O impacto da poesia na mente

A linguagem poética e a psicanalítica podem ser instrumentos para o jovem construir-se como autor de sua própria vida

Por Myriam Chinalli* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O que poesia e inconsciente têm em comum? A linguagem poética se estrutura da mesma forma que a linguagem do inconsciente? É possível encararmos a psicanálise e a poesia como modos específicos de pensar, que se distinguem de um modo “usual” de articulação de palavras?

 

A ideia de que a linguagem poética se distingue da linguagem usual, graças ao caráter inusitado de seus vocábulos, adquiriu relevância fundamental já em Aristóteles. Segundo ele, o processo de estranhamento era inerente ao discurso poético. Em a Arte Poética, Aristóteles recomenda que o que está sendo dito, sem deixar de ser claro, não deve ser “rasteiro”, devendo antes ser “nobre” e afastado do tempo vulgar. Ele ressalta, entretanto, que esse desvio do vulgar não deve chegar ao extremo do “enigma” e do “barbarismo” – o “nobre”, segundo o filósofo, é conseguido pelo uso de palavras raras, de metáforas e de tudo que se afasta do usual.

 

Freud também escreveu sobre esse “estranho”, mostrando uma oposição semântica, em alemão, entre o “estranho” (unheimlich) e o “familiar” (heimlich). Entretanto, no decorrer do artigo em que desenvolve esse conceito, (Obras completas, O estranho, 1919), percebe-se a ambivalência entre essas palavras, o que prova certas indistinções entre os termos.

 

Dessa forma, o que nos causa estranheza é o que se encontra recalcado em nós, como uma vivência antiga, e, portanto, nos soa familiar. Certos aspectos de estranheza de determinadas obras artísticas, especialmente literárias, e de alguns eventos seriam, paradoxalmente, familiares e conhecidos, pois nos remeteriam a experiências primitivas, infantis.

 

Vivências coletivas
Sigmund Freud

O contato com o “estranho” da poesia e da psicanálise pode provocar efeitos assustadores, mas os sujeitos que se abrem a esses discursos podem ter acesso a conteúdos importantes de sua própria história e também das vivências coletivas.

 

Nos primórdios da psicanálise, Freud privilegiou o registro da imaginação e das fantasias das pacientes histéricas, sem dar grande importância aos acontecimentos vividos. As fantasias, consideradas do ponto de vista da sua formação e de seu papel na vida psíquica, se aproximavam muito do que Freud postulava a respeito dos sonhos. Desde A Interpretação dos Sonhos (1900), Freud fez distinção entre a realidade material, realidade externa nunca atingível como tal – realidade dos “pensamentos de transição e de ligação” –, e a realidade psíquica propriamente dita, núcleo irredutível do psiquismo, registro dos desejos inconscientes dos quais a fantasia é a expressão máxima e verdadeira. Freud estabeleceu uma distinção entre: fantasias conscientes (acessíveis ao ego), devaneios (inacessíveis ao ego) e ficções que o sujeito conta a si mesmo (semiacessíveis à consciência).

 

Na fantasia, a atividade psíquica se mantém independente do princípio de realidade – o que, de certa forma, explicaria a necessidade humana de contato com a linguagem poética. Assim como a poesia não tem compromisso direto com a realidade material, também a psicanálise trabalha com essa espécie de “ficção” que o sujeito constrói a respeito de si mesmo.

 

Produções artísticas

Com Freud, inicia-se uma linha de investigação que, passando por Melanie Klein, Ernst Kris, Jacques Lacan e diversas gerações de psicanalistas, analisa as relações de produção artística, em geral, e da produção literária, em particular, com o domínio do inconsciente. Os mecanismos e as regras de funcionamento do inconsciente freudiano são pensados em seus aspectos transindividuais, mas operantes sobre dados psíquicos individuais e particularizados que constituem a história da vida de um sujeito e sobretudo a história de sua infância.

