da vida, onde tudo deve ser compreendido por meio de um aparelho semiótico cognitivo, o outro busca tornar cientifico o signo linguístico caracterizado pela relação das unidades lexicais e seus significados num movimento interacional social dentro do limite de um sistema linguístico (língua).

 

*Graduado em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Arcoverde – PE **Mestre em Linguística (UFPE) e Doutor em Letras (UFPB). Professor de Literatura Norte-Americana no Curso de Letras do Centro de Ensino Superior de Arcoverde – PE