O escritor Chico Buarque

Este espaço é dedicado à vida e à carreira daquele que dispensa apresentações – Chico Buarque de Hollanda –, que em 2017 comemora, além de 73 anos de idade, 53 anos de carreira.

Por Cláudia S. Coelho* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Você com certeza associa a figura de Francisco Buarque de Hollanda (Rio de Janeiro, 1944), ao cantor, ao compositor, talvez, por vezes, ao dramaturgo, quiçá ao ator, e por que não ao escritor? Ah!, ia-me esquecendo, ao jogador de futebol amador, cuja paixão pelo esporte é tamanha que construiu um campo de futebol society para seu time – o Politheama.

 

Mas como entender sua polivalência? Sua mestria independentemente da área de atuação?

 

Um dos caminhos é retornar às raízes e conhecer sua trajetória.

 

Filho de Sérgio Buarque de Hollanda, importante historiador, sociólogo e jornalista brasileiro, e de Maria Amélia Cesário Alvim (1910–2010), pintora e pianista, Chico nasceu, no que se poderia chamar, de berço esplêndido, o que lhe permitiu ter contato em seus anos de formação com a alta cultura da época, convivendo com intelectuais, escritores, músicos… formadores de opinião, até se tornar um deles.

 

Artista profícuo, autor de mais de 400 canções, lançou aproximadamente 80 discos – entre eles álbuns-solo, em parceria com outros músicos e compactos –, musicou espetáculos de dança e teatro, escreveu quatro peças teatrais, participou como roteirista e/ou ator de cinco filmes, escreveu sete livros, dos quais três – Estorvo (1991), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009) – lhe renderam  o Prêmio Jabuti de melhor ficção – tornando-se em 2010 o primeiro escritor, em 52 edições da tradicional premiação literária brasileira, a receber três vezes o prêmio na categoria melhor ficção.

 

Chico escreveu seu primeiro conto aos 18 anos de idade e aos 20 compôs Tem mais samba, música feita sob encomenda para o musical Balanço de Orfeu, considerada por ele o marco zero de sua carreira. A partir de 1966, ao lançar seu primeiro álbum – Chico Buarque de Hollanda – e vencer o Festival de Música Popular Brasileira com sua composição A Banda, na voz de Nara Leão, sua carreira tomou impulso. Ainda em 1966, casou-se com Marieta Severo – união que durou 33 anos e teve como fruto três filhas: Sílvia, Helena e Luísa. Chico conheceu a atriz durante os ensaios de Roda Viva (1968), peça dirigida por José Celso Martinez (Araraquara, 1937), sua primeira incursão na área da dramaturgia. O início do relacionamento com a atriz marcou sobremaneira a trajetória de Chico. Foi a partir de então que ele deixou de ser o compositor lírico-parnasiano de “estava à toa na vida…” e “Carolina, os seus olhos fundos…”, uma espécie de “namoradinho do Brasil”, para ser o líder da resistência da MPB contra a ditadura. Em 1969, autoexilou-se na Itália, devido à crescente repressão do regime militar no Brasil nos chamados “anos de chumbo”, tornando-se, ao retornar ao país, em 1970, um dos artistas mais atuantes na luta pela democratização do país e na crítica política, postura que adota até hoje.

 

Chico Buarque e Marieta Severo

 

Bem, passemos agora aos fatos, fotos, detalhes, curiosidades e cronologia deste ícone da Música Popular Brasileira.

 

Em 19 de junho, sob o signo de gêmeos, nasceu na Maternidade São Sebastião, no Largo do Machado, Rio de Janeiro, o tímido e reservado Francisco Buarque de Hollanda. Tão tímido, tão tímido, que Elis Regina, a “Pimentinha”, após ter vencido o Festival de Música Popular Brasileira em 1965, ao travar contato com o compositor desistiu de gravá-lo devido à impaciência com sua timidez. Sorte nossa que posteriormente Elis mudou de opinião e gravou Chico Buarque.

 

Em 1946, o pai foi nomeado diretor do Museu do Ipiranga, e Chico passou a morar na capital paulista. Foi então que conheceu, entre outros intelectuais, Oscar Niemeyer.

