O Romance de Formação em O Ateneu, de Raul Pompéia

Ao analisar o livro “O Ateneu” sob a ótica do romance de formação, não é difícil perceber que Raul Pompéia e J. W. Goethe podem ter mais coisas em comum do que se imagina

Por Wesley Moreira de Andrade* | Fotos: Reprodução Internet | Adaptação web Caroline Svitras

 

Um personagem tem sua vida retratada desde determinado momento de sua infância, passando pela sua adolescência até atingir certo grau de maturidade. O leitor acompanha o desenvolver de sua psicologia, a densidade de suas ideias, a inconstância de suas atitudes e os consequentes erros e acertos da caminhada, ao mesmo tempo em que se descobre junto com o personagem e educa-se simultaneamente a ele. Desta maneira caracteriza-se o Bildungsroman ou Romance de Formação com acentuadas diferenças entre as obras que seguem este peculiar gênero da literatura.

 

O paradigma deste tipo de narrativa é o livro “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister”, de J. W. Goethe, um marco da literatura, pois inaugurou um gênero à parte dentro do próprio romance. “O Ateneu” foi lançado no formato de folhetim pelo jornal “A Gazeta de Notícias” em 1888 e, por mais que esta publicação tenha acontecido no período do Realismo-Naturalismo, o romance de Raul Pompéia não pode ser apenas classificado sob as características destas escolas literárias.

 

O que liga então essas duas obras aparentemente tão díspares, separadas por nacionalidades diversas e por mais de um século da publicação de um e outro, com temáticas tão diferenciadas? A intersecção acontece na possibilidade de formação dos protagonistas, a partir das andanças do jovem Wilhelm no clássico goethiano e durante a estada traumática de Sérgio no colégio interno de Aristarco do emblemático romance brasileiro. A formação consciente de Wilhelm contra a educação forçada de Sérgio.

 

No romance há uma abordagem diversa da infância (longe de qualquer idealização romântica) e uma denúncia da tirania no ensino, seu tradicionalismo e demagogia que escondem uma engrenagem perversa e traumática, refletindo o próprio mundo, conforme já anunciara o pai do protagonista Sérgio.

 

WILHELM MEISTER E SÉRGIO: TRAJETÓRIAS
Cenas da infância

Em “O Ateneu”, o próprio narrador, ao recordar-se dos tempos em que iria estudar no colégio, considera este fato vital para a sua formação, do que ele viria a se tornar.

 

Destacada do conchego placentário da dieta caseira, vinha próximo o momento de se definir a minha individualidade (p. 12)

 

Sérgio já não demonstra emoção ao voltar-se à infância, suas reminiscências trazem um pouco do amargor e do desencanto de quem não se impressiona mais com as coisas, não vê novidade nelas, visão ao qual se deve muito a vivência traumática no internato. Sérgio, naquela idade tinha consciência de que, com a sua ida à escola, tornar-se-ia um adulto, mais um indício de seu desejo de “formação”, mesmo que ainda inocente em seu intento.

 

Ao contrário de Sérgio, as reminiscências de Wilhelm Meister, são cercadas de nostalgia, em que relembra com riqueza de detalhes o fascínio que lhe causara a encenação de Davi e Golias numa noite de Natal, quando Wilhelm tinha 12 anos, fundamental para o despertar do interesse pelas artes cênicas. Fato que conta (junto a outras experiências teatrais) com muita empolgação à sua amada Mariane e à criada dela, Bárbara, relato que causa a elas mais sono do que comoção.

 

A figura paterna

A figura paterna nos romances “O Ateneu” e “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” tem uma coincidência nas respectivas narrativas. Em ambos, a relação dos protagonistas com seus pais é fria e distante. Os pais são os responsáveis por lançar os filhos para a “vida real”, o convívio em sociedade. O pai de Sérgio coloca o filho no internato, já o pai de Wilhelm incumbe o filho de sair em viagem para cobrar e negociar os títulos e dívidas (na intenção de que ele tome gosto pelos negócios da família), fato este que faz com que Wilhelm abandone seus afazeres para dedicar-se à vida teatral.

 

O pai de Wilhelm, o velho Meister, é contra a aptidão do protagonista com o teatro e não enxerga utilidade nestas atividades, achando-as um desperdício de tempo. O fato de designar a Wilhelm uma missão comercial, parte do desejo e esperança que o pai do protagonista tem do filho aquilo que acredita ser “o destino de sua vida”, ou seja, dedicar-se ao comércio.

