O Casmurro Bentinho – Parte II

Por Thiago Sobreira de Paiva* e Edmilson José de Sá**| Foto: Wikimedia| Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Dom Casmurro é um exemplo da habilidade de Machado de Assis — e um nome como passou a ser chamado — como romancista, comprovado, aliás, em toda a sua obra.

 

Na visão do escritor e jornalista paraense José Veríssimo Dias de Matos (1857 – 1916), trata-se do conto sobre um homem inteligente, porém simples, que desde rapazinho se deixa iludir pela moça que amara ainda menina e que o enfeitiçara com a sua faceirice calculada, com a sua profunda ciência congênita de dissimulação, a quem ele se dera com todo ardor compatível com o seu temperamento pacato.

 

Ela o enganara com o seu melhor amigo, também um velho amigo de infância, também um dissimulado, sem que ele jamais o percebesse ou desconfiasse. Somente o veio a descobrir quando o amigo querido lhe morre num desastre. Um olhar lançado pela mulher ao cadáver, aquele mesmo olhar que trazia “não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”, o mesmo olhar que outrora o arrastara e prendera a ele, e que ela agora lançava ao morto, lhe revela a infidelidade dos dois. Era impossível em história de um adultério levar mais longe a arte de apenas insinuar, advertir o fato sem jamais indicá-lo.

 

Primeiras impressões sobre Bentinho

Logo no início da leitura da obra de Machado, é possível notar a alegria em que vive o personagem Bentinho na antiga casa materna, onde viveu durante toda a sua mocidade e lá nasce o sentimento por sua então amiga de infância, Capitu. Porém, situações adversas parecem modificar a personalidade de Bentinho, daí a necessidade de apresentar possíveis pontos em que o narrador demonstra mudanças de comportamento, ciúmes e insegurança com sua amada Capitu, a convivência entre ambos desde a infância que se transforma em paixão durante a adolescência, a sua ida ao seminário e sua vida adulta.

 

Na obra de Machado, Bentinho é criado de forma mimada por sua mãe, dona Glória, que como ele mesmo relata no livro, era uma boa criatura. Viúva, mas ainda jovem dona Glória vive na casa na Rua de Matacavalos com seu irmão Cosme e sua prima Justina. Ambos também viúvos. Além de Bentinho, sua mãe e seus tios, também vive o agregado da família, José Dias.

 

É possível notar que durante toda essa fase, Bentinho demonstra ser um garoto feliz, com seu sentimento pela Capitu, essa uma jovem dita por ele mesmo, a mais linda de todas as criaturas e, como dizia José Dias, com os olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Capitu desperta em Bentinho sentimentos únicos, esses sentimentos fazem com que Bentinho comece a desejar cada vez mais estar com sua amada. Até que chega a época de colocá-lo no seminário, onde lá irá cumprir uma promessa feita por sua mãe.

 

Ao partir, Bentinho sente-se angustiado com o pensamento de virar padre, mesmo não sendo de seu interesse ou, como o autor do livro trata, pela falta de vocação, mas a maior preocupação é, sem dúvidas, a de deixar Capitu. Com a falta de possibilidade de abrir mão da promessa de sua mãe, Bentinho, com a persuasão de Capitu, faz um acordo com o agregado José Dias, e afirma: “E Capitu tem razão, pensei, a casa é minha, ele é um simples agregado… jeitoso é, pode muito bem trabalhar por mim, e desfazer o plano de mamãe.” ( p.47).

 

O Casmurro Bentinho

 

Mesmo o agregado da família, o senhor José Dias, não é capaz de interferir na vontade de dona Glória de mandar o filho para o seminário. Com isso, propõe a Bentinho ir ao seminário, e lá deixar passar um tempo até poder manifestar a sua falta de vocação. Isso acontecendo, poderá ir para Europa estudar leis, mas a sua maior preocupação era a de deixar Capitu e a insegurança de saber se ela iria esperá-lo por tanto tempo. Até que, sem mais ter como apelar, Bentinho propõe um juramento com Capitu:

Não há de ser assim, continuei. Dizem que não estamos em idade de casar, que somos crianças, criançolas — já ouvi dizer criançolas. Bem, mas dois ou três anos passam depressa. Você jura uma coisa? Jura que só há de casar comigo?

