O império dos padrões

Os padrões de beleza já eram expressos na idealização das “Moreninhas” e “Viuvinhas” da literatura romântica, no século XIX

Por Larissa Martins Pedro* | Fotos: Shutterstock/Reprodução Internet | Adaptação web Caroline Svitras

 

Às vezes, arrancar uma etiqueta daquela roupa cara é mais difícil que parece. O preço falaria por si só: a pessoa que a veste é fina, rica, com bom gosto e, de praxe, é um bom partido. Possivelmente, andar sem maquiagem pelas ruas poupa um bocado de tempo, e usar um moletom surrado seria imensamente mais confortável que os trajes socialmente aceitos e quase que necessários da moda atual. Ostentar os fios brancos da velhice poderia ser mais belo que abusar das tinturas de cabelo. Todos esses detalhes absurdamente planejados estão descritos em uma etiqueta. Esses rótulos, que estampam as faces de milhares de pessoas, são como seus resumos malfeitos e incompletos. Magro, loiro, alto, roupas de marca. Gordo, baixo, roupas de segunda mão. Estiloso, esquisitão. Diferentão, normal. Em qual padrão você se encaixa?

 

Coquete é uma palavra que tem origem no francês, coquette, é geralmente empregada como adjetivo às figuras femininas, para dizer de um comportamento distinto, por meio de atitudes como olhares e sorrisos sutis, gestos graciosos, faceiros e elegantes. O termo está em desuso, e normalmente é visto como um sinônimo de “inocência sedutora”, mas pode ser compreendido como alguém de comportamento volúvel e inconstante.

A ditadura da beleza, um mal que paira entre nós e que ameaça as autoestimas de crianças, jovens e adultos que não se encaixam, é sutilmente cruel. Ela acaba por entrar na vida das pessoas antes mesmo que elas percebam, destruindo planos e construindo conceitos ilusórios que talvez, e muito provavelmente, jamais serão alcançados. Dita os padrões de tudo aquilo que é bonito e aceitável, ao mesmo tempo em que condena o que não é. Todavia, esses ideais de beleza não são tão recentes assim. Esses moços agressivos, que agora estão com a corda toda, já marcaram presença em diversas fases da história da humanidade, inclusive no período romântico da literatura no século XIX.

 

Nesse período, quando a figura feminina era idealizada e marcada por sua delicadeza arrebatadora, os famigerados padrões de beleza eram explícitos, muito embora diferentes dos modelos vigentes atualmente. Mulheres com pele de pêssego, perfume de sândalo e madeixas que emolduravam rostos angelicais conquistavam corações. Ora Joanas pálidas de cabelos negros, ora Joaquinas de olhos azuis e seio de alabastro enterneciam jovens Augustos. As Carolinas, meninas feias e malcriadas… Essas não mereciam atenção. Tais rótulos, utilizados para referirem-se às figuras concebidas por Joaquim Manuel de Macedo, logo vão para o fundo da gaveta. É que essas etiquetas nunca são a representação fiel de alguém e, tão cedo, a Moreninha (a menos bonita delas, a mais despadronizada) passa a ser a mais valorizada.

 

Em contraposição à Carolina de Macedo, temos a Carolina de José de Alencar: uma viuvinha que estava, desde o princípio, de acordo com os ideais de beleza da época. Tal moça, de olhos negros e brilhantes e lábios mimosos que exprimiam um sorriso divino e fascinador, tornou-se “a mais coquete dos salões”, uma mulher que gostava de ser admirada e, de fato, o era. Ela consistia, por si só, em um padrão do mais alto nível. O que é mais intrigante nesses estereótipos, sejam eles da literatura do século XIX ou da realidade do século XXI, acima de tudo, é a facilidade com a qual são criados e a aceitação que geram. De onde eles vêm? Por que a maioria das pessoas os aceita? Quem os cria? Será que existe alguma autoridade suprema que consegue, com a maior maestria, ditar o que é ou não é bonito/aceitável/desejável?

 

critor e teatrólogo, Macedo é autor de A Moreninha, romance considerado o primeiro verdadeiramente representativo da literatura brasileira.

A moda, as revistas, a televisão e as celebridades, importantes meios de manipulação, certamente o fazem.

 

Entretanto, a verdade nua e crua disso tudo, que explica nossa avidez por padrões sistematizados e concretos, é que os ditos manuais para a beleza quimérica estão prontos e são os meios relativamente mais fáceis (ainda que segui-los à risca seja praticamente impossível) de fazer com que os indivíduos sejam aceitos na sociedade. Remover as coisas das suas caixinhas e misturar à volonté tira as pessoas de suas zonas de conforto, e são tarefas complexas demais para mentes matemáticas ao extremo. Contudo, o outro lado da moeda (ou da etiqueta) contém o real preço desse jogo perigoso: num mundo repleto de pessoas que tentam o tempo todo se sobressaírem, os padrões são o tiro que saiu pela culatra. Eles fazem com que essas mesmas pessoas, as que se empenham para fugir da mediocridade, sejam um exército de cópias baratas de um ideal enganoso e manipulador.

 

 

 

*Larissa Martins Pedro é estudante de Letras – Habilitação em Língua Portuguesa na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC).

Adaptado do texto “O império dos padrões: O que consta na sua etiqueta?”

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