 

O que é um autor?
Michel Foucault desenvolveu seu trabalho com base na arqueologia do saber filosófico, na experiência literária e na análise do discurso.

Essa concepção será fundamental na filosofia estruturalista. Na obra O que é um autor?, Foucault aborda a função do autor em uma cadeia de significantes, como marca de singularidade de um modo de discurso. Diferentemente de quaisquer nomes próprios, o nome do autor caracteriza um modo de discurso, estabelece relações estreitas entre determinados textos. Assim, falar em Goethe, por exemplo, não nos remete à pessoa, mas a um conjunto de textos de características singulares.

 

O autor não é apenas o escritor real da obra artística, tampouco o possível locutor fictício. Segundo Foucault, os discursos providos da função-autor comportam uma pluralidade de “eus”. Nesse caso, não existirá especificamente “o autor”, pensado como pessoa real, mas uma espécie de “estilo” ou de instituição jurídica – o que também pode ser pensado em relação ao poeta, ao psicanalista e ao analisante, cuja realidade se capta na linguagem, sempre marcada pelo inconsciente.

 

Quando abandonou a hipnose, Freud passou a convidar o analisante a dizer tudo o que lhe viesse à cabeça, principalmente aquilo que se sentia tentado a omitir, por ser doloroso e/ou humilhante demais.

 

O método da livre associação – que liberava os afetos – permitia, segundo Freud, atingir com mais facilidade as lembranças e as representações que causavam dor psíquica. Era preciso convidar os analisantes a se “deixarem levar” e exigir que não omitissem um só pensamento ou ideia a pretexto de o acharem vergonhoso ou doloroso.

 

Regra fundamental

Em setembro de 1894, Freud começou timidamente a recorrer a esse método e escutou os sonhos, as fantasias, os atos falhos, as falas aparentemente sem valor que os analisantes passaram a lhe contar. Durante toda a vida, Freud insistiu na necessidade do respeito à “regra fundamental da psicanálise” para se chegar à associação livre, único meio de fazer surgirem as resistências e de permitir a consideração delas como material a ser interpretado. Em 1985, Lacan destacou que a regra fundamental leva o analisante a se confrontar com uma fala livre, que não controla; uma fala “plena”, dolorosa, porque suscetível de ser verdadeira.

 

Também, no estudo da teoria e da história da poesia, vemos que o poeta-autor se libertou, ao longo dos séculos, sobretudo depois do Romantismo, de fórmulas rígidas de produção em favor da busca de uma singularidade da obra.

 

O fator Clarice

Água viva, de Clarice Lispector, publicada em 1973, reflete bem esse estilo mais livre de criar: o texto, com função poética predominante, mais parece uma série de anotações. O próprio conceito de “gênero literário” foi perdendo seus contornos.

“Será que passei sem sentir para o outro lado?”
“Mas ninguém pode me dar a mão para eu sair… e no pesadelo em arranco súbito caio enfim de bruços no lado de cá.”
“(sinto) o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar.”

Em Água Viva, Clarice Lispector.

 

Não existe enredo em Água viva, prevalecendo a repetição dos mesmos temas e o desfile de imagens multifacetadas. A circularidade está presente desde a primeira até a última frase do livro: não há começo, meio ou fim. Trata-se de um texto para ser muito mais vivido do que lido, no qual a sensibilidade aflora constantemente, em um fluir de experiências narradas de forma intensa.

 

Clarice rompe com o sistema discursivo, virando-o pelo avesso, esbarrando no indizível. Ela promove a desautomatização da linguagem ao decompor e desmontar o próprio sistema de escrita, as construções inovadoras, a busca pelo sentido objetivo e por um equilíbrio entre forma e conteúdo, promovendo a exaltação do interior do sujeito superfragmentado e da passagem da crise psicológica à angústia existencialista.

