O Eu Lírico

“Lutar com palavras É a luta mais vã.” - Carlos Drummond de Andrade

Por Cláudia S. Coelho | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Concordo com Drummond em gênero, número e grau.

Sim, as palavras, assim como as ideias, vêm, vão, e nada nem ninguém consegue detê-las. Elas assumem corpo, identidade e chegam a se apropriar de quem as usa – em especial, escritores, escritores, compositores…, todos que fazem dela sua matéria-prima.

É preciso, no entanto, discernir o criador da criatura; o autor da obra.

Exatamente por isso decidi escrever esta nota de esclarecimento sobre o Eu Lírico.

Meses atrás postei o poema Cosmopo-vita – ou Diálogo com o Vazio [cuja versão reduzida segue abaixo], o qual deu margem a tamanha controvérsia, a ponto de ter recebido uma enxurrada de e-mails de alguns conhecidos com o telefone de contato de seus psiquiatras. A polêmica chegou a tal ponto que me vi obrigada a escrever esta “Nota de Esclarecimento”:

— Não! Não estou deprimida! Introspectiva, talvez. Quiçá meu Eu Lírico!

A confusão entre narrador e autor, em especial em textos poéticos, é tamanha que por eu usar, por vezes, português castiço em meus textos, alguns de meus leitores acreditam que eu seja da “terrinha”, uma autêntica portuguesa.

O início desse poema nasceu há muito tempo e foi resgatado durante minha mudança – mudança de casa, mudança de vida, mudança… Ele estava em um caderninho de anotações junto a meus guardados e, por obra do mero acaso, aberto nas páginas abaixo. O texto, a princípio, tinha como foco uma bailarina, mas ao lê-lo, em outro momento de vida, optei por usá-lo como exercício, criando um Eu Lírico que se valesse de palavras que rimassem, fizessem sentido, gerassem tensão e se transformassem em imagens. Simples assim.

O que leva à pergunta:

– Mas afinal o que é o Eu Lírico? Tão descerrado; tão pouco compreendido.

Primeiramente, um pouco de história.

O termo “lírico” tem origem no latim, lyrìcus,a,um, de lyra,ae ou lira – instrumento musical. Na Antiguidade referia-se a uma composição poética para ser cantada com acompanhamento da lira e, por extensão de sentido, passou a definir uma obra em verso feita para canto ou própria para ser musicada. Com a chegada do século XV, a palavra poética passou a ser declamada e afastou-se do som lírico, mas o termo continuou a ser ligado à produção literária, em especial à poética.

Voltando ao Eu Lírico – também chamado de eu Poético – este é o “eu” que fala no texto e não expressa, necessariamente, os sentimentos do autor, mas, sim, os do Eu Poético. Ele é a “voz” que fala no poema ou texto em prosa e expressa ideias, emoções, pensamentos, vivências…, que podem coincidir ou não com as do escritor. A validade estética de um texto independe de ele representar ou não a verdade do autor. O autor é, portanto, livre para usar sua criatividade para ser quem ou o quê queira representar e para transformar a realidade da forma que lhe aprouver.

Sábias são as palavras do crítico Yves Stalloni, quanto à concepção do Eu Lírico:

[…] O lirismo é a emanação de um eu – que o romantismo gostava de confundir com a pessoa do poeta, mas que pode se apagar por detrás de uma de suas personagens.

STALLONI, Yves. Os gêneros literários. Rio de Janeiro: Difel, 2001, p.151

Portanto, o Eu Lírico que escolhi fala por mim, mas não representa quem Sou, como estou e reitero:

No entanto, cabe aqui uma ressalva, dificilmente alguém conseguirá escrever, falar, se expressar com propriedade sobre tristeza, amor, decepção sem nunca ter experienciado tais sentimentos, muito embora não seja preciso ter sido violentado para escrever a respeito da dor do estupro – o primordial é sentir empatia pelas pessoas que o foram, conseguir sentir na alma sua comoção, pesar, para não se tornar mero narrador de um discurso vazio – pois, como afirmou Fernando Pessoa – o poeta multifacetado, cujos heterônimos podem ser considerados diferentes Eu Líricos -, em seu poema “Autopsicografia”:

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Para conseguir se expressar com veracidade a maior parte dos escritores, atores, bailarinos, artistas enfim, usam um recurso chamado “resgate”.

