O português de Lima Barreto

A passagem do século XIX para o XX representa, no Brasil, uma época de inegável avanço nos estudos da língua portuguesa em geral, particularmente no que se refere à sua relação com a realidade cultural brasileira.

Por Mauricio Silva* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Foram muitos os autores, por exemplo, que se dedicaram, em maior ou menor grau, a abordagens inéditas de fatos da língua que resultaram do processo de aclimatação do português no Brasil, como Rui Barbosa ou João Ribeiro, entre outros. Mas há também aqueles que, sem se caracterizarem necessariamente como intelectuais de destaque e sem serem considerados especialistas nos estudos da linguagem, também deram uma importante contribuição ao estudo e desenvolvimento da língua portuguesa no Brasil. Em geral, trata-se de escritores mais dedicados à arte da ficção do que propriamente à ciência da linguagem; e que, de uma forma ou de outra, procuraram expor, nem sempre com a desejada isenção, sua opinião a respeito do assunto: basta que nos lembremos de nomes como os de José de Alencar, Affonso de Taunay e Gonçalves Dias no século XIX ou de Monteiro Lobato e Mário de Andrade, no XX, todos eles romancistas ou poetas de renome, mas que não hesitaram em emitir opiniões – as mais contraditórias! – acerca da língua portuguesa no Brasil.

 

Entre tantos literatos preocupados com a utilização e o desenvolvimento de nossa língua, destaca-se a figura de Lima Barreto, romancista que soube como poucos empregar sua pena em favor de uma série de questões sociais, mas que também se voltou com desusada pertinácia para o problema do português brasileiro, como alguns teóricos gostavam de dizer. Nascido e criado no subúrbio do Rio de Janeiro, Lima Barreto escreveu alguns dos mais importantes romances da literatura brasileira, mas nunca deixou de atuar de forma sistemática contra os abusos cometidos em nome da língua portuguesa, atacando toda sorte de preciosismo gramatical e de preconceito linguístico. Para ele, a linguagem representava um instrumento de poder, e era assim que ele entendia a relação entre, de um lado, intelectuais e literatos e, de outro, a massa informe da população, relação essa intermediada pela linguagem. Nascido numa família cujos avôs foram escravos, conheceu literalmente na pele – mulato que era – todo tipo de preconceito, combatendo-o também em sua cruzada contra a linguagem dominantes e opressora. As primeiras décadas do século XX, período em que produziu seus melhores romances — Triste Fim de Policarpo Quaresma, por exemplo, é de 1911 — foram, nas palavras de Cavalcanti Proença, uma época de particular efervescência gramatical, período em que a expressão linguística sofria intensa pressão dos “guardiões” da língua portuguesa, agrupados em torno da Academia Brasileira de Letras, entidade que nasce sob a inspiração de uma ideologia linguística particularmente conservadora: trata-se, a título de exemplo, de uma instituição que tinha prescrito em seu estatuto e regimento Interno a preservação da “cultura da língua e da literatura nacional”.

 

 

Nesse contexto, os embates em torno de uma linguagem que representasse de forma mais realista a população, além da renovação do próprio discurso literário, ficava por conta de uma série de autores mais ou menos marginalizados: são os chamados pré-modernistas, dos quais Lima Barreto pode ser considerado uma das principais figuras. O romancista carioca revelou-se, desde o princípio, um autor particularmente sensível ao poder coercitivo da linguagem culta, o que o levaria a se afirmar como um escritor que fez do desvio da norma linguística vigente uma de suas principais bandeiras estéticas. No seu caso, portanto, tal desvio não se manifestava como uma atitude acomodada de isolamento diante de um fato contra o qual seria aparentemente inútil lutar, mas antes como uma práxis literária norteada pelo combate fervoroso contra toda forma de dominação linguística. É nesse instante que Lima Barreto empunha suas armas e sai a campo contra o poder linguístico constituído sob a forma de correção de linguagem, opondo-se visceralmente ao preciosismo gramatical, ao purismo linguístico e o academicismo estilístico. Perseguido pelos gramáticos, que insistiam em apontar incorreções em seus escritos, Lima Barreto parecia agir ora com desprezo, ora com ironia, diante dos ataques sofridos. Enfatizava assim seu desprezo pelas críticas sofridas, como numa de suas cartas ao amigo Lucilo Varejão, em que afirma: “eu temo tanto esses tais clássicos e sabedores de gramática como a qualquer toco de pau podre por aí […] Meus livros saem errados devido à minha negligência e ao meu relaxamento, à minha letra, aos meus péssimos revisores, inclusive eu mesmo. Isso explica os erros vulgares; mas, quanto aos outros da transcendente gramática dos importantes, eu nunca me incomodei com eles”.
Embora tais afirmações sejam relativizadas por algumas passagens em que o romancista, ao contrário do que acabara de dizer, revelava uma relativa preocupação com essas transcendências gramaticais (como num trecho de seu Diário Íntimo, em que condena o uso “incorreto” de um pronome, numa frase escrita por Gilberto Amado), o que acaba prevalecendo mesmo era uma atitude acidamente irônica em relação ao preciosismo gramatical de seus contemporâneos.

