O lado poeta de J. R. R. Tolkien

Passado o frisson causado pelos filmes de Peter Jackson, os antigos e os novos entusiastas da obra de J.R.R.Tolkien (1892-1973) podem voltar toda a atenção aos livros, numa prova definitiva de que o legado literário do escritor britânico não foi sepultado com a hexalogia cinematográfica

Por Eduardo Boheme Kumamoto* | Foto retirada da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Passado o frisson causado pelos filmes de Peter Jackson, os antigos e os novos entusiastas da obra de J.R.R.Tolkien (1892-1973) podem voltar toda a atenção aos livros, numa prova definitiva de que o legado literário do escritor britânico não foi sepultado com a hexalogia cinematográfica.

 

Não é preciso embrenhar-se muito em O Senhor dos Anéis para notar os vários poemas que compõem a história, mas a presença intercalada deles com a prosa é vista por alguns como um espaço em branco que pode ser ignorado sem nenhum prejuízo para a leitura. Enganam-se. Pular os poemas é fechar os olhos para versos bem-feitos e para a própria habilidade de um autor que, quando da publicação do primeiro volume em 1954, já tinha atrás de si décadas de prática no ofício.

 

Em 1911 Tolkien teve sua primeira “aventura” poética publicada no periódico estudantil do colégio que frequentava, a King Edward’s School. Intitulado ‘The Battle of the Eastern Fields’, o poema descrevia uma simples partida de rugby, mas o contraste entre um tom elevado e um tema chão já denunciava o humor que Tolkien imprimiu em diversos trabalhos ao longo da vida.

 

J. R. R. Tolkien e a Primeira Guerra

 

Pouco mais de três anos depois estourava a Primeira Guerra Mundial, na qual Tolkien atuou em 1916 como oficial de sinalização. Mas a influência da Grande Guerra para que ele se tornasse um poeta sério é menos difundida. Para o estudioso John Garth, “o peso opressivo da guerra” talvez tenha sido uma razão para que Tolkien escolhesse a poesia como forma de expressar e ordenar suas ambições criativas, que antes se voltavam principalmente para o desenho e a invenção linguística.

 

Não se pode esquecer também que em dezembro de 1914 Tolkien se reuniu uma última vez com três velhos amigos do colégio, antes que a guerra interferisse a fundo em suas vidas: de fato, dois desses amigos morreram nela. Essa reunião permitiu-lhe encontrar “uma voz para todo tipo de coisa que estava encerrada” dentro dele. Estava aí o gérmen de sua evolução poética, que passou por um surto em 1915: nesse ano, Tolkien escreveu diversos poemas e os preparou para uma eventual publicação. Os especialistas Wayne Hammond e Christina Scull afirmam que a incerteza de sobrevivência num tempo de guerra inspirava certa urgência à atividade.

 

Mas se o ofício de poeta foi desperto pela guerra, a forma poética que veio em sua esteira não o cativou: “Da experimentação modernista que ganhou força nos anos do pós-guerra” Tolkien não participou, diz John Garth. Esse movimento que entre outras coisas trouxe a possibilidade de fugir aos padrões e escrever em verso livre foi rejeitado não só por Tolkien, mas também por C.S.Lewis e Owen Barfield, três personagens que posteriormente integrariam o grupo literário chamado ‘The Inklings’. Para Lewis, a obra de T.S.Eliot, um dos baluartes da poesia Moderna, era particularmente detestável.

 

Veja a análise do livro “O Hobbit”

 

Importante nesse aspecto é uma carta de 1969 à escritora Paula Coston, divulgada em agosto de 2014. Nela, Tolkien expõe sua visão sobre as limitações dos poetas: “Poesia é […] em muitos casos, como jogos […] a rede é só um empecilho; as linhas brancas são tolices sem sentido: servem apenas para que golpes magníficos sejam dados como “fora”. Mas e sem elas? Suponho que você possa mandar a bola onde quiser […] ou andar até sua adversária e nocauteá-la com a raquete […] Mas na verdade as jogadas mais bonitas, graciosas e determinadas vêm daqueles que aprenderam a obedecer às regras e ainda assim conseguem golpear a bola com força.” Fica clara a defesa de uma poesia significativa e, simultaneamente, metrificada, rimada e ritmada. “Não parece ser uma visão muito popular atualmente”, admite Tolkien em seguida. Indo na contramão do apelo Modernista, podia não ser popular, mas era uma visão partilhada por gente como Robert Frost, autor do inesquecível ‘The Road Not Taken’. Aliás, a frase de Tolkien é ela mesma uma paródia e aprovação sutil à famosíssima afirmação do próprio Frost de que “escrever em verso livre é como jogar tênis com a rede abaixada”.

