O eu-leitor

O sujeito no romance de Bernhard Schlink O Leitor

Por Maria Dorothea Barone Franco* | Ilustração: Criativo Mercado Editorial | Adaptação web Caroline Svitras

Nasce o sujeito, o eu-leitor

A narrativa é fonte inesgotável da simbolização das experiências humanas. Mocinhos e bandidos são sujeitos de uma realidade ficcional própria, única e autorizam-se como tais na voz do leitor. A Alemanha do século XX e suas especificidades histórico-sociais são os motes ideais para a criação de um romance; uma entre muitas realidades ficcionais. Um subúrbio de Berlim pós-Segunda Guerra Mundial foi o cenário de comunicação de um jovem leitor, Michael Berg, e sua amada Hanna Schmitz. Ousado, Berg lia com performance ímpar Ulisses, Emilia Galotti e outros clássicos para Hanna nos intervalos dos seus compromissos escolares. São narrativas alcoviteiras, cuja leitura aproximou Berg e Schmitz: paixão juvenil. O rapaz, com 15 anos, e a jovem senhora, com 30, aproximadamente, são as personagens protagonistas do romance O Leitor escrito por Bernhard Schlink. O texto de Schlink deu uma perspectiva ficcional para a posição social daquele que lê (e de quem não lê) no ambiente hostil, segregado e condenatório do nazismo.

 

As narrativas lidas por Michael são intensas, ao mesmo tempo caladas, ausentes de palavras do eu singular, mas repletas do falar coletivo. Ambas as personagens quase não conversam entre si. Unem-se na voz do menino, que precede o encontro de amor com o contar histórias. São fatos, feitos e lendas de povos imaginários ou não. São seres literários e fantásticos que conversam com o casal. Hanna recusa-se a ler; um mistério cerca-a e a seu contato direto com os livros, mediado pela voz do menino Michael. Uma relação amorosa construída na leitura: o casal vive nas ações de cada personagem e seu leitor também.

 

Tríade relacional

Um eu-leitor nasce nessa tríade relacional: Michael, Hanna e a leitura. As muitas perspectivas de realidades sociais do romance possibilitam as escolhas morais das personagens. Schlink traz para o ambiente ficcional uma travessia de fatos históricos. O regime militar do Terceiro Reich é alicerçado na poeira imagética da linguagem do autor e na simbolização dos aspectos culturais de uma época e de um povo na leitura das ações de suas protagonistas: Michel Berg e Hanna Schmitz. São personagens do texto ficcional que se permitem sujeitos no ato da leitura.

 

A guerra lida, a guerra vivida

Um apocalíptico fim para a Alemanha do século XX: o entusiasta e desnorteado militar Adolf Hitler liderava a maior campanha de segregação já vista na Europa. Ciganos, negros, homossexuais e judeus, em especial estes, eram condenados a uma política de exclusão e privação dos seus direitos básicos, necessários para a subsistência como cidadãos da pátria: moradia, alimentação, educação, lazer, liberdade das expressões oral e escrita e outros. Uma das representações mais pitorescas, para não dizer mais alarmantes, sobre o regime ditatorial nazista foi a queimada de livros, cujos conteúdos e temas questionassem qualquer argumento fixado por Hitler e seus seguidores, realizada em 1933 pela Associação Nacional-Socialista dos Estudantes Alemães, segundo Martin Kitchen em História da Alemanha moderna de 1800 aos dias de hoje. O retorno da Inquisição ceifava histórias e, por conseguinte, vidas. As páginas da literatura eram oprimidas. Seus leitores, calados e exilados no curto espaço de humanidade dos campos de concentração. Questionam-se, no momento que segue, o conceito humano e suas características intrínsecas. Seria o homem bom e a sociedade sua profana corrompedora? Veracidade plena na constatação de Jean-Jacques Rousseau em Do Contrato Social. O homem, em seu estado de natureza, busca o essencial para suprir suas necessidades de subsistência. Não há cobiça ou procura do lucro avantajado. O homem, na natureza, vive e deixa o outro viver. A sociedade nazista alemã ensurdece para a literatura de Rousseau e grita pela soberania de uma raça pura, inalcançável, mas capaz de ser onipotente, onisciente e onipresente no ponto de vista de um ditador.

 

Hitler ordenou o fogo para a reflexão. Reconheceu nas letras um caminho perigoso para a subversão do seu regime ditatorial. As primeiras investidas opressoras do chefe de estado foram proibições de idas a cinemas, teatros e outros eventos culturais; posteriormente, a não liberdade de imprensa e o afastamento de todo cidadão não alemão de cargos públicos, populares e da mídia difusora. Os textos escritos de cunho ativista contra o regime já totalitário ascendente foram julgados e condenados como “bruxas nas fogueiras”.

