O espírito de Procusto entre nós

Por Claudia S. Coelho* | Foto retirada da revista | Adaptação web Caroline Svitras

O imortal Moacyr Scliar se autodenominava um contador de histórias; Todorov é exaltado por sua destreza como tal. Eu, como professora, além de fã, sou adepta da contação, uma arte milenar que, mesmo em tempos de alta tecnologia, continua a entreter, educar e transformar crianças, adolescentes e adultos. Por isso, decidi usar este espaço para compartilhar com vocês uma das minhas histórias preferidas: o mito grego de Procusto ou “a cegueira do desconhecimento”.

 

Certa feita, Procusto, um malfeitor que morava numa floresta, na região de Elêusis, mandou fazer uma cama que tinha exatamente as medidas de seu corpo, nem um milímetro a mais; nem um milímetro a menos. A partir de então, sempre que capturava uma pessoa na estrada, Procusto amarrava-a na cama. Se a pessoa fosse maior do que a cama, ele simplesmente cortava fora o que sobrava. Se fosse menor, ele espichava a vítima e a esticava até caber naquela medida.

 

O mito de Procusto, assim como a maioria das histórias, permite inúmeras leituras, releituras… interpretações – por parte do leitor/ouvinte – cada uma delas tão importante e válida quanto as outras. A que ofereço diz que a simbologia por trás desse mito representa a intolerância diante do outro, do diferente, do desconhecido. Representa a visão de mundo totalitária daqueles que desejam moldar tudo e todos à própria imagem e semelhança. É a recusa da multiplicidade, da diversidade, da criatividade, da originalidade.

 

Procusto ou “a cegueira do desconhecimento” esteve presente, por exemplo, na consciência dos juízes de Sócrates, quando o condenaram à morte por ter “corrompido” a juventude ateniense; no imaginário dos soldados romanos que perseguiram e mataram cristãos por seguir uma religião que se opunha ao paganismo e à figura sagrada do Imperador; continuou presente no Tribunal da “Santa” Inquisição que condenou à fogueira todos aqueles contrários aos seus dogmas: Joana D´Arc, Giordano BrunoGalileu Galilei só foi poupado por ter negado suas teorias científicas;  na falta de critério dos reis absolutistas; nas revoluções burguesas; no processo de escravidão mercantil; na formação dos partidos nazifascistas; no extermínio de milhões de judeus nos campos de concentração; nas Guerras Mundiais

 

O espírito de Procusto, presente em vários períodos da história da humanidade, infelizmente, continua ainda hoje a exercer seu poder induzindo o homem ao preconceito, ao sectarismo, à intolerância.

 

E como combatê-lo? Imbuindo-se do espírito de Hermafrodito – filho da deusa Vênus (Afrodite) e do deus Mercúrio (Hermes) – que simboliza a união do Amor e do Conhecimento cuja resultante é a Sabedoria.

 

Portanto para soltar-se dos grilhões de Procusto, “tempere” seu dia a dia com Amor. Acrescente-o às atitudes que têm consigo, com o próximo, com seu trabalho, com o ambiente, com o meio-ambiente, enfim, com tudo que o circunda e ainda mais. E busque ampliar seu conhecimento, bem de valor inestimável, valorizando aqueles e aquilo que possam transmiti-lo: a natureza, os animais, os mais velhos, seus professores e os mestres que carregam consigo a sabedoria de todos os tempos – os livros.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 57

Adaptado do texto “Sobre Procusto, Hermafrodito e a Contação de História”

*Cláudia S. Coelho, coordenadora editorial das revistas Conhecimento Prático Literatura e Conhecimento Prático Língua Portuguesa da Editora Escala Educacional, é graduada em Letras e especialista em Psicopedagogia e Tradução. É professora de Língua Portuguesa, com ênfase em redação e gramática, Língua Inglesa e Português para estrangeiros. E-mail: claucoelho@uol.com.br