 

Anos 1950

O pai, Sérgio Buarque, em 1953, foi convidado a assumir a cátedra de Estudos Brasileiros na Universidade de Roma e a família mudou-se para a Itália. Nessa época, o sempre curioso Chico, em vez de obedecer aos pais e ir para a cama à hora devida, costumava ficar “instalado” no alto da escada da residência dos Buarque de Hollanda ouvindo a conversa dos pais com os amigos. A casa da família era frequentada por várias personalidades da cultura brasileira, entre elas Vinicius de Moraes, de quem, mais tarde, Chico se tornaria amigo e parceiro. Foi também nessa época que o precoce compositor escreveu suas primeiras “marchinhas de carnaval”.

 

Memoráveis sambas de enredo

 

Em 1955, a família voltou ao Brasil e passou a morar em um casarão na Rua Buri, a poucos quarteirões do estádio do Pacaembu.

 

Embora Chico fosse um torcedor apaixonado pelo Fluminense do Rio, seu grande ídolo, Paulo César de Araújo, o Pagão, vestia a camisa número 9 do Santos FC. Em homenagem ao craque, até hoje Chico adota seu nome quando veste a camisa número 9 de seu time de futebol – o Politheama. Alguns amigos brincam, afirmando que Chico só se tornou músico porque não conseguiu brilhar no futebol. Quem sabe? Talvez seu lado compositor tenha falado mais alto, tanto que sua irmã Ana de Hollanda, a “Baía”, conta que, já de volta a São Paulo, Chico compôs umas “operetas” que eram cantadas em conjunto com as irmãs mais novas, Ana Maria, Cristina e Piii.

 

 

Elvis Presley

Seu interesse pela música era tamanho que, além dos sambas tradicionais de Noel Rosa, Ismael Silva, Ataulfo Alves, também ouvia canções estrangeiras. Entre seus cantores preferidos estavam o belga Jacques Brel e os norte-americanos Elvis Presley e o grupo The Platters.

 

Mas foi o disco Chega de saudade, de João Gilberto, que alterou definitivamente sua relação com a música. Ele o ouvia tão insistente e repetidamente que chegava a irritar os vizinhos. Nem mesmo sua irmã Miúcha, que mais tarde se casaria com João Gilberto, suportava ouvir sempre o mesmo som. O sonho do jovem compositor na época era “cantar como João Gilberto, fazer música como Tom Jobim e letra como Vinicius de Moraes”.

 

Sua primeira composição Canção dos olhos foi escrita nesse período.

 

 

Anos 1960

Suas primeiras crônicas foram criadas entre 1961 e 1962 quando, ainda estudante do Colégio Santa Cruz, criou um jornal que batizou de Verbâmidas. Seu sonho à época era ver seus escritos publicados nas grandes revistas semanais ao lado de cronistas consagrados.

 

No entanto, sua primeira aparição na imprensa não foi na seção cultural, mas, sim, nas páginas policiais do jornal Última Hora de São Paulo.

 

Chico e um amigo furtaram um carro para dar “umas voltas” pela madrugada paulista – prática comum entre os adolescentes. A diversão acabou na cadeia e a pena imposta pelo juiz estipulava que até que completasse 18 anos Chico não poderia sair sozinho à noite. Chico buscou então trilhar caminhos tradicionais, tanto que, em 1963, atendendo a um desejo da avó, ingressou na FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – curso que abandonaria em 1966, alegando tempos  depois ter trocado os traços de Niemeyer pelos de Tom Jobim, motivado pelo clima de repressão que tomou conta das universidades após o golpe militar de 1964, ano que marcaria uma verdadeira revolução na Música Popular Brasileira.

 

O ano de 1964 foi icônico para o jovem Chico, pois foi nesse ano que lançou Tem mais samba, música feita sob encomenda para o musical Balanço de Orfeu, o marco zero de sua  carreira.

 

A partir de 1965, na contramão da ditadura militar, novos talentos começaram a despontar na Música Popular Brasileira, abrindo caminho para a era dos festivais.

