O valor de um prefácio

Por José Augusto Carvalho* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras


Ao fazer o segundo prefácio (o primeiro é assinado por José Sarney) ao livro Quinze contos, de Jânio Quadros (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983), Mário Palmério reproduz uma observação que Rachel de Queiroz fez na apresentação do seu romance Vila dos Confins: “Não acredito em prefácios e não gosto de prefácios. Se o livro é ruim, o prefácio não adianta, e se o livro é bom, o prefácio é uma excrescência”. Mário Palmério acrescentou: “… tratando-se de um autor de categoria, o prefácio é mais do que uma excrescência: passa a despropósito”.

 

Apesar do que disse a autora de O Quinze e do endosso do autor de Chapadão do Bugre, um prefácio pode não apenas ser uma parte importantíssima de um livro, independentemente até mesmo do valor que o livro possa ter, mas também conseguir repercussões além das que o próprio livro prefaciado possa atingir.

 

Homem cuja trajetória de vida foi singular, o mineiro de Monte Carmelo, Mário de Ascenção Palmério (1916-1996), foi um professor, educador, político e romancista brasileiro que, a exemplo de Graciliano Ramos, estreou na vida literária não propriamente tarde, mas a meio caminho: aos 40 anos.

O prefácio de José Sarney diz mais a respeito do político que faz literatura do que do livro prefaciado. Diz ele: “É impossível ser um grande político sem possuir a agudeza de um intelectual. Os políticos que ficam, passados os instantes de glória efêmera dos palanques, do poder e das vaidades, são aqueles cujas ideias e criações se eternizam nas coisas do espírito. A vida política de Rui passou, mas o intelectual não morreu e revive a cada hora, em cada novo leitor que relê suas páginas definitivas”. Não sei se Sarney pretendeu ombrear em talento com Rui Barbosa, mas à diferença de Sarney, que é um político que virou literato, Rui Barbosa foi um literato que virou político. E talvez por isso a obra de Rui Barbosa seja perene e não possa ser ignorada por um brasileiro culto.

 

Com modéstia, Mário Palmério evita fazer um prefácio e procura tecer comentários como um simples leitor, mas seus comentários, num tipo de paralipse, constituem o verdadeiro prefácio de que ele pretendeu fugir, porque analisa o livro prefaciado. Pena que ele tenha defendido a correção gramatical “como o primeiro aspecto a ser considerado pelo leitor mais ou menos exigente”. E conclui que os que não dão importância à correção gramatical “são os subleitores, isto é, os que leem por alto, leem por ler… e também os mal e mal saídos da cartilha”. Permito-me discordar do grande romancista. O objetivo de um escritor não é seguir as normas gramaticais do dialeto culto, mas subvertê-las. Ao escritor não compete escrever como todo mundo, mas diferentemente dos outros. Assim como um escultor trabalha a pedra ou a madeira, o escritor trabalha a língua. Estão aí, por exemplo, Guimarães Rosa (com Grande Sertão: Veredas), Dias Gomes (com O Bem-amado) e José Cândido de Carvalho (com O Coronel e o Lobisomem), entre outros grandes autores, que me não deixam mentir.

 

Um prefácio pode ser de extrema importância, e não apenas uma excrescência ou um despropósito. É num prefácio que a teoria do drama romântico receberá sua expressão mais forte: o prefácio de Cromwell que, em 1827, constituiu a convergência de todas as ideias vindas a público no primeiro quartel do século XIX, graças ao conhecimento de Shakespeare e dos dramaturgos alemães, sobretudo Schlegel, cujo Curso de literatura dramática, traduzido para o francês em 1814, contém a apologia de Shakespeare e expõe os princípios do drama romântico.

“ Os homens de gênio, por maiores que sejam, têm sempre em si o animal que parodia sua inteligência.”

 

Victor Hugo

No final do século XVIII, havia surgido o melodrama, cujo mestre e teórico, Guilbert de Pixérécourt, produziu mais de 100 peças entre 1797 e 1835. No melodrama, recorre-se aos meios simples de provocar emoções fortes; negligencia-se o aspecto psicológico do teatro clássico em favor da intriga e do espetáculo (isto é, dos jogos de palco, cenário, roupas de época, etc.); os personagens são sempre os mesmos tipos elementares: o traidor, a vítima, o herói, o ingênuo, o grotesco, o bufão. Estimula-se a curiosidade e faz-se oposição entre o bufão e o patético.

 

Em relação ao teatro romântico, muito se deve a Stendhal, que no seu paralelo entre Racine e Shakespeare apresenta ambos como precursores do romantismo, por terem dado a seus compatriotas a tragédia reclamada por seus costumes. Mas se Racine interessa aos homens do século XIX por suas qualidades psicológicas ou artísticas, é Shakespeare quem interessa mais, porque não é prisioneiro das convenções clássicas e oferece o prazer do texto.

 

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O Cromwell, de Victor Hugo, é o exemplo do drama segundo a técnica Shakespeariana, mas o Prefácio é mais importante, porque reúne as ideias até então esparsas, que definem a estética do drama romântico. Victor Hugo classifica a história da humanidade em função dos gêneros: os tempos primitivos são líricos; os tempos antigos são épicos; os tempos modernos são dramáticos. Como a natureza, o caráter do homem cristão é duplo: mistura de matéria e forma, de imortal e mortal, de corpo e alma, de luz e sombra, de sublime e grotesco, de animal e espírito, o que o torna o epicentro de forças antagônicas. E aí está criado o drama.

 

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Essa ligação do drama ao pensamento cristão fundamenta a mistura dos gêneros. “Les hommes de génie, si grands qu’ils soient, ont toujours en eux leur bête qui parodie leur intelligence” – diz Vítor Hugo [“Os homens de gênio, por maiores que sejam, têm sempre em si o animal que parodia sua inteligência.”]

 

Nesse Prefácio, Victor Hugo propõe que o drama romântico seja um espelho da vida universal transfigurada pela poesia e rebela-se contra todas as regras em nome da liberdade artística. O drama, nascido com o cristianismo, deve ser a expressão moderna da poesia.

 

Eis aí um exemplo de que um prefácio às vezes pode valer mais do que o livro todo.

 

*José Augusto Carvalho, Mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP, é autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa, ambos em segunda edição pela Thesaurus.

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55