O sorriso polêmico de João Ubaldo Ribeiro

Conhecido por suas obras adaptadas ao cinema e à televisão, o jornalista e escritor baiano faleceu há poucos meses, mas seu legado permanece vivo no Brasil e no exterior

Por Edmilson José de Sá* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Jornalista, escritor, roteirista e professor, João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro – ou simplesmente João Ubaldo Ribeiro – nasceu em Itaparica, na Bahia, em janeiro de 1941, sendo transferido ainda bebê para Sergipe. Faleceu em julho deste ano, quando foi vencido por uma embolia pulmonar aos 73 anos. Sua fama resultou na utilização de uma de suas obras, Viva o povo brasileiro, como samba-enredo da escola Império da Tijuca no final dos anos 80 e, há pouco tempo, foi o vencedor da maior premiação destinada a escritores de língua portuguesa, o prêmio Camões, nos idos de 2008.

 

O lado jornalista de Ubaldo

 

No Brasil, contribuiu com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, A Tarde, O Globo, e tantos outros. O trecho a seguir, publicado no jornal O Globo em agosto de 2013 com o título de “Formigas na Rapadura”, ilustra um pouco da sua criticidade como jornalista.

 

Acho que todo mundo lembra o que disse num discurso o presidente Kennedy: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país.” Eu estava lendo os jornais e aí me ocorreu, como já deve ter ocorrido a muitos de vocês, que nossa prática política se orienta por uma atitude oposta a essa exortação. Ou seja, queremos saber o que o Brasil pode fazer por nós, mas não alimentamos muita curiosidade sobre o que podemos fazer pelo Brasil. Isso se expressa no comportamento de nossos governantes, que não disputam nada pensando no país, mas em abocanhar ou manter o poder, aqui tão hipertrofiado, abarrotado de privilégios e odiosamente infenso ao controle dos governados. Para que mais, a não ser desfrutar desses privilégios, não se sabe, porque não existe projeto, além da cantilena sobre justiça social, saúde para todos, educação de qualidade e outras generalidades com as quais todos concordam. Que modelo de estrutura socioeconômica queremos, que Estado queremos, que país queremos, como chegaremos lá? Que propostas concretas são oferecidas? Ninguém diz – e os programas partidários, como os próprios partidos, causam constrangimento, pela ausência de ideias e compromissos sérios. O negócio é se eleger e se abancar, depois se vê o que se pode fazer, conforme a necessidade e a serventia para a permanência no poder. Na pátria, como se falava antigamente, ninguém se mostra muito interessado.

 

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A sociedade descrita nos livros

Do jornal para os livros, Ubaldo manteve sua linguagem polêmica na produção de obras traduzidas em vários idiomas e sempre apontando um viés político face à sociedade de sua época. E essa vocação para a literatura também adveio da tenra idade. Aos 21 anos de idade, em 1962, escreveu seu primeiro livro com o título de Setembro não tem sentido, mas a publicação só ocorreu em 1968, quando seu amigo Glauber Rocha solicitou ao romancista Flávio Moreira da Costa que intercedesse junto aos editores cariocas que publicassem seu trabalho.

 

Setembro não tem sentido faz críticas aos mais diversos setores da sociedade baiana, mencionando o quão vazia se dá o comemorado dia da Pátria, 7 de setembro, em que fazem desfiles de fanfarras, tambores barulhentos e a compreensão do patriotismo e da autenticidade histórica do processo de Independência do Brasil permanece obscura. Esse sentimento parece fazer parte da opinião de muitos na atualidade, que consideram a chamada Semana da Pátria como algo irrelevante, calcado até na falta de respeito cívico, dando lugar apenas ao espírito festivo, a um simples feriado.

 

Aos 30 anos, Ubaldo conta a história de Getúlio Santos Bezerra, então homem de confiança de um influente coronel sergipano, que necessita conduzir um preso político de Paulo Afonso até Aracaju. Entretanto, a missão de Getúlio é alterada por conta de uma reviravolta política, quando já se encontrava no meio do trajeto.

 

Nos idos de 1984, Ubaldo publicou mais um romance intitulado Viva o Povo Brasileiro, com temática histórica, mesmo que o próprio autor não considere como pertencente a tal gênero. Porém, aspectos relacionados à catequese, à invasão holandesa, à independência da Bahia, ao regime escravista e sua abolição, à proclamação da república e ao golpe de 1964 eram sutilmente mencionados no seu romance.

 

No início dos anos 70, Ubaldo também passou a escrever uma coletânea de contos, publicado como Vencecavalo e o outro povo, e o Livro de histórias, publicado em 1981 e reeditado em 1991, incluindo os contos Patrocinando a arte e O estouro da boiada, sob o título de Já podeis da pátria filhos.

 

Ainda no início dos anos 80, Ubaldo construiu uma coletânea de ensaios intitulada Política: quem manda, por que manda, como manda, dedicada a seu amigo Glauber Rocha.

Dos livros para a televisão e para o cinema

O sucesso de João Ubaldo Ribeiro não surgiu apenas com a publicação de seus ensaios, crônicas e romances. Graças à leitura dessas obras, o autor foi convidado a auxiliar na produção de filmes e séries de televisão.

 

Lima Duarte protagonizou o personagem principal da obra Sargento Getúlio, que foi premiado em 1983. O filme levou cinco Kikitos no Festival de Gramado. Depois, viajou aos Estados Unidos e retornou ao Rio de Janeiro em 1991. Nesse período, seu romance O sorriso do lagarto foi adaptado para uma minissérie na Rede Globo, protagonizada pelos atores Tony Ramos, Maitê Proença e José Lewgoy, recentemente lançada em DVD.

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Em 1993, a Rede Globo tinha um programa chamado Caso Especial. Um desses casos contou a história encontrada em O santo que não acreditava em Deus, também protagonizada por Lima Duarte. Também baseada nessa história, Cacá Diegues roteirizou o filme Deus é Brasileiro, com Antônio Fagundes, cujo personagem divino resolve tirar férias e, para seu substituto, escolhe o borracheiro Taoca, interpretado por Wagner Moura, papel que lhe rendeu o Troféu APCA, em 2004.

 

 

João Ubaldo Ribeiro partiu deste mundo, mas deixou suas publicações traduzidas em idiomas como alemão, dinamarquês, espanhol, finlandês, francês, holandês, hebraico, inglês, italiano, esloveno, norueguês e sueco. Assumiu, ainda, a cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, o que só aumenta a admiração por parte dos estudiosos de literatura e, com sua linguagem eminentemente popular, aproxima-se ainda mais do povo. Vem a calhar um estudo dessa linguagem, descrevendo a riqueza do vocabulário que o falar nordestino tem de melhor, mas isso é outra história…

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 57

Adaptado do texto “O sorriso polêmico de João Ubaldo Ribeiro”

*Edmilson José de Sá é professor do Centro de Ensino Superior de Arcoverde (PE), Mestre em Linguística e Doutor em Letras. Contato: edmilsonjsa@hotmail.com