O jornalismo investigativo de Caco Barcellos

Em Rota 66: a história da polícia que mata, Caco Barcellos exerce o seu ofício de repórter em grande estilo e torna-se um dos emblemas de um fenômeno que pode salvar a profundidade no jornalismo: os livros-reportagens

Por Tiago Eloy Zaidan* | Adaptação web Caroline Svitras


Entusiasta da polícia militar, especialmente de seu grupo de elite – a Rota –, o humilde comerciário e pai de família Daniel Bispo de Oliveira também é um assíduo ouvinte de programas policiais. O principal deles é apresentado por Afanázio Jazadji, típico noticiário em que a polícia e louvada sem contestações e a pena de morte é defendida aos berros. Talvez por isso, Bispo também seja a favor da pena capital.

 

Chega a ser irônico o fato de que sua esposa, a operária Elza Lúcia, seja informada do destino trágico de seu marido justamente pela voz do estridente radialista: “Rota mata o bandidão do Jaraguá… a cidade fica livre de mais um assaltante!… mais um que vai pro inferno!”

 

O infortúnio já estava preste a se desenrolar, quando Daniel retornou do culto de uma igreja evangélica em companhia da mãe. Pouco mais tarde, despediu-se do filho Wellington, 3, e da esposa, para ir comprar leite e cigarros. A vida de todos mudaria dali em diante. Naquela noite, escolhido a ermo, Bispo se tornaria uma das 45 vítimas do então cabo da Rota Roberto Lopes Martinez.

 

“Eles chegam no IML com olhos arregalados de medo e a cabeça toda furada de balas.” A frase é de Sidney M., colaborador das investigações jornalísticas que deram origem ao livro Rota 66: a história da polícia que mata, do jornalista gaúcho Caco Barcellos. Sidney refere-se às vítimas fatais da violência policial, como Daniel Bispo, de 21 anos.

 

Rota 66 relata essa e outras histórias ao mergulhar nos meandros das violentas operações do 1º Batalhão de Polícia de Choque, a partir do caso que ficou conhecido como Rota 66 – ocorrido em abril de 1975. Na ocasião, os mortos foram três jovens de classe média alta. Fato raro entre as vítimas da Rota e que causou comoção e repercussão.

 

IML e noticiário policial

O recorte da pesquisa que redundou no livro-reportagem começou em 9 de abril de 1970 – data de criação da Polícia Militar de São Paulo, fruto da fusão de outras entidades – e se estendeu até junho de 1992. Suas primeiras fontes de dados foram observações e entrevistas no pátio do necrotério e uma vasta coleção de edições do extinto jornal Notícias Populares. O NP, emblema da imprensa conhecida pela alcunha de “espreme que sai sangue”, pelo grande espaço concedido às manchetes policiais, foi de valia por fornecer pistas sobre as mortes em ações da Rota, ainda que, invariavelmente, sob o ponto de vista da própria polícia.

 

As narrativas oficiais, aliás, chegavam a ser maçantes, tamanha similaridade na sequência dos fatos que levaram a cada uma das centenas de mortes de civis: abordagem para averiguação, resistência do suspeito, com troca de tiros, suspeito alvejado e socorrido, falecido a caminho do hospital. Isso a despeito de boa parte dos “socorridos” chegarem aos postos de saúde já apresentando rigidez cadavérica. Da mesma forma, chamava a atenção o baixo número de suspeitos feridos nos tiroteios. A maioria era sempre atingida em cheio…

 

Caco cruza informações colhidas com dados dos arquivos da Justiça Civil e registros da Polícia Civil e chega a conclusões estarrecedoras. A maior parte das vítimas dos matadores da Polícia Militar de São Paulo era inocente. A maioria delas, sem qualquer registro criminal.

 

Preconceito e impunidade

Com base nos dados fornecidos pelo livro, é possível deduzir que o preconceito imperava na seleção das vítimas: a maioria era negra e parda, de baixa renda e migrantes nordestinos. Só os nascidos em Pernambuco somavam 213. Dentre os mortos pela Polícia Militar paulistana também constavam muitos menores de idade. O levantamento apresentado no livro Rota 66 traz 680 menores mortos, dos quais 148 com menos de 15 anos.

