O sermão do diabo

“O Sermão do Diabo”, conto de setembro de 1893, é uma paráfrase do Sermão da Montanha, publicada em “Páginas Recolhidas”, de 1899. Este livro traz, além de alguns contos badalados de Machado de Assis – como “O caso da vara” e Missa do galo” – alguns esparsos publicados em jornais e revistas da época, de 1892 a 1894

Por Leo Ricino * | Imagem: Gustave Doré / Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O diabo — palavra buscada no grego pelo latim, cujo sentido é ‘o que dá temor’, ‘o que desune’, o ‘caluniador’ —, que faz seus estragos ou leva alguns a fazerem-nos por ele em muitas histórias, é personagem constante na literatura. Para não ficar citando vários nesta introdução, basta que nos lembremos de uma atuação diabólica, pelo menos na cabeça do narrador e protagonista Riobaldo, num livro clássico de nossa Literatura: “Grande Sertão: Veredas” (1956), de Guimarães Rosa. Aliás o demônio já fez seus estragos no extraordinário “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de 1946, quando Matraga resolve se purificar, se livrar das tentações demoníacas e ir para o céu de qualquer jeito. Para mim, numa afirmação nada científica, técnica ou acadêmica, esse conto é o embrião do “Grande Sertão”.

 

Machado de Assis, leitor contumaz da Bíblia e dos clássicos da literatura mundial, incluindo a Mitologia, não deixaria o diabo à margem de suas histórias. De fato, “em verdade vos digo” que a criatividade machadiana, juntamente com outros autores mundiais e nacionais – Balzac, Flaubert, Zola, Raul Pompéia, Lima Barreto e, com ‘Senhora’, até José de Alencar, etc. –, instaurou o homem real como personagem e, de lambuja, ainda nos presenteou com essa criatura implacável que é o seu diabo.

 

Enfim, a verdade é que a maneira consistente e crível como Machado de Assis cria seus personagens rasga os tempos e vai esbugalhando olhos de admiração desde sua existência física até este momento, já em tempos consolidados do século XXI, e, creio, perdurará para todo o sempre.

 

 

Intertextualidade – três fontes clássicas endiabradas

 

Só para que se perceba a força desse ser demoníaco em alguns momentos da produção escrita da humanidade, exporei três pinceladas de intertextualidade entre várias manifestações escritas que contam com a presença satânica.

 

A primeira fonte é a Mitologia grega. Na partilha dos reinos conquistados pelos irmãos e deuses Zeus, Posêidon e Hades, quando derrotaram definitivamente o cruel pai, Cronos, ao último coube o domínio dos Infernos, ou Hades, o mundo subterrâneo para onde iam todos os mortos, independentemente de suas ações durante a vida.

 

Essa travessia era levada tão a sério pelos gregos da época que colocavam uma moeda (óbolo) sob a língua dos seus mortos, como garantia de pagamento ao barqueiro Caronte, para garantir o transporte — por seu barco, que singrava o Aqueronte — da alma do parente àquela região subterrânea. Aliás, duas eram as condições para a prestação desse inestimável e insubstituível serviço: que o corpo tivesse sido sepultado e que houvesse esse pagamento.

 

Chegando aos Infernos, havia um julgamento das atitudes do morto durante sua vida. Se nada o denegrisse, era levado aos Campos Elísios, lugar de benesses, divertimentos, alegrias infindáveis; se houvesse manchas durante a vida do morto, era condenado e conduzido ao horripilante abismo Tártaro (esse o verdadeiro inferno), onde sofria castigos e angústias terríveis eternamente, tudo sob o jugo impiedoso de Hades e seus asseclas. Como o atemorizador Hades sabia que num determinado momento todos os homens iriam ter com ele, ele praticamente não interferia nas ações humanas.

 

A segunda fonte, na Idade Média e já na fé cristã, a obra-prima de Dante, a “Divina Comédia”, foi composta em três partes: o inferno, o purgatório e o paraíso. Contudo, a mais emblemática é sem dúvida a primeira, o inferno. Tão importante que consagrou a expressão “inferno dantesco” para algo difícil, dolorido, caótico, complexo… No Canto III, versos 19 a 30, há uma bela descrição do que é o Inferno, comandado por Lúcifer:

“Suspiros, choros, gritos altos e desesperados cruzavam aquele espaço escuro. Ouvindo-os, meu pranto também corria. Diversos idiomas, frases despropositadas, lamentos, vozes roucas, gritos de dor e cólera, rumor de mãos a flagelarem o corpo que as sustinha, tudo isso formava um turbilhão
a girar perenemente naqueles
ares conturbados, qual areia por tufão levantada.”
(Divina Comédia, tradução em prosa de Hernâni Donato, Editora Nova Cultural, São Paulo, 2009)

Essa descrição já nos dá uma visão bem realista do que é o inferno: não há perdão, não há redução de pena, não há clemência, pois a essência do diabo é o castigo, a maldade, e no inferno Satanás está no seu paraíso.