 

Foi no ano de 1934 que o levante de maior rigor para a proteção aos ideais nazistas se configurou em força armada: Schutzstaffel – Tropa de Proteção (antes, Stabswache: funcionários da guarda). A SS, como era popularmente conhecida, tinha como objetivo maior fazer a vigia diária dos prisioneiros judeus nos campos de concentração espalhados pelos domínios da ação alemã nazista. A Tropa de Proteção seguia a política de tolerância zero a qualquer reação ou não reação do povo prisioneiro de alma, mente e corpo. As violências corporal e verbal não cessavam nos campos. A mão de obra judia escrava servia para a ostentação mercantil do país em regime ditatorial, mas os indivíduos que compunham a massa trabalhadora não eram autorizados como sujeitos alemães.

 

O processo de Hanna

O romance O Leitor traz para a ficção a ação da Tropa de Proteção no governo nazista. A personagem Hanna Schmitz foi julgada por sua atuação como guarda na SS entre os anos de 1943 e 1945, exatamente oito anos antes de enamorar-se pelo jovem Michael Berg na cidade de Berlim. O leitor, que tem acesso ao processo de Hanna no contato com a narrativa literária, imerge nessa atmosfera imaginário-realística de amortecimento ante os atrozes crimes dos filhos do nazismo. Michael acompanha o júri de Hanna e sua interpretação dos fatos define da forma mais sucinta e completa possível os sujeitos componentes da sala oficial: entorpecidos. Acusada, promotores, advogados compartilham do entorpecimento para os fatos transcorridos.

 

O leitor de O Leitor se vê em um estar ausente. É um viver após a morte. O entorpecimento descaracteriza o sujeito em toda sua atuação. O cidadão tem subvida, e não uma vida plena, propriamente, em dado contexto social. Um maior legado da opressão nazista, talvez: a subvida. Michael vê e observa cada mínimo gesto de Hanna: os ombros arqueados, um olhar ligeiro para o público, a sobreposição das mãos sobre os joelhos rígidos, a defesa convicta, o silêncio consentido e condenatório. Uma nova Hanna Schmitz nasce para Berg em suaves e pausadas reações. A ré senhora Schmitz ocupa a posição da jovem Hanna, que Michael recorda em um vestido azul, percorrendo o interior da Alemanha em uma bicicleta no feriado de Páscoa. A singeleza do voo das barras do tecido dá lugar ao dedo inquisitório funcional, indicando as prisioneiras que deveriam ser levadas para a morte “não voluntária”. Hanna assume, individualmente, o enunciado da ordem dada e assinada nos campos de concentração. Confirma ser sua letra a de outro (ou outra). Condena-se pela ordem de execução de mais de 50 mulheres judias, queimadas no incêndio de uma igreja nos arredores de Cracóvia. A culpa acordada por Hanna Schmitz confessa segredos desconhecidos para aqueles que a condenaram a priori.

 

A transgressão da personagem assume uma penitência pessoal. Hanna crê ser menos vexatório ser assassina do que analfabeta. Existe um cenário ficcional de uso da linguagem, cenário escrito do romance, no qual personagens imaginárias anunciam as dores da repressão e da tortura, psicológicas e físicas, presentes nos hediondos procedimentos praticados pelos militares nazistas e, não buscando qualquer comparação ou justificativa, também o padecimento pelo aprisionamento do analfabetismo e a porvindoura condenação a não ser sujeito de uma pátria. O autor Herbert H. Clark, em seu artigo O uso da linguagem, determina cenários de uso da linguagem. O leitor é bem mais que um emissor das palavras de outros. O ato da leitura concede-lhe o direito de interagir com a cena, seus participantes e os apontamentos nela existentes. A estrutura de uma obra literária apresenta cenas comunicacionais binárias: a do leitor, que faz a leitura, e as múltiplas interpelações e interações comunicacionais das personagens da trama. Há vários sujeitos: o que lê e os lidos. As características físicas e anímicas de cada personagem são construídas no ato da leitura. A palavra lida, no silêncio do olhar ou na fala aberta, capta, generaliza, conceitua e adjetiva protagonistas e antagonistas: sujeitos da narrativa. As características físicas e anímicas de cada personagem são construídas no ato da leitura. A palavra lida, no silêncio do olhar ou na fala aberta, capta, generaliza, conceitua e adjetiva protagonistas e antagonistas: sujeitos da narrativa.

 

Como criar um texto literário digno de inscrever-se nos quadros do gênero lírico

 

A capacidade de ler e as variáveis resultantes do poder sobre o código escrito são assuntos abordados por Bernhard Schlink em uma Alemanha sofrida pelas marcas da guerra. Duas pessoas, Hanna e Michael, encontram-se em uma relação amorosa, cujo leito é ornamentado pela leitura das obras clássicas. Um momento inicial da narrativa demonstra o quanto é insignificante para Hanna identificar Michael por um nome próprio. O meu menino é seu pseudônimo e ingresso para cúmplice da mulher que ama. Existe um estranhamento na atmosfera temporal da trama, uma indagação inquieta do protagonista pela displicência ou total falta de interesse da personagem feminina ao reconhecer nos cadernos escolares do rapaz o nome Michael. Um relutar que acoberta motivos outros.

 

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed.

Adaptado do texto “O eu-leitor”

*Maria Dorothea Barone Franco é Doutoranda em Letras pelo Centro Universitário Ritter dos Reis – uniritter. e-mail: dorotheafranco@hotmail.com