 

Confira a análise do conto “O ovo e a galinha”

 

Freud observou que a arte não poupa muitas vezes os espectadores de experiências horrorosas que, na verdade, são percebidas como fonte de prazer. “Isso constituiu prova convincente de que, mesmo sob a dominância do princípio do prazer, há maneiras e meios suficientes para tornar o que em si mesmo é desagradável num tema a ser rememorado e elaborado na mente.” Entretanto, a expressão, seja pela via da palavra poética, seja pela regra fundamental da psicanálise, leva-nos à questão da incompletude do signo da difícil e completa interpretação da linguagem.

 

Arte e sonho

A filósofa francesa Sarah Kofman (1934-1994) observa que a obra de arte, assim como os sonhos ou os sintomas, constitui-se em enigma a ser decifrado. A interpretação dos sonhos, do ponto de vista psicanalítico, buscaria o primitivo sob a forma do novo, pois os temas de toda a criação são tirados de uma memória coletiva ou individual. Em outros termos, elementos primitivos, constitutivos do sujeito, aparecem na obra artística disfarçados e irreconhecíveis por uma série de construções formais posteriores. Interpretar uma obra significa decifrar a forma e o conteúdo dessas construções, buscando-se esse elemento original e primitivo.

 

Assim, a interpretação de uma obra de arte, em uma perspectiva psicanalítica, toma emprestado o mesmo método de interpretação dos sonhos. Não há necessidade de se remeter às intenções explícitas do autor para se decifrar o discurso artístico. O texto, por si, sempre fala mais. Todo texto é um enigma que deixa para ser adivinhada, enquanto a representa e a constitui, a identidade de seu autor. O texto remete ao texto da vida, isto é, à vida como um texto, como cadeia de substitutos originários. É preciso que a vida psíquica seja ela própria um texto para que se possa constituir no texto da obra. O texto da arte é o próprio texto da vida e é por isso que não há necessidade de se recorrer às “intenções declaradas” dos autores para decifrar o enigma e para compreender o que eles quiseram dizer.

 

Desse ponto de vista, podemos dizer que há uma troca complementar entre a poesia e a psicanálise, na qual textos poéticos e a teoria da poesia podem iluminar os fatos do real e a complexidade do pensamento psicanalítico, baseados nos paradigmas do sonho: fragmentação, deslocamento, identificação, condensação. Como contraponto, o poema A pragmática vida de Malaquias nos fala de outra necessidade intrínseca da poesia e da psicanálise: a transgressão, o rompimento de limites. Quando se trata da elaboração psíquica, não é possível apenas “trabalhar por necessidade”, não é possível ao sujeito deixar de sonhar.

 

A Pragmática vida de Malaquias

“Malaquias foi um homem
absolutamente normal:
trabalhava por necessidade
batia na mulher
surrava os filhos
bebia umas e outras
e com outras despendia
o dinheiro que fazia falta em casa.

Foi normal até na morte:
a viúva e os filhos
prantearam o finado até à exaustão
e o padre o chamou,
no sétimo dia,
de pai e marido exemplar.

Malaquias foi um homem tão normal
que, a bem da verdade,
não sei por que fui falar dele agora.”

Em Cama de Campanha, do psicanalista e poeta Flávio Carvalho Ferraz.

 

Retomando Aristóteles e Freud, não há poesia ou psicanálise sem trabalho com a linguagem. A função poética, que não pertence apenas aos poemas, mas está presente em muitas manifestações da vida, precisa ser identificada e decifrada. Sobretudo os jovens, nas salas de aula e consultórios, precisam simplesmente falar – ou escrever – aquilo que lhes vier à cabeça e ter a oportunidade de realizar a elaboração dessas expressões tão necessárias para o desenvolvimento psíquico.

 

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*Myriam Chinalli, escritora e psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo (SP), participou do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância (FFLCH-USP). É consultora de ONGs ligadas à defesa dos direitos humanos e autora de livros infantis e juvenis voltados para a formação da cidadania.

Adaptado do texto “Os sinais da poesia na mente”