O ensino de Literatura

Reflexões sobre leitura, currículo e letramento literário

Por José Marinho do Nascimento* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Dado o contexto de baixo grau de letramento em que a maioria dos alunos e professores estão inseridos, é preciso se perguntar: o que é ler construindo sentidos? Valendo-se dos estudos de Thérien (1990), Jouve (2002, p. 17-18) lembra que a leitura é um processo que se desenvolve multidirecionalmente. Numa primeira dimensão, é um processo neurofisiológico, uma vez que recorre a certas faculdades cerebrais do ser humano. O leitor percebe, identifica e memoriza signos. O movimento que faz com o olho não é linear. Assim, não capta palavra por palavra, mas uma sequência determinada de signos e, nesse percurso, salta sequências desimportantes, antecipa outras, não lê determinados fonemas ou palavras, completa o que falta e assim por diante. É sempre subjetivo este ato de ler e ele não tem existência a não ser a partir do conhecimento prévio que se tem de como se estrutura a língua e também o texto por ela materializado.

 

Aprendizagem Significativa

 

Se o leitor tem problemas para esta decifração inicial, ou seja, se somente consegue ler juntando fonemas em sílabas e sílabas em palavras, muito possivelmente não terá apreendido o sentido inicial necessário para fazer o texto produzir sentido. Em muitos casos, uma alfabetização deficiente – que tem se desdobrado também em atividade leitora deficiente – impede o sucesso nesta dimensão da leitura do texto escrito. As constantes frustrações do leitor se tornam o motivo principal para seu afastamento da atividade leitora, uma vez que não vê resultado em seu esforço. O professor do Ensino Fundamental e, sobretudo, o do Ensino Médio têm podido fazer muito pouco pelo seu aluno. Não há tempo nem formação pedagógica suficiente para superar as deficiências do processo, sem comprometer o trabalho que lhe cabe com a turma.

 

A leitura é também um processo cognitivo, possível se não houver problema no processo inicial. “Depois que o leitor percebe e decifra os signos, ele tenta entender do que o texto trata. A conversão das palavras e grupos de palavras em elementos de significação supõe um importante esforço de abstração”, diz Jouve (2002, p. 18). Trata-se de compreender, ainda que minimamente, o que está “acontecendo”, o que se passa no texto lido a partir da percepção e da decifração dos signos. Não basta, portanto, ler competentemente uma sequência se não se perceber a ligação entre os fatos, as ações inerentes à narrativa, as coesões entre as imagens de um poema, as ideias disseminadas pelo autor. O conhecimento linguístico e enciclopédico, que vai se fazendo cada vez mais necessário na atividade de leitura, precisa ser suficiente para o estabelecimento de correlações internas e externas, sem as quais cessa a produção de um sentido mínimo para que a leitura avance.

 

A leitura literária tem também uma dimensão afetiva (JOUVE, 2002, p. 19). Depois de se compreender reflexivamente o que se passa no texto lido, ocorre um inevitável e importante processo de identificação. O leitor sente: emociona-se, admira-se, tem raiva, ri, chora… Esta relação emocional com o texto é um dos fatores que nos mantém na atividade leitora. O envolvimento com o mundo da ficção é o ingrediente mais poderoso neste processo, uma vez que somos capturados pelos personagens com os quais nos identificamos, com a atmosfera poética que se vai construindo no momento mesmo da leitura. Se não nos enxergamos no mundo erigido pela leitura, é pouco provável que avancemos na atividade.

 

Um professor pode, de fato, ajudar a sentir uma obra. Ele aponta para aspectos linguísticos, temáticos, semânticos; desvela os recursos da escritura ou chama a atenção para a linguagem inusitada empregada pelo escritor, chega, muitas vezes, a contagiar alunos com a sua leitura e, com isso, cumpre um papel relevante de formação. À escola, cabe o papel de proporcionar o acesso, criar condições para que haja um espaço em que a leitura tome acento e seja ela o conteúdo. Em tese, a escola conta com a presença de leitores com graus maiores de letramento, como é o caso do professor, e é, sobretudo, um espaço privilegiado para se formar uma comunidade de leitores (COSSON, 2015). “O letramento literário precisa da escola para se concretizar, isto é, ele demanda um processo educativo específico que a mera prática de leitura de textos literários não consegue sozinha efetivar”, dizem Souza e Cosson (2015, p. 102).

 

A aceitação de que existe um relacionamento afetivo com a obra literária nos encaminha para outra dimensão da leitura, a argumentativa. Qualquer obra representa a vontade criadora de alguém, é uma ação humana, a ação de um sujeito historicamente construído. É um discurso que, juntando-se a outros, quer agir sobre o mundo: “Qualquer que seja o tipo de texto, o leitor, de forma mais ou menos nítida, é sempre interpelado. Trata-se para ele de assumir ou não para si próprio a argumentação desenvolvida.” (JOUVE, 2002, p. 22). Neste sentido, Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, compõe um texto no qual o autor, Machado de Assis, argumenta em favor de uma teoria a respeito da realidade em que todos estamos imersos, interpelando o leitor por meio do seu discurso, instigando-o a se posicionar, revisar, alterar, pôr em cheque, inverter seu próprio ponto de vista.

 

Lecionar me ensinou a ler

 

Sem o desenvolvimento desta capacidade de perceber em que espaço de discussão se insere o mundo construído pelo texto, a produção do sentido fica prejudicada. Uma obra literária – como qualquer texto – é um intertexto, ou seja, uma retomada de outro texto existente (este também fruto de uma vontade criadora), com o qual dialoga, quer por convergência, quer por divergência. Se a intertextualidade é explícita, o leitor é ajudado pela presença do discurso anterior e pode, então, com menos dificuldade, estabelecer correlações. “Em se tratando de intertextualidade implícita, o que ocorre, de maneira geral, é que o produtor do texto espera que o leitor/ouvinte seja capaz de reconhecer a presença do intertexto, pela ativação do texto-fonte em sua memória discursiva” (KOCH, 2015, p. 144).

A leitura da obra literária precisa ser entendida como o conteúdo do ensino-aprendizagem cujos resultados se desdobram ao longo da vida do aluno-leitor. Nesta perspectiva, é uma prática que necessita da escola porque é esta que, de modo privilegiado, congrega a diversidade de saberes, a pluralidade de ideias, a produção de outros saberes. Mais do que a possibilidade de conhecer outros tempos e espaços, a competência leitora alimentada pelo letramento literário se torna mecanismo de autoconhecimento e de formação cidadã.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 61

Adaptado do texto “Ensino de Literatura: reflexões sobre leitura, currículo e letramento literário”

*José Marinho do Nascimento é professor nos cursos de Letras e de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), Santo André (SP). Contato: josemarinho80@hotmail.com