 

Os Festivais da Música Popular Brasileira foram uma série de programas transmitidos por algumas emissoras da televisão brasileira (TV Excelsior, TV Record, TV Rio,  Rede Globo) entre os anos de 1965 a 1985 que, além de revelar grandes compositores e intérpretes da nossa música, entre eles Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré, consolidaram a música popular brasileira.

 

Ainda em 1965, Chico aparece ao lado de Eva Wilma e John Herbert na telenovela Prisioneiro de um sonho, da extinta TV Tupi, na qual é apresentado como “um dos craques da bossa nova”.

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Nesse mesmo ano, faz as músicas para o poema Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, cuja montagem teatral ganha os prêmios de crítica e público no IV Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França.

 

O ano de 1965 ainda traria muitas surpresas para o jovem Chico. Foi nele que conheceria Gilberto Gil, Caetano Veloso e, de quebra, receberia seu primeiro cachê – 50 mil cruzeiros, cerca de 30 dólares da época – por sua participação no espetáculo O Momento é a bossa, promovido por Walter Silva.

 

Em 1966, A Banda dividiu com Disparada, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, o primeiro lugar no II Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela Record. A composição – sucesso imediato de venda, com mais de 100 mil cópias em uma semana – foi saudada com uma crônica de ninguém menos do que o poeta Carlos Drummond de Andrade: … Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando. 

 

Ainda em 1966, Chico mudou-se para o Rio de Janeiro e lançou seu primeiro LP, Chico Buarque de Hollanda.

 

Foi nesse ano que ocorreu seu primeiro embate com a censura. A música Tamandaré, incluída no repertório do show Meu refrão (com o grupo MPB-4 e Odette Lara), foi proibida após seis meses em cartaz por conter frases consideradas ofensivas ao almirante Tamandaré – como a que segue abaixo –, patrono da Marinha, cujo rosto aparecia na antiga cédula de um cruzeiro:

Zé qualquer tava sem samba, sem dinheiro 

Sem Maria sequer 

Sem qualquer paradeiro 

Quando encontrou um samba Inútil e derradeiro

Numa inútil e derradeira Velha nota de um cruzeiro…  

 

Nesse mesmo ano, o polivalente Chico realizou seu primeiro trabalho para o público infantil compondo as músicas para a peça O patinho feio e conheceu a companheira com  quem partilhou 33 anos de sua vida, Marieta Severo Lins.

 

Em 1967, entre outras realizações, estreou como ator no cinema, ao lado de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão e Ronnie Von, no filme Garota de Ipanema, de Leon Hirszman, interpretando ele mesmo. Em meio a inúmeros shows pelo Brasil, gravou seu segundo LP, Chico Buarque de Hollanda, volume 2.

 

Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

 

A partir de 1968, seu engajamento político se tornou cada vez mais patente. Participou no Rio de Janeiro da “Passeata dos Cem Mil” – manifestação que reuniu estudantes, artistas e intelectuais em protesto contra a ditadura militar. Em represália, um grupo do CCC – Comando de Caça aos Comunistas – invadiu o teatro Galpão, em São Paulo, onde a peça Roda Viva (1968) estava sendo encenada, depredou as instalações e espancou atores e técnicos da montagem.

 

Após a decretação do Ato Institucional nº 5 em 1968 – instrumento que deu ao regime militar poderes absolutos e cuja primeira consequência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano –, Chico, em virtude das consequências de sua participação na “Passeata dos Cem Mil” e das atitudes repressivas quanto à Roda Viva, em 1969, partiu para a Itália em autoexílio.

 

 

Anos 1970

Em março de 1970, Chico retornou ao Brasil e nesse mesmo ano compôs Apesar de você, uma resposta crítica ao regime ditatorial no qual o país ainda estava imerso. Surpreendentemente, a música passou incólume pela censura prévia e se tornou uma espécie de hino da resistência à ditadura. Entretanto, após vender cerca de 100 mil cópias, a canção foi censurada, o disco foi retirado das lojas e até a fábrica da gravadora foi fechada.

