Os heterônimos de Fernando Pessoa

Por Stephanie Ambrosio* | Fotos: Criativo Mercado Editorial | Adaptação web Caroline Svitras

Fernando Pessoa é considerado um dos maiores nomes da Literatura Universal. Nasceu no dia 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa, levou uma vida anônima e solitária e morreu em 1935, vítima de cirrose hepática. Na poesia, sua vida foi repleta de surpresas, pois foi o maior criador de heterônimos da Literatura, dentre eles, estão suas principais criações: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

 

Muitos críticos procuram compreender as múltiplas pessoas em Pessoa, como afirma Octavio Paz, a criação dos heterônimos foi necessária para a vida de Pessoa, pois eles representavam aquilo que Pessoa talvez não representasse “escrevemos para ser o que somos ou para ser aquilo que não somos […] nós buscamos a nós mesmos” (1989, p.208)

 

Foi no dia 8 de março de 1914 em que nasceram seus heterônimos, para melhor compreendê-los é melhor atentarmo-nos a um fragmento da carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro:

 

Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. […]

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos.

 

Esse inusitado nascimento triplo é apenas um dos marcos do fascinante universo literário criado por esse poeta português, que foi criador de 72 heterônimos. Cada um com sua biografia, seu estilo literário, sua linguagem, sua visão de mundo e seus sonhos. São com esses pormenores que se diferem os heterônimos de pseudônimos, sendo que Pessoa ao longo de sua vida procurou deixar claro essa distinção:

 

O que Fernando Pessoa escreve pertence a duas categorias de obras a que poderemos chamar de ortônimas e heterônimas. Não se poderá dizer que são anônimas e pseudônimas, porque deveras não o são. A obra pseudônima é do autor em sua pessoa, salvo no nome que assina; a heterônima é do autor fora da sua pessoa é de uma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu.

 

Octávio Paz também analisa essa distinção “a relação entre Pessoa e seus heterônimos não é idêntica à do dramaturgo ou do romancista com as suas personagens. Não é um inventor de personagens-poetas e sim um criador de obras-de-poetas.” (1989, p. 209). Esses outros “eus” que Pessoa criou, participam de sua realidade, julgam-no, espiam-no “é o encantador enfeitiçado, tão totalmente possuído por suas fantasmagorias que se sente espiado por elas” (1989, p.209).

 

Alberto Caeiro, o centro, o mestre

Como declara Fernando Pessoa, Alberto Caeiro é colocado como o centro, o mestre, “é em função do mestre que se determinam, em órbitas poéticas diferentes, os demais elementos da constelação poetodrámatica” (SEABRA, J. A., 1960, p.79).  Para uma melhor compreensão desse ser nomeado Alberto Caeiro, eis sua biografia, segundo Fernando Pessoa:

Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. […] escrevia mal o português […]. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era […] louro sem cor, olhos azuis […] morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó.

 

A genialidade de Fernando Pessoa

 

Caeiro é considerado por alguns críticos como um poeta-filósofo, mas Octavio Paz declara que “Caeiro não é um filósofo: é um sábio. Os pensamentos têm ideias; para os sábios viver e pensar não são atos separados.” (1989, p.210). Ele extrai seu pensamento não de livros nem da civilização, mas de seu contato direto com as coisas e com a natureza, crê que o homem complicou demais as coisas com a metafísica, com suas teorias filosóficas e científicas, com suas religiões. Por isso, defende a simplicidade da vida e a sensação como único meio válido para a obtenção do conhecimento.

 

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Conhecimento Prático – Literatura Ed. 71

*Stephanie Ambrosio possui Graduação em Letras — Licenciatura Plena em Português/Inglês e Bacharelado em Edição — pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2012). Atualmente, é estudante de Educomunicação na ECA – USP e professora de L íngua Portuguesa e Literatura no ensino regular.