 

Já o pai de Sérgio acompanha-lhe ao Ateneu, presencia as apresentações e as festividades locais, introduz o filho ao conhecimento de Aristarco. O pai é uma figura que obriga Sérgio a comportar-se da forma mais madura possível, sem exteriorizar os seus medos e receios desta nova fase que iria enfrentar, pois a entrada ao Ateneu é um sinal de que está virando um homem.

 

O pai de Sérgio visitava-o todas as semanas, mas ele não se sentia à vontade para relatar ao pai todos os eventos que o afligiam. Uma doença fez com que estes encontros fossem interrompidos, colaborando para o sentimento de solidão e abandono que o protagonista já sentia no ambiente do internato, o recrudescimento de sua devoção a Santa Rosália e o temor por uma punição divina. O abandono dá-se ainda de forma mais rígida quando, por carta, fica sabendo que seus pais viajaram a Paris devido aos seus padecimentos. Nesta carta, fica explícito o caráter da educação dada pelo pai a Sérgio, voltada ao carpe diem horaciano. O conteúdo da carta é quase uma justificativa para a sua ausência familiar, agora continental, uma vez que Sérgio estará sozinho a partir de então para enfrentar “o mundo”, o Ateneu, consequentemente:

Saudade, apreensão, esperança, vãos fantasmas, projeções inanes de miragem; vive apenas o instante atual e transitório. É salvá-lo! salvar o náufrago do tempo. (p. 149)

 

As figuras femininas/maternas

Sérgio projeta nas mulheres o medo do pecado e o sentimento materno, além do desejo que isto desperta nele. Em O Ateneu, apenas três mulheres tomam-lhe os pensamentos: sua mãe, Ema e Ângela. A primeira representa tudo que ele é obrigado a renunciar após a sua ida ao Ateneu: o conforto do lar, o carinho, a dedicação, a vida familiar. A segunda é uma espécie de versão postiça da mãe ao mesmo tempo em que sua presença também o instiga sexualmente, num confuso e tênue sentimento edipiano. A terceira é o pivô de um crime cometido por um jardineiro do Ateneu, episódio que gera grande choque em Sérgio pelo contato primário que tem com a morte ao ver-se diante de um cadáver.

 

Ema, das três, acaba tendo maior destaque no enredo do romance de Raul Pompéia. A passagem para a vida adulta de Sérgio no colégio não seria completa se não existisse um componente romântico, amoroso, sexual dentro de todo este processo. Por mais que almejasse os carinhos de mãe, era a mulher que aflorava os sentimentos do adolescente.

 

E nos momentos que antecedem o incêndio do Ateneu, Ema acompanha a convalescência de Sérgio, que teve sarampo, e cobre-o de carinhos e cuidados. Todos esses detalhes enternecem Sérgio e o faz desejar que a recuperação não aconteça tão rapidamente, tamanho prazer e bem-estar lhe proporcionam a companhia da esposa de Aristarco. Sérgio esquece-se da mãe, que está em viagem junto com o pai substituída rapidamente por Ema, a quem devota um sentimento diverso do maternal, de sutil sexualidade que Raul Pompéia constrói com muita riqueza.

 

Wilhelm Meister cruza com diversas mulheres em seu caminho, muitas de temperamento mais forte e decidido do que ele. Seu relacionamento com a mãe é harmonioso, é ela quem lhe desperta a paixão pelas artes cênicas, muitas vezes indispondo-se com o marido para a manutenção deste desejo do filho e encobrindo suas idas ao teatro. Mariane, atriz por quem Wilhelm nutre uma grande paixão no início do romance, está grávida dele, porém possui um outro amante, chamado Norberg, que é do exército e está para retornar aos braços dela. Temos Philine, uma jovem atriz de comportamento espontâneo, divertido, com quem Wilhelm convive no grupo teatral para o qual passa a trabalhar e Mignon, garota misteriosa, livrada por Wilhelm sob o julgo de um explorador que a usava para apresentações artísticas. Aurelie, uma amiga com quem o protagonista também troca diversas impressões sobre a arte e o amor e, finalmente, Natalie, aristocrata que salva a vida de Wilhelm Meister ferido por uma bala após um assalto feito às carruagens de seu grupo teatral e que ele reencontra nos capítulos finais do livro para casar-se com ela numa significativa e simbólica mésalliance.

 

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Conhecimento Prático – Literatura Ed. 66

*Wesley Moreira de Andrade é graduado em Letras pela Universidade Nove de Julho e professor de Língua Portuguesa pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Adaptado do texto “O Romance de Formação em O Ateneu, de Raul Pompéia”