Usando como exemplo mais uma vez o estupro, o artista “mergulha” na personagem e “resgata” em sua memória afetiva momentos em que tenha sido violado em seus princípios e transpõe a intensidade dessa dor para seu Eu Lírico ou Poético.

Infelizmente, por desconhecimento, alguns não discriminam o ator da personagem; o autor do texto; o poeta do sofrimento. O que seria de Anthony Hopkins se ele tivesse em si Hannibal Lecter, o psicopata brilhantemente interpretado no filme “O Silêncio dos Inocentes”? Um ser sem qualquer traço de consciência. De Carlos Drummond de Andrade se fosse a própria encarnação de José, o foco de um de seus poemas? Um homem perdido; sem eira nem beira?

Dizem que a vida imita a arte – que a arte imita a vida. Tanto faz, uma não vive sem a outra, uma não invalida a outra.

Artistas, de modo geral, são pessoas intensas que observam o mundo sob uma ótica distinta, taxados, por vezes, de modo pejorativo, como excêntricos.

Sua visão de mundo não condiz com a da sociedade do espetáculo, do hiperprazer, do hipermomento, do hipernada, do hipertudo – tão fugaz, tão efêmera – e esta às vezes, incomoda, toca a ferida, cutuca a casa de marimbondos dormente em nosso interior.

Vivemos na sociedade do “Vamos em frente que atrás vem gente!”, do “Cada um por si, Deus por todos”, da “Ausência e da Aparência” (ou da felicidade sem lembranças) – na Era do Vazio.

Não digo com isso que devamos nos deixar levar pela depressão, pelo negativismo, mas, sim, ter uma visão crítica de nosso momento. Caso contrário, os filhos, dos filhos, de nossos filhos, continuarão a viver um jogo de gato e rato, um jogo de aparências no qual — parafraseando José Saramago: “Viverão em uma espécie de Luna Park”, na “Caverna de Platão”, vislumbrando, quando muito, parcas imagens da realidade, presos pelos grilhões do imediatismo, da ostentação, da tirania do cotidiano, da ilusão hedonista.

 

– Não! Não estou deprimida. Só desejo manter-me lúcida perante à sociedade do espetáculo.

Atenta e afastada do hiperuniverso que nos abarca e faz sofrer.

Quero, como já disse, ser íntegra comigo mesma. Minuto após minuto, dia após dia, sempre.

E nada mais apropriado do que uma citação de Fernando Pessoa para mostrar que o vazio não é uma invenção do homem contemporâneo:

“Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar seus amigos, ou quando menos, seus companheiros de espírito?”.

Por fim, proponho a seguinte reflexão: Não seria a versão hipercontemporânea do Eu Lírico o “Eu Digital” – um perfil elaborado, colocado nas redes sociais, nos sites de relacionamentos… espaços onde temos liberdade para criar uma “persona ideal” – ser quem queremos, como queremos, quando queremos – em consonância com o que imaginamos se esperam de nós –  e “vender” essa imagem sem nos expormos, sem nos revelarmos, sem correr o risco de que alguém bata à nossa porta e vislumbre nosso verdadeiro Eu?

PS: Acabei de receber uma mensagem vinda de um hospital bibliotecário, encaminhada pelo Eu Lírico – meu conhecido de longa data. Agonizante, ele afirma temer ser substituído em todas instâncias pelo “Eu Digital” e estar prestes a editar sua Nota de Falecimento.

Tomada, portanto, por sua dor decidi criar a campanha: “Salve o Eu Lírico”, da qual para participar basta escrever, pensar, criar.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 52