O Drácula na cultura popular

Se vampiros existem ou não, o folclore europeu disseminou séculos de histórias acerca dos desmortos e a cultura popular os abraçou definitivamente, reinventando o mito, modernizando ou simplesmente voltando às raízes por trás de seculares superstições.

Por Adilson de Carvalho Santos* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Drácula não foi o primeiro livro de vampiros da história, sendo publicado depois de Vampyre (1819) de John Polidori e Carmila (1871) de Sheridan Le Fanus. Contudo o livro do escritor irlandês Abraham Stoker (1847 – 1912) é certamente o mais famoso e longevo, inspirado na figura histórica do príncipe romeno Vlad Tepes que governou a região da Valáquia, atual Romênia, combatendo os invasores turcos com requintes de crueldade notória. Vlad, o empalador, fincava uma estaca de madeira no peito de seus inimigos e bebia seu sangue. A mente criativa de Stoker soube unir todos esses elementos na figura de Drácula, nome da família de Vlad, ligada à Ordem do Dragão – linhagem religiosa do auge do Império Romano. Contudo, o livro de Stoker não foi um sucesso imediato, como muitos pensam, e apesar de elogios, por exemplo de Sir Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes), o público leitor da época parecia repudiar a história do conde vampiro que leva seu reinado de terror para a Inglaterra Vitoriana. A narrativa epistolar de Stoker é feita toda em primeira pessoa através de cartas e diários pertencentes aos personagens humanos: o advogado Jonathan Harker, sua noiva Mina, o Dr. Seward, Quincy Morris, e é claro, o Professor Abraham Van Helsing. Ainda que Stoker nunca tenha visitado o Leste Europeu, onde fica a Transilvânia, seu livro é de admirável perfeição descritiva, envolvente e instigante para a sociedade reprimida do final do século XIX. A mordida do vampiro funcionava como metáfora para o orgasmo e para a sexualidade reprimida dos leitores vitorianos. Logo, o vampiro não apenas desafiava a ordem natural da vida e da morte, mas também a conduta moral de toda uma sociedade. Além disso, o conde vampiro era a figura de um nobre que se alimentava do sangue de burgueses e camponeses, o que permite múltiplas análises da figura literária de Dracula.

 

Em 1922 o diretor alemão F.W. Murnau adaptou o romance de Stoker sem a permissão da viúva de Stoker. Mesmo modificando os nomes dos personagens, Nosferatu, com Max Shreck como o conde Orlock, não evitou um processo movido por Florence Stoker. A passagem do tempo, no entanto, lhe fez justiça já que cópias do filme foram redescobertas muito tempo depois, alçando o filme ao status de clássico do expressionismo alemão, e para muitos a melhor versão de Drácula, ainda que não oficial. Refilmado em 1979 pelo alemão Werner Herzog com Klaus Kinski no papel que foi de Schreck, o filme ainda gerou a curiosa adaptação A Sombra do Vampiro (Shadow of a Vampire) de 2003, que teorizava que Shreck era um vampiro de verdade.

 

Anos depois do filme de Murnau, a obra de Stoker era um sucesso nos palcos londrinos em uma adaptação escrita por Hamilton Deane, desta vez com o consentimento da família de Stoker. A montagem da peça foi levada até a Broadway por John Balderstone trazendo o ator húngaro Béla Lugosi no papel central. Os direitos de filmagem da peça foram comprados pela Universal, que contratou o diretor Tod Browning. Com a morte do ator Lon Chaney, inicialmente cogitado para o papel, Tod contratou Lugosi que lançou as bases para o imaginário popular: o terno e capa preta de acordo com sua condição aristocrática, os cabelos penteados para trás, o olhar hipnótico (realizado com um feixe de luz lançado diretamente sobre seus olhos) e o forte sotaque em falas marcantes como “Ouça-os, crianças da noite!”, incluída entre as 100 mais memoráveis falas do cinema de acordo com o AFI (American Film Institute).

 

Abraham Stoker

 

O visual impressionante deixava, no entanto, de fora as famosas presas do vampiro, deixando para a voz e o olhar de Lugosi a função de assustar as plateias. No mesmo cenário que o filme de Béla Lugosi, o diretor George Melford preparou uma versão em espanhol, visando o mercado latino e apresentando Carlos Villarias como Drácula. Lugosi, no entanto, ganhou a eternidade e mesmo falecendo em 1956, depois de amargar anos no ostracismo e de trabalhar em filmes de baixíssimo orçamento com Ed Wood, foi associado ao personagem para sempre. Além de ter sido enterrado trajando a capa do personagem, virou até música, a hipnótica “Béla Lugosi is dead”, da banda pós-punk Bauhaus, e que foi usada, em 1982, na trilha sonora do filme Fome de Viver (The Hunger), de Tony Scott, uma modernização do mito sobre vampiros.