 

 

O advento do verso livre pode ter feito muitos poetastros acharem que essa arte tornou-se um vale-tudo, mas não é bem assim. Escrever em verso livre, achar um ritmo próprio, não exime o autor da tarefa de dominar as formas fixas. Entre nós brasileiros, Mario Quintana brilhantemente advertiu, em seu Caderno H, que “o modernismo, ou melhor, o verso-librismo, libertou o verso, é verdade, mas não libertou o poeta” e, mais incisivamente, que “só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico”. Conselho de mestre e balde de água fria na cabeça de maus poetas.

 

De todo modo, Tolkien não se entregou à sedutora, ainda que irreal, emancipação anunciada pelo verso livre. Alguns o chamariam de passadista, mas a verdade é que a formação acadêmica e os gostos pessoais dele se afinavam mais com os moldes antigos, medievais. Daí sua predileção por uma poesia feita com a rede levantada e as linhas bem marcadas no chão. E vemos que ele conseguia golpear a bola com força, se observarmos a qualidade de seus versos. Analisando mais detidamente, percebe-se que o poeta Tolkien era em verdade três: o criador, o recriador e o transcriador.

 

A sua criação poética pode ser vista tanto nos temas originais que ele abordava quanto na invenção de metros e esquemas de rima e ritmo sofisticados, a exemplo do poema Errantry, de 1933, que posteriormente se tornou parte do livro As Aventuras de Tom Bombadil, e que também evoluiu para a longa canção sobre Eärendil de O Senhor dos Anéis.

 

Já a recriação poética se observa no profundo conhecimento e respeito de Tolkien pelas formas e temas medievais, incluindo os versos aliterantes que usou em seu inacabado A Queda de Artur e em A Lenda de Sigurd e Gudrún, essa escrita no metro também aliterante chamado ‘fornyrðislag’, próprio da poesia Eddaica islandesa.

 

O Tolkien transcriador (usando o nome que Haroldo de Campos propôs para o tradutor de poesia) mostra muito claramente sua competência na tradução de poemas medievais como Pearl e Sir Gawain and the Green Knight, verdadeiros desafios por conta da complexidade formal. Até mesmo a recém-publicada versão em prosa de Beowulf tem ares poéticos notáveis que verificam o controle linguístico que Tolkien tinha do inglês.

 

 

Levando-se tudo isso em conta, não há como defender a prática de ignorar os poemas de O Senhor dos Anéis, porque eles são o atestado do virtuosismo tolkieniano que amadureceu durante mais de quarenta anos. Ainda que o próprio professor tenha admitido, em Sobre Contos de Fadas, que pulava os poemas das histórias que lia quando era criança, isso não pode ser usado como desculpa para se esquivar das composições em sua obra mais conhecida: elas “são parte integral da narrativa […] e não uma ‘decoração’ separável”, lembra Tolkien.

 

Assim como os arcobotantes nas catedrais góticas sustentam o peso das paredes e permitem a colocação de vitrais majestosos que iluminam o ambiente, os poemas clareiam e aliviam a carga da prosa, e nos fazem descobrir mais sobre as raças e os personagens que habitam a Terra-média; às vezes são vislumbres das histórias que subjazem à narrativa e frequentemente nos comovem com sua beleza, a exemplo da triste canção do Ent e da Entesposa ou do reflexivo ‘Sentado ao pé do fogo’. As traduções para o português, a propósito, são pedras preciosas em si mesmas. Essas composições poéticas são um exemplo a ser seguido pelos aspirantes a bardo que ainda precisam se submeter aos saudáveis grilhões da forma.

 

Vivemos hoje tempos em que a novidade é prontamente acolhida e superestimada, e muitos “poetas”, confortáveis com a generosidade da poesia liberta, esquecem-se da vastíssima tradição que a precedeu. Mas a obra de Tolkien, ficção e não-ficção, prosa e poesia, confirma a cada dia, mutatis mutandis, a veracidade das palavras de Pierre de Blois, que sabiamente afirmou que “não se passa das trevas da ignorância para a luz da ciência a não ser que se releia com um amor sempre mais vivo as obras dos Antigos. Podem ladrar os cães, podem grunhir os porcos! Não diminuirei por isso minha admiração pelos Antigos. Deles serão sempre minhas preocupações e a aurora de cada dia vai me encontrar a estudá-los.”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60

Adaptado do texto “A poesia de J. R. R. Tolkien: Apreciar é melhor do que ignorar”

* Eduardo Boheme Kumamoto é graduado em Letras pela Universidade de São Paulo e frequentou a Tolkien Spring School na Universidade de Oxford em 2013.