 


Um exemplo disso é o tratamento que Lima Barreto dá a algumas de suas personagens, particularmente os gramáticos, ridicularizados com frequência em seus contos e romances, como no caso do Capitão Pelino, mestre-escola e redator de jornal no conto ‘A Nova Califórnia’: desfrutando a fama de sábio pelo mero fato de ser um gramático, atuava como uma espécie de censor da língua, promovendo um verdadeiro “apostulado do vernaculismo”; ou no caso do Doutor Barrado, no conto ‘Como o Homem Chegou’: trata-se, aqui, de uma personagem, segundo as palavras do romancista, de “pichoso saber gramatical”, inconformado com as colocações linguísticas pouco puristas. Mas o melhor exemplo, nesse aspecto, é o de Lobo Neves, nas Recordações do Escrivão Isaías Caminha: gramático do jornal O Globo, obsessivamente preocupado com a correção gramatical e no uso castiço da língua, Lobo Neves tinha fama de caturra e mal-humorado, sempre às voltas com as regras gramaticais e à procura de colocações que destoavam de seu rígido saber linguístico; acaba louco e internado no hospício, de tanto ouvir o que considerava impropriedades linguísticas; no hospício, passa o tempo lendo e recitando a Ensynança de Bem Cavalgar, de Dom Duarte, e tapando os ouvidos para não ouvir nada. Numa passagem em que procura descrever a figura de Lobo Neves, podemos entrever a ideia que o próprio Lima Barreto fazia da gramática e seus cultores: “A Gramática do velho professor era de miopia exagerada […] Não admitia equivalências, variantes; era um código tirânico, uma espécie de colete de força em que vestira as suas pobres ideias e queria vestir as dos outros. Há três ou cinco gramáticas portuguesas, porque há três ou cinco opiniões sobre uma mesma matéria.” A questão é que Lima Barreto devotava um particular desprezo por e articulava um obstinado combate contra todos aqueles que, de um modo ou de outro, procuravam ditar regras para um pretenso bom uso da linguagem. Nesse sentido, ele pode ser considerado uma das mais importantes vozes de resistência ao purismo prevalente na passagem do século, representado por uma série de escritores acadêmicos que faziam da linguagem castiça e elegante um verdadeiro dogma literário. É nesse sentido, portanto, que podemos entender os inúmeros ataques de Lima Barreto àqueles pseudointelectuais mais preocupados em revestir suas precárias ideias com uma linguagem pretensamente erudita do que em veicular valores verdadeiramente relevantes, a acepção do romancista: é a esses escritores de muita forma e pouco fundo – demasiadamente “literários” como diria, ironicamente, José Veríssimo, em seu livro Letras e literatos: estudinhos críticos da nossa literatura do dia. – que o romancista carioca devota especial desprezo, como comprovam suas palavras confessionais, retiradas de suas Impressões de Leitura: “Por toda a parte tenho mostrado a minha insurreição contra o clichê grego e sempre que posso desanco a cacetada os clássicos portugueses que os médicos literatos nos querem impingir como modelos de bela linguagem.”
Nesse sentido, parece não ter havido nada mais ofensivo, mais exasperador para Lima Barreto do que essas infrutíferas tentativas de domar a língua literária, atitude que ele ousou atacar em mais de uma oportunidade. Para o romancista carioca, a boa linguagem seria, na verdade, aquela que conseguisse, com simplicidade e clareza, transmitir ideias profundas, de preferência de cunho marcadamente social, como o autor defendeu na teoria e realizou na prática. E ideias profundas só poderiam ser vazadas, no seu ponto de vista, por meio de uma expressão particularmente modesta. Por estas e outras razões, Lima Barreto busca atacar, não poucas vezes, esse tipo de linguagem que pouco tem a ver com a realidade linguística de um povo que, na sua maioria, era iletrado e de um país ainda à procura de uma expressão literária própria e independente. Aludindo alegoricamente à nossa língua, no romance Os Bruzundangas, Lima Barreto deixa claro essa sua posição pouco condescendente: “Aquela [linguagem] em que escreviam os literatos importantes, solenes, respeitados, nunca consegui entender, porque redigem eles as suas obras, ou antes, os seus livros, em outra muito diferente da usual, outra essa que consideram como sendo a verdadeira, a lídima, justificando isso por ter feição antiga de dois séculos ou três.”