 

A primeira refilmagem

Em 1958, animada com a bem-sucedida refilmagem de Frankenstein um ano antes, os estúdios Hammer reinventaram o personagem para o público com Drácula – O Vampiro da Noite (Dracula), dirigido por Terence Fisher. Esta trazia a figura do ator inglês Christopher Lee como um Drácula mais sedutor e assustador, mostrando as presas sujas de sangue a cada vítima. Diferente do livro de Bram Stoker, Drácula não aparece envelhecido e rejuvenescendo a cada vítima. O filme também inverte os papéis de Mina e Lucy e mostra Jonathan Harker propositalmente chegando aos castelo do vampiro para matá-lo. Hammer acentuava a sensualidade mostrando mulheres voluptuosas em cenários de vampirismo, góticos. Mesmo tendo apenas 13 falas em todo o filme, Christopher Lee tornou-se o Drácula de toda uma geração, revivendo o papel mais sete vezes: Dracula Prince of Darkness (1966), Dracula Has Risen From The Grave (1968), Taste the Blood of Dracula (1969), Scars of Drácula (1970), Dracula A.D (1972) e The Satanic Rites of Dracula (1974). Depois ainda apareceu em uma versão alemã de 1970 dirigida por Jesus Franco. Foi o intérprete mais prolífico do personagem, o Drácula de uma geração que consumia filmes em casa através da televisão. Ao longo das décadas seguintes, o rei dos vampiros foi adaptado para as HQs, na série A Tumba de Drácula de grande sucesso, escrita por Marv Wolfman e desenhada por Gene Colan. A década de 70 ainda teve Jack Palance em uma versão para a TV dirigida por Dan Curtis em 1973, roteirizada por Richard Matherson; a violenta versão produzida por Andy Warhol em 1974, intitulada Blood for Dracula, com o ator alemão Udo Kier como o vampiro; e William Marshall em Blácula, onde um príncipe africano torna-se a versão blackexploitation do personagem. 1979 foi o ano do vampiro com vários filmes de Drácula nas telas. Além da já mencionada refilmagem de Nosferatu, dirigida por Werner Herzog, houve também a versão de Drácula (mais uma vez baseada na peça teatral), dirigida por John Badham e estrelada por Frank Langella como Drácula e Sir Laurence Olivier como Van Helsing, e a comédia Amor à Primeira Mordida (Love at First Bite) com George Hamilton, que chegou a ganhar o Saturn Award (prêmio dado ao gênero fantástico) e foi indicado ao Golden Globe.

 

Drácula no Brasil

O sucesso de Drácula em tantas releituras setentistas chegou à TV brasileira através da telenovela Drácula – Uma História de Amor, escrita pelo renomado crítico de cinema e escritor Rubens Ewald Filho. A novela trazia o conde romeno, interpretado pelo ótimo Rubens de Falco, ao município paulista de Paranapiacaba em busca de seu filho Rafael (Carlos Alberto Riccelli), mas o conde se apaixona por Mariana (Bruna Lombardi), que é a reencanação de sua amada. Dirigida por Walter Avancini, a novela teve quatro capítulos transmitidos pela TV Tupi, entre janeiro e fevereiro de 1980, sendo então interrompida quando a emissora carioca entrou em falência. Cinco meses depois, a novela reestreou na Rede Bandeirantes, rebatizada de Um Homem Muito Especial e com a direção de Antonio Ambujamra. O cineasta Ivan Cardoso realizou em 1986 As Sete Vampiras, megulhando no clima camp com sucesso. O vampirismo só voltaria para a teledramartugia brasileira nos anos 90 com Vamp, trazendo Ney Latorraca em uma divertida e marcante atuação como o conde Vlad. Ainda haveria mais tarde em 2002 O Beijo do Vampiro, com Ney Latorraca no papel de Nosferatu.

 

 

O Drácula de Coppola

Em 1992, Francis Ford Coppola realizou uma pretensa adaptação definitiva do livro de Stoker entitulada Drácula de Bram Stoker, com Gary Oldman, Wynona Ryder, Keanu Reeves e Anthony Hopkins. No entanto, apesar de capturar o espírito da obra literária, o filme funde o personagem vampiro ao Vlad Tepes histórico e reinventa sua relação com Mina, que no livro não vai além da relação de um predador voraz atrás de sua presa, sem o romantismo empregado por Coppola. O filme foi muito bem sucedido e foi premiado com três Oscars: melhor figurino, efeitos sonoros e maquiagem, além de ter sido indicado ao BAFTA (Oscar Britânico) e Saturn Awards. A releitura de Coppola levou os estúdios a revisitar os clássicos do gênero, como Frankenstein de Mary Shelley, e a dar nova roupagem a outros monstros, como lobisomens e múmias.

 

 

Depois de Coppola vieram Leslie Nielsen, na paródia de Mel Brooks Drácula – Morto mas Feliz; Gerard Butler em Drácula 2000; o afetado Richard Roxburgh no decepcionante Van Helsing – o Caçador de Monstros; Dracula 3D, a versão de Dario Argento de 2012; além de Adam Sandler como a voz do personagem na animação Hotel Transilvânia. Drácula já apareceu em animações, HQs, séries de TV (a mais recente, com Jonathan Rhyes Myers, foi cancelada), ganhou um novo livro – uma sequência oficial em 2009 escrita pelo sobrinho-neto de Stoker – e migrou para os videogames no famoso Castlevania. Hoje Drácula é uma das obras literárias mais lidas e adaptadas para outras mídias, e sua influência se faz sentir nas obras de escritores como Stephen King, Anne Rice, e até mesmo Stephanie Meyer, autora de Crepúsculo. O fascínio do personagem resiste ao tempo e certamente outras adaptações mais cedo ou mais tarde surgirão. Se os vampiros existem, não importa, mas para o imaginário da cultura pop indubitavelmente são eternos!

 

 

*Adilson de Carvalho Santos é professor formado em Letras, bacharel em Inglês – Literatura (UERJ); leciona e é assistente-colaborador do crítico Rubens Ewald Filho.

E-mail: samejames@ig.com.br /Blog: cineonline.wordpress.com

Adaptado do texto “Drácula renasce’

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 59