A terceira fonte, encerrando essa intertextualidade ligeira aqui exposta, é “Fausto”, de Goethe, que apresenta um diabo forte, desafiador, provocador e tentador. Só para se ter uma ideia, fiquemos com o momento do pacto entre Mefistófeles e Fausto. Fausto se irrita com o cão no seu escritório e tenta expulsá-lo. O cão vai ganhando vulto e se transforma no diabo Mefistófeles, que arrancará o pacto a Fausto, apresentando-se assim:

Eu sou aquele Gênio que nega e que destrói!
E o faço com razão; a obra da Criação
caminha com vagar para a destruição.
Seria bem melhor se nada fosse criado.
Por isso, tudo aquilo a que chamas pecado,
ou também “destruição” ou simplesmente “o Mal”
constitui meu elemento eleito e natural.
(In Pequena Enciclopédia da Cultura Ocidental, Salvatore d’Onofrio, citando a tradução de Sílvio Meira, p. 200)

Creio que nada precisa ser dito após essa fala. Fiquemos com essas três amostras da participação de Satanás nos belos textos da cultura humana.

 

 

A Igreja do Diabo e O Sermão do Diabo

Mesmo distando apenas dez anos entre o conto e a paráfrase O Sermão do Diabo, não creio ser possível afirmar que um foi embrião de outro. No entanto, sugiro ao leitor que leia A Igreja do Diabo e O Sermão do Diabo e tire suas conclusões.

 

A Igreja do Diabo é um conto que, para citar o mínimo, também faz intertextualidade com a Bíblia e com o ‘Fausto’, de Goethe. Já O Sermão do Diabo, ainda que cite Mefistófeles, é praticamente uma paráfrase dos mesmos tópicos do Sermão da Montanha.

 

Veja compreensão de um especialista sobre o conto “A igreja do Diabo”

 

Relembrando – O Sermão da Montanha

Não sou versado no estudo da Bíblia. Quando preciso ler, principalmente para a elaboração dos artigos que aqui publico, socorro-me da Bíblia Sagrada, tradução da CNBB, 2.ª edição, várias editoras, 2002.

 

Nesta, na página 1153, em Mateus, 5, está o Sermão Da Montanha, cuja primeira frase é:

“Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e ele começou a ensinar”.

Em seguida, vem a sequência das “bem-aventuranças”, e na Bíblia de que disponho o termo “Bem-aventurados” é substituído por “Felizes”: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus”, “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”, “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”, etc., citando apenas alguns, aleatoriamente.
Já em Lucas, 6, página 1221, após escolher seus doze apóstolos, incluindo o zelote Simão, Jesus desce da montanha, para num plano e, vendo a multidão que o esperava para ouvi-lo e serem curados de doenças, põe-se a pregar. Há uma diferença mínima na primeira bem-aventurança: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!”. No “Sermão da Montanha”, a primeira frase é “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus”, ou seja, num há referência aos pobres de espírito e noutro aos pobres materiais.
Aos interessados, sugiro a leitura completa do Sermão da Montanha, em Mateus, 5, e em Lucas, 6, a partir de Pregação na planície, onde se pode, in loco, constatar as afirmações acima.

 

 

O Sermão do Diabo

Quem leu A Igreja do Diabo sabe que o enredo é calcado num manuscrito beneditino. Não é diferente com O Sermão do Diabo, mas há, nesse quesito, grande diferença entre as duas histórias: na primeira, é um manuscrito a que o narrador teve acesso; na segunda, o manuscrito fora entregue pessoalmente(?) pelo Diabo ao narrador. O narrador começa dizendo:

 

“Nem sempre respondo por papéis velhos; mas aqui está um que parece autêntico; e, se o não é, vale pelo texto, que é substancial.”

E encerra, afirmando:

“Aqui acaba o manuscrito que me foi trazido pelo próprio Diabo, ou alguém por ele; mas eu creio que era o próprio. Alto, magro, barbícula ao queixo, ar de Mefistófeles. Fiz-lhe uma cruz com os dedos e ele sumiu-se. Apesar de tudo, não respondo pelo papel, nem pelas doutrinas, nem pelos erros da cópia.”