 

 

Posicionamentos intransigentes e nada conciliatórios, como os citados antes, podem ser encontrados ainda no tratamento dado pelo romancista à noção de academicismo estilístico. Aqui, tal conceito perde sua significação mais propriamente literária, para revestir-se de um sentido mais ligado à ideia de expressão linguística destinada a uma finalidade artística. O academicismo estilístico, nesse sentido, não era senão aquela linguagem de que se serviam os escritores particularmente preocupados em manter a literatura numa espécie de camisa de força linguística: uma expressão rebuscada, excessivamente vernacular, de claros contornos parnasianos e, sobretudo, conservadora. Enfim, uma linguagem acadêmica…
Desse modo, Lima Barreto coloca sob suspeição a validade da linguagem imposta pela tradição acadêmica, que acaba por falsear a realidade, e dá um passo decisivo em direção à estética modernista, a qual vingaria anos mais tarde. Sua luta, agora, volta-se contra o linguajar clássico da literatura academicista, empregado por aqueles que, segundo o autor, buscam de algum modo ludibriar o interlocutor: combate, portanto, como afirma em suas crônicas compiladas em Feiras e Mafuás, toda forma de “arcaísmos de léxico e de sintaxe” ou a mescla de “vocábulos, modismos, construções, idiotismos” de séculos diferentes num mesmo período, procedimentos que considera próprio do “estilo clássico”.

 

Monteiro Lobato

Mas se os exemplos acima arrolados ilustram o infatigável combate de Lima Barreto contra uma série de fenômenos da linguagem, cumpriria perguntar, a estas alturas, quais teriam sido as saídas encontradas pelo célebre romancista para semelhante impasse, quais as suas propostas para reverter o quadro apresentado. Se seu inusitado engajamento literário pressupunha uma série de batalhas contra o que considerava linguisticamente ilegítimo, é natural que buscasse soluções para os problemas apontados e indicasse caminhos a serem trilhados nessa árdua tarefa de construção de uma expressão linguística autenticamente brasileira. Uma das saídas propostas por Lima Barreto, por contraditório que pareça, tem seu fundamento exatamente na revalorização de uma tradição linguística. Evidentemente, não se trata aqui de um sentido clássico de tradição, isto é, um conjunto de procedimentos virtualmente legados a gerações posteriores, o que corresponderia à defesa de uma linguagem de natureza arcaizante. Ao contrário, sua concepção de tradição sugere antes duas ideias, a nosso ver, bastante originais e ousadas para a época em que o autor viveu e escreveu: em primeiro lugar, Lima Barreto busca uma saída na recuperação de um discurso fundador de nossa nacionalidade, o que, no limite, pode ser entendido tanto como uma tentativa utópica de ressurgimento do tupi-guarani (como ocorre em célebre passagem de seu Triste fim de Policarpo Quaresma) quanto como a defesa de uma linguagem verdadeiramente abrasileirada, em que se destaca uma luta acirrada contra a dicção e o estilo lusitanizantes. Em segundo lugar, o romancista busca uma saída na ideia de liberdade linguística, portanto, na defesa contínua de uma linguagem popular, uma linguagem que tivesse como uma das marcas principais não apenas a dicção nacional, mas ainda uma estrutura gramatical condizente com o nosso falar. Nesse sentido, Lima Barreto parecia estar completamente de acordo com algumas tendências linguísticas de sua época, já que, desde o final do século XIX, assistia-se à abertura de um caminho próprio para a consolidação de uma gramática com características linguísticas brasileiras. Seus escritos, portanto, estão recheados de colocações sintático-morfológicas e de diálogos próprios de uma linguagem deliberadamente renovadora: invertendo e renovando um paradigma caro aos gramáticos mais conservadores e tradicionalistas (para quem a linguagem deve acompanhar rigidamente os preceitos normativos), Lima Barreto propõe, assim, não apenas o estabelecimento de uma norma que tenha como referência o uso, mas, mais do que isso, o uso popular.

 

Mário de Andrade

 

A luta de Lima Barreto contra os cânones linguísticos de sua época representa um primeiro passo rumo às conquistas modernistas no campo da linguagem, já que o romancista carioca inaugura não apenas um discurso de contestação dos preceitos linguísticos sustentados pela Academia, mas também ensaia uma prática literária que, incontestavelmente, iria abrir caminho para a longa marcha rebelde e iconoclasta dos primeiros modernistas. Não obstante essa propensão de Lima Barreto à destruição de mitos linguísticos, suas propostas nesse campo possuem um forte apelo nacionalista, fazendo com que ele seja, compulsoriamente, inserido na ampla discussão em torno do emprego da língua portuguesa no Brasil da época, uma discussão que envolveria nomes tão diferentes como João Ribeiro (A Língua Nacional), Mário de Andrade (Gramatiquinha) ou Xavier Marques (Cultura da Língua Nacional).

 

Nesse contexto, a figura de Lima Barreto se destaca exatamente por se tratar de um autor que, sem ser especialista no assunto, logrou antecipar — na prática e teoricamente — uma série de questões polêmicas que seriam, logo em seguida, aprofundadas e, não poucas vezes, levadas ao limite por outros autores que lhe seguiram os primeiros passos.

 

 

* Mauricio Silva possui doutorado e pós-doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo; é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação, na Universidade Nove de Julho (São Paulo).

Adaptado do texto “Quando a linguagem tem poder: Lima Barreto e a Língua Portuguesa”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 58