Os Escritos Nomádicos de Clarice Lispector

Sob o signo da clandestinidade

Por Míriam Gomes de Freitas* | Adaptação web Caroline Svitras

Clarice Lispector, desde seu nascimento, conviveu com a experiência do exílio e da clandestinidade. Nascida em Tchechelnik, na província ucraniana, em 1920, filha de judeus, migrara com seus pais e as duas irmãs para o Brasil. A viagem rumo à América fora a única saída que encontraram para escaparem dos assombros da guerra. Nutriram grandes esperanças com a vinda para a “terra prometida” e, apesar das dificuldades encontradas no percurso da viagem, e da rigorosa vigilância dos guardas nas fronteiras, a chegada à costa brasileira foi uma conquista dos novos horizontes que iriam trilhar, longe de seus compatriotas e do caótico panorama econômico e político que a sua terra de origem enfrentava.

 

 

Portanto, esse transitar entre línguas, desde a infância até a idade adulta, os diferentes locais e países em que residiu, as mais diversas experiências de imigrante que viveu, fortaleceram para que Clarice Lispector se desvencilhasse de “si mesma” e produzisse uma literatura capaz de migrar de gênero, espaço e tempo, dentro de um ritmo nômade, sem fixar ou rotular quaisquer paradigmas do processo criativo literário.

Confira a análise do conto “O ovo e a galinha”

 

Por isso, é possível observar que em duas de suas obras, Água-viva e A hora da estrela, figuram aspectos de uma escrita nomádica, cujas narrativas não pertencem à esfera da linearidade, tampouco estabelecem uma certeza de ordem cronológica temporal, narrativa ou de gênero. Ambas apresentam peculiaridades na escrita, denominadas pelo estudioso Benedito Nunes de a “negação da linguagem”, transformando-a em uma “cifra silenciosa da transcendência, da revelação do Ser”.

 

O indizível na literatura lispectoriana está sob a descentralização da narrativa, que é, sobretudo, um trajeto significativo de sua escrita e de seu pensamento, os quais estão sempre em movimento, alcançando dialeticamente o inalcançável: “Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível […]”. Esse irreproduzível é o não lugar da escrita clariceana, pois a autora por si só, destituía sua escrita de qualquer gesto de estagnação, simetria ou lugar-comum.

 

O espírito nômade

Com o romance A paixão segundo G.H., escrito em 1963, a narrativa de Clarice assume um aspecto mais livre, despreocupada com a representação, despojada, desenraizada de qualquer alicerce cronologicamente temporal, pois passa a ser uma escrita de colisão, rupturas, flashes, fragmentos. Tudo isso, simboliza um momento de metamorfose, de mudanças na literatura dessa escritora. A personagem G.H. abriu espaço para o “instante-já”, em Água-viva, que é o lugar da mudança, onde a linguagem assume toda a sua força construtiva. Também, Macabéa, em A hora da estrela, personagem nordestina que migra para o Rio de Janeiro, possuía uma linguagem fragmentada, desnuda, e minguada como a própria moça. Portanto, essas duas obras representam a figuração do estilo nômade da escritura de Lispector. Pois em ambas, a linguagem não é patrimônio do autor nem do leitor. Ela, pois, está à deriva, à espera; destemida de não possuir um lugar “definitivo” dentro da narrativa.

 

Em ambas as obras, o “espírito nômade” do texto já transparece na questão do título, pois se sabe que a autora transitou de um para outro nome, antes de definir qual deles seria o oficial para intitular as referidas obras. Tal atitude de transitar entre algumas opções de nomes, e refletir sobre os supostos títulos das obras, demonstra uma característica fundamental no processo de criação literária de Lispector, que é a capacidade de se deslocar, naturalmente, entre “isto” e “aquilo”, o que faz sua literatura ser autêntica e possuir um corpo e significado demarcado por uma liquidez – fio condutor do pensamento – que não se constitui em estado sólido, palpável; ou seja, não tem roteiros ou enredos enumerados e previsíveis. Ao contrário, o fazer literário dessa escritora é o que o filósofo Gilles Deleuze nomeia “devir”: “[…] Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma passagem de “Vida” que atravessa o vivível e o vivido”.

 

“Objeto gritante” seria o nome escolhido em primeiro momento para Água-viva, denominando o “grito”, o auge da liberdade de sua escrita, o apogeu da linguagem. Já em A hora da estrela, a autora listou muitos títulos, cerca de treze supostos nomes para aquela que seria sua última publicação em vida. Um deles seria “O direito ao grito” o que alude à “Objeto gritante”, o qual figura, sem dúvida, a um “desejo” de liberdade. Desejo este que incide em movimento, pulsação, vida. Instante ou permanência. Essa característica de migrar, mudar, duvidar, refletir, escolher entre um e outro título, tudo isso faz com que se reafirme o caráter nomádico em certos textos da autora. Nessas duas obras, o nomadismo já se principia desde a escolha do título até o mais profundo cerne das narrativas.