 

A falta de punição aos maus policiais contribuiu com a matança. A conivência do comando e a obtusidade da Justiça Militar adicionavam-se a apurações de Inquéritos Policiais tacanhos e tendenciosos. Mas, pior que a cumplicidade, era a recompensa. Muitos dos matadores foram agraciados com prêmios e títulos da corporação da qual faziam parte. Após ler Rota 66 não é difícil imaginar que quanto mais violento o PM, mais prestigiado era no batalhão da Rota. Criada em 15 de outubro de 1970, a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar – Rota – é remanescente direta de um enérgico agrupamento de “caça” a guerrilheiros urbanos – braços armados da militância política de oposição à ditadura. Já em 1969, policiais da Força Pública eram treinados pelo Exército para manejar metralhadoras. Curiosamente, ainda hoje, em seu site oficial, a Rota segue rotulando líderes guerrilheiros, como Carlos Lamarca e Carlos Marighella – ambos mortos em emboscadas policiais. “Sufocado o foco da guerrilha rural no Vale do Ribeira, (…), os remanescentes e seguidores, desde 1969, de ‘Lamarca’ e ‘Mariguela’ continuam a implantar o pânico, a intranquilidade e a insegurança na Capital e Grande São Paulo”.

 

 

Não à toa, segundo o levantamento do livro-reportagem, a primeira vítima fatal da PM após a sua criação foi o guerrilheiro paranaense José Idézio Brianezi, morto em seu apartamento na noite de 13 de abril de 1970. Este foi o primeiro de uma lista trágica e extensa de civis assassinados.

 

Com o extermínio dos redutos de resistência armada ao regime militar, o foco do “grupo de elite” da PM Paulista passou a ser outro. “Agora, o alvo das metralhadoras são geralmente jovens da periferia, muitas vezes desarmados”, faz saber o jornalista da Rede Globo, depois apresentador do programa Profissão Repórter.

 

O fim da ditadura, em 1985, não reduziu o ímpeto dos policiais da Rota. Na realidade, houve um incremento no efetivo a partir dos anos 1990. Com o aumento do número de policiais, cresceu o número de mortes. Em 1991, revela Barcellos, foram mais de mil suspeitos mortos. Nos primeiros cinco meses de 1992, a situação piorou. Foram quase quatro vítimas por dia.

 

Jornalismo em livro

Não foi a primeira vez que um jornalista brasileiro se propôs a realizar uma investigação profunda, resultando em trabalhos que vão além das páginas dos jornais e acabam publicados em livros. Já em 1902, o pioneiro Euclides da Cunha resgatou as vítimas sertanejas da guerra de Canudos da obscuridade. A saga que sitiou o sertão da Bahia no final do século XIX tornou-se famosa em todo o mundo após o clássico da literatura brasileira Os Sertões.

 

No jornalismo, reportagem trata-se, de modo geral, de um relato de acontecimento ou situação melhor elaborado, que vai além da notícia por propiciar uma ampliação da informação. Segundo faz saber o professor Francisco Torquato do Rego, em seu livro Jornalismo Empresarial: teoria e prática, “enquanto a notícia acontece (isto é, vem ao repórter); a reportagem terá que ser produzida, pesquisada”2.

 

Embora, em tese, toda reportagem pressuponha uma investigação, é o chamado jornalismo investigativo que preza o inquérito como o seu maior atributo. Fazer este tipo de jornalismo demanda tempo e, por que não, paixão. Rota 66 é fruto de uma pesquisa que abrange o intervalo temporal de 22 anos e custou sete anos de trabalho ao autor. Não por acaso, os resultados das apurações são extensos, o que pode inviabilizar as suas publicações nos veículos impressos convencionais. A solução é a publicação da reportagem em formato de livro, o que já chega a ser visto como uma “saída profissional”, para muitos repórteres.

 

Na mesma esteira, merece ser mencionado o fenômeno do jornalismo literário, que, em comum com o jornalismo investigativo, tem a profundidade como uma de suas marcas basilares.

 

Em qualquer dos casos, ao retratar personagens da vida real os quais, de outra forma, não seriam ouvidos, sejam eles camponeses pobres do sertão nordestino – como no caso de Os Sertões, de Euclides da Cunha – ou operários do subúrbio de São Paulo, como ocorre na obra de Caco Barcellos, o jornalismo em profundidade corre o risco de cumprir uma missão que vai além de simplesmente informar. Pode nos alertar e nos tirar da passividade. Fazer-nos enxergar o mundo de outra forma, justamente como potencialmente o faz a literatura.

 

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Fotos: Conhecimento Prático – Literatura Ed. 56

*Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco e professor do curso de Comunicação Social na Escola Superior de Marketing (ESM – FAMA / Recife, PE).

Adaptado do texto “Jornalismo em defesa das vítimas e da profundidade”