 

 

A velha ironia machadiana

Páginas Recolhidas é uma coletânea elaborada pelo próprio Machado de Assis e é composta por alguns contos, alguma análise da política da época dele e algumas crônicas, publicadas esparsamente em jornais e revistas contemporâneos do autor, como a Revista Brasileira e a Gazeta de Notícias. O autor incluiu a peça de teatro “Tu só, tu, Puro Amor…”, homenagem a Camões.

 

O Sermão do Diabo está carregado de ironia e, ao contrário do Sermão Da Montanha, o monte onde o Diabo se postou para falar aos seus discípulos tem nome: trata-se do Corcovado. Portanto, os crédulos a quem os discípulos levariam a palavra do Senhor eram brasileiros do Rio de Janeiro.

 

Alguns dos ensinamentos diabólicos, na ironia machadiana, beiram à premonição. São todos numerados e aqui vou destacar dois ou três, só para que se possa ter ideia da fala do Diabo:

“3.º Bem-aventurados aqueles que embaçam, porque eles não serão embaçados”.

 

Levando-se em consideração que um dos significados de “embaçar” é enganar, iludir, já se percebe a intenção do Diabo.

 

E os mais espertos aprenderam piamente esse ensinamento e o legaram às gerações futuras, tanto que muitos o praticam à exaustão ainda hoje. Premonição em relação à sociedade brasileira? E não estou fazendo nenhuma referência aos políticos!

“5.º Bem-aventurados os limpos das algibeiras, porque eles andarão mais leves”.

Remete-nos à lei da janela, que apareceu em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, segundo a qual, para aplacar o forte remorso causado por alguma ação maldosa, basta praticar uma boa ação. Aqui, ironicamente, se você traz seus bolsos sempre vazios, se é um pobre de posses, o Diabo lhe garante uma compensação: você caminha mais leve, subnutrido e sem cobres a pesar-lhe nos bolsos.

 

“9.º Vós sois o sal do money market. E se o sal perder a força, com que outra cousa se há de salgar?”

“10.º Vós sois a luz do mundo. Não se põe uma vela acesa debaixo de um chapéu, pois assim se perdem o chapéu e a vela.”

No “Sermão da Montanha”, os discípulos são o sal da terra e a luz do mundo. Eles devem produzir frutos e brilhar dando exemplos de boas ações. Aqui, o Diabo mostra que o que interessa, o que faz girar o mercado é o dinheiro, a ganância, o interesse próprio. Sem ele, que é o sal, esse perde a força e nada há que o substitua. E a luz emanada sem objetivos específicos perde valor e não produz riqueza aos exploradores, de quem será o reino do inferno.

“18.º Não façais as vossas obras diante de pessoas que possam ir contá-las à polícia.”

 

Conselho demoníaco que, a julgar pelas várias operações em andamento da Polícia Federal, não foi bem seguido nos tempos atuais. Como o money market é dominado pelo sal da corrupção, muitos se esqueceram de guardar privacidade em suas ações e acabaram criando ações entre amigos. O próprio diabo, porque não lhe seguiram o conselho, lhes aplicou um castigo insidioso chamado delação premiada.

“22.º Não vos fieis uns nos outros. Em verdade vos digo que cada um de vós é capaz de comer o seu vizinho, e boa cara não quer dizer bom negócio.”

É o diabo falando com a voz da experiência e do conhecimento longamente adquirido sobre as ações dos seres humanos.

 

 

Considerações finais

Por causa da dicotomia e do eterno maniqueísmo do mal contra o bem, belíssimas páginas literárias foram produzidas. O Sermão do Diabo é uma peça ligeira, uma das crônicas que devem ter surgido num lampejo na cabeça criativa do autor e ele cismou de colocá-la no papel, como ele confessa no prefácio de ‘Páginas Recolhidas’.

 

Como Machado de Assis é bem mais lido em seus romances e contos, algumas vezes sirvo-me do espaço deste Conhecimento Prático Literatura para mostrar outras nuances de sua produção em prosa e tentar despertar a curiosidade do leitor sobre esse encantador viés da obra machadiana.

 

E posso garantir ao leitor deste Site: uma visita a essa obra quase desconhecida de Machado de Assis vai, decerto, enriquecer seu repertório cultural e lhe dar uma visão diferente sobre o grande romancista e contista brasileiro. Você entrará em contato com um Machado de Assis real, homem em carne e osso, discutindo política da sua época, comentando literatura, falando de música, de nacionalismo, enfim, um rico universo temático. Boa leitura.

 

 

*Leo Ricino é professor na FECAP – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado e instrutor na Universidade Corporativa Ernst & Young.

 

Revista Conhecimento Prático Literatura Ed. 66