 

Além de estudos sobre filosofia, Deleuze publicou textos sobre literatura, arte e cinema.

 

A ruptura com o padrão dos romances clássicos faz com que a obra lispectoriana figure em um patamar diferente de muitas outras publicadas em sua época. Pois sua literatura traz esse “espírito nômade” que realiza constantes migrações através das inúmeras fragmentações da linguagem, como também na instabilidade do processo de constituição do sujeito, da escrita e da própria história.

 

A hora da estrela, publicado em 1977, meses antes de sua morte, coloca em cena a denúncia social sobre as dificuldades da vida de uma imigrante nordestina. Trata-se de um texto imbuído nos acordes da sinfonia de um acordeão, sobre Macabéa, a nordestina que migra para a capital carioca e vive a penumbra de um exílio em si mesma. Pois, ao ser lançada diante da realidade de um mundo urbano em que os vértices do cotidiano se sobrepõem ao homem, ela em sua existência “muda” e “canhestra”, vive às margens de si mesma: “Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando. Na verdade — para que mais que isso? O seu viver é ralo.”

 

Em primeiro de fevereiro de 1977, Clarice Lispector concedeu ao jornalista Júlio Lerner para o programa Panorama, da TV Cultura, de São Paulo uma rara entrevista. Depois de gravada, a escritora pediu que a entrevista só fosse divulgada após sua morte. Ela foi ao ar dez meses depois. Clarice morreu em dezembro de 1977, aos 57 anos.

O aspecto paradoxal dessa ficção condiz com a vertente nômade, transitória que se constitui como flashes fotográficos, onde o olhar distraído do próprio narrador se esbarra na sobrevivência quase inumana da esmirrada Macabéa, assim descrita pelo narrador: “A moça tinha ombros curvos como os de uma cerzideira”, “costas de formigas”, “tinha olhar de quem tem uma asa ferida”, “Ela era de leve como uma idiota […]” Diante de algumas dessas expressões “negativas” que “pintam” o retrato da personagem, distorce-se a ideia da beleza perfeita da heroína e sob um ângulo mais moderno, descentralizando o foco desta “figura divinizada” da Era Romântica, para dar lugar ao grotesco, ao feio, que está mais relacionado ao anti-herói e à tradição da modernidade. Eis o que se perpetua como uma transgressão aos gêneros romanescos e ao não lugar do romance. A nordestina está fadada às limitações sociais e por isso vive sob uma condição deslocada do sistema em vigor, assim, por viver à deriva do sistema, acaba sendo devorada por ele, porque é considerada uma outsider, pois a moça que “brincava com pulgas” é cercada de uma realidade onde se vê que só os que pertencem à classe social mais elevada têm a vez. Mas, essa aparente trajetória horizontal de tal enredo, é apenas uma maneira de Clarice abordar a realidade social em que vivia o país na década de 1970. Por trás dos bastidores, no íntimo de sua capacidade criadora e artística, essa obra vem a reforçar e a retratar ainda mais a irreverência e a inovação nos aspectos diversos da sua literatura, desde a linguagem, com suas sintaxes inusitadas, justaposições estranhas, paradoxos, palavras incomuns ou neologismos, enfim, expressões “parecendo formular evidências, manifestam a face chocante do óbvio”.

 

É fato que a linguagem de Clarice Lispector é, em muitas de suas obras, um aspecto bastante significativo da sua resistência em não se estagnar ou se acomodar diante do texto. Ao contrário, para ela, escrever era um ato triste e solitário. Contrária a outros autores que se contentam com o reconhecimento e com o status quo, existe um sentimento de angústia nas suas reflexões em relação a escrever: “O que me atrapalha a vida é escrever.” Dona de um espírito inquieto e intrigante, sempre se revelou “assimétrica” diante da sua “tarefa” de escritora. Ela mesma, enquanto pessoa, foi muito “deslocada” de si e do mundo.

 

“ Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar. Vejo palavras. O que falo é puro presente e este livro é uma linha reta no espaço (…) Mesmo que que eu diga ‘vivi’ ou ‘viverei’ é presente porque eu os digo já.”
(de Água-viva)

 

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Fotos: Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56

*Mírian Gomes de Freitas é doutoranda em Estudos de Literatura (UFF), escritora, além de professora do Núcleo de Línguas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Juiz de Fora.
E-mail: mfreitasbrazilmg@aol.com

Adaptado do texto “Os Escritos Nomádicos de  Clarice Lispector”