 

Para o público, não havia dúvidas: o “você” da música era, sem dúvida, o general Emílio Garrastazu Médici, o então presidente da República, que governou o Brasil de 30 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974, em cujo governo foram cometidas as maiores atrocidades contra os opositores do regime. Chico, com sua ironia sagaz, ao ser interrogado sobre quem era o “você” da canção, respondeu: “É uma mulher muito autoritária”. Mesmo assim, após esse episódio, o cerco às suas composições endureceu.

 

1972

Em 1972, o polivalente Chico voltou ao cinema como ator, estrelando o filme Quando o Carnaval Chegar, de Cacá Diegues. Ainda nos anos 1970, voltaria a fazer músicas para mais dois filmes de Cacá Diegues – Joanna Francesa, de 1973, e Bye Bye, Brasil, de 1979 – e inauguraria o “Centro Recreativo Vinicius de Moraes”, no Rio de Janeiro, local onde joga regularmente suas “peladas” e disputa campeonatos pelo seu time, o Politheama.

 

Em pé: Fernando Peixoto, Novelli, Zico, Vinícius França Agachados: Ruy Solberg, Chico Buarque, Júnior, Carlos Alberto

 

Em 1973, escreveu, com Ruy Guerra, a peça Calabar, ou o elogio da traição, cuja ação se passava no Brasil Colônia. Proibida pela censura, a peça  somente seria liberada anos depois, em 1979. Em 1975, ganhou, como melhor autor por seu trabalho em Gota d´água, o Prêmio Molière (1963 – 1991) – concedido à época a expoentes no campo teatral. No entanto, o irreverente Chico, em protesto contra a censura, que proibira peças de vários autores, não compareceu à cerimônia de entrega do prêmio.

 

 

Anos 1980

Em 1980, a pedido da bailarina Marilena Ansaldi, fez as músicas para a peça Geni. Lançou também o LP Vida, que continha, entre outras, a música Eu te amo, feita especialmente para o filme homônimo de Arnaldo Jabor. Em 24 de abril de 1982, morre Sérgio Buarque de Hollanda.

 

 

Anos 1990

Em 1991, Chico lançou seu primeiro romance, Estorvo, com o qual ganhou seu primeiro Prêmio Jabuti de Literatura, e após um jejum de quatro anos sem gravar, em janeiro de 1994 sobe aos palcos para fazer o show do disco Paratodos.

 

Em 1995, lançou seu segundo romance, Benjamim, que a despeito de ter recebido críticas desfavoráveis por parte da crítica literária, foi sucesso de vendas e recebeu elogios de grandes nomes da literatura.

 

Chico publicou no folheto Poemas, testemunhos, cartas, um texto intitulado A casa do Oscar em homenagem a Oscar Niemeyer, um dos intelectuais com quem conviveu desde a infância, pois fazia parte do círculo de amigos do pai Sérgio Buarque de Hollanda quando a família morou em São Paulo.

 

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Em 1998, foi o homenageado do desfile em que a Mangueira, sua escola de coração, se sagrou campeã do carnaval do Rio de Janeiro.

 

Em 1999, Chico, percorreu o Brasil com o show As Cidades, partindo, em seguida, em turnê pelo exterior. Chico apresentou-se na Inglaterra e Itália. No espetáculo, sucesso absoluto de público e crítica, Chico cantava e tocava dez das onze músicas do CD homônimo, o qual contém canções consagradas como Vai passar, O meu amor e Construção.

 

 

Anos 2000

“Chico ousou muito, escreveu muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram  os trabalhos executados com mestria, o da linguagem, o da construção narrativa, o do simples fazer. Não creio enganar-me que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.” José Saramago sobre o romance Budapeste de Chico Buarque de Hollanda.

 

Em 2003, Budapeste, seu terceiro romance, foi publicado. O livro ficou na lista dos mais vendidos por diversos meses e foi traduzido para mais de seis idiomas. Em 2009, publicou Leite Derramado, seu terceiro romance a ganhar o Prêmio Jabuti na categoria Melhor Ficção. Bem, o restante fica a cargo da curiosidade do leitor.

 

 

 

*Cláudia S. Coelho é graduada em Letras e especialista em Psicopedagogia e Tradução.

Contato: claucoelho@uol.com.br 

Adaptado do texto “Parabéns, Chico Buarque”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 53