Capitu não hesitou em jurar, e até lhe vi as faces vermelhas de prazer. Jurou uma, duas vezes e mais uma terceira. ( p.95)

 

Capitu jura cumprir o seu juramento, ainda que Bentinho venha a casar-se com outra. Para Bentinho, Capitu temia a separação, mas acaba aceitando.

 

Na sua ida ao seminário, Bentinho conhece um seminarista chamado Ezequiel de Sousa Escobar. Bentinho descreve Escobar como um “rapaz esbelto, de olhos claros um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo”. Bentinho diz que aos poucos foi sendo seduzido pelas palavras de Escobar, a ponto de quase contar-lhe toda a história

 

A defesa de Capitu: um indício de inocência?

Como reforço de sua defesa, Capitu acrescenta ainda que como poderia haver algo entre ela e o rapaz que a observava, se ele ia se casar com uma moça dos Barbonos, mas que, mesmo assim, evitaria ir à janela para impedir qualquer nova equivocação.

 

Com essas situações pode-se notar as mudanças de comportamento apresentadas por Bentinho: quando ele demonstra sentimentos macabros, gerados por manifestação de ciúmes por Capitu, que em outra situação já se transformam em sentimentos de arrependimento por suas atitudes, demonstrando, assim, a sua fragilidade diante do ocorrido.

 

Em sua volta ao seminário, Bentinho decide contar a Escobar sobre o seu segredo com Capitu, por ser seu único amigo e, como o próprio narrador detalha, por ser a única que pessoa que tinha lhe entrado no coração. E abre-lhe o jogo sobre sua ida ao seminário e seus planos de não terminar o curso e não se tornar padre, e para sua surpresa, Escobar confessa-lhe que também não tem intenção nem de ser padre e nem de terminar o curso, pois sua verdadeira paixão é o comércio, ficando entre eles um segredo pelo outro.

 

Passado algum tempo, Bentinho consegue livrar-se da promessa de sua mãe, depois que o Padre Cabral, tendo consultado o bispo, disse que sim. E assim saiu do seminário aos 17 anos, direto aos estudos das leis, passando dos 18 até os 22 anos, quando se torna bacharel em Direito. Depois desse tempo, veio finalmente o casamento com Capitu em uma tarde chuvosa de março, no ano de 1865, como narra o próprio Dom Casmurro. Durante a primeira semana de casados, voltaram ao passado e se divertiam em relembrar as tristezas e calamidades. Após a primeira semana, Capitu mostrou interesse em visitar o pai. Embora o próprio narrador diga que a verdadeira impaciência que atormentava Capitu eram os sinais exteriores do novo estado civil, afirmando que: “não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também” (ASSIS, 2015, p.175). O mesmo sentia o agora adulto Bento Santiago, ao dizer que chegava a inventar passeios para que os vissem, confirmassem e o invejassem por estar com aquela bela moça. Quando não estavam com a família iam a alguns eventos, como bailes, e nos bailes Capitu enfeitava-se com amor. Uma noite em que foi com os braços nus fez com que seu esposo sentisse incômodo por achar que os outros homens a olhassem com desejo. Mais uma vez, um sinal de insegurança diante da situação. Insegurança tão exagerada que após duas idas, não chegou a ir a mais de dois bailes.

 

Depois de alguns anos, finalmente tiveram o primeiro filho, chamado Ezequiel, embora mesmo a chegada desse filho não tenha mudado as atitudes de Santiago sobre a esposa, como ele mesmo relata no capítulo 113:

 

Por falar nisso, é natural que me perguntes se, sendo antes tão cioso dela, não continuei a sê-lo apesar do filho e dos anos. Sim, senhor, continuei. A tal ponto que o menor gesto me afligia, a mais ínfima palavra, uma insistência qualquer; muita vez só a indiferença bastava. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsas, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança. (p.190)

 

 

 

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Conhecimento prático – Literatura Ed. 71

*Thiago Sobreira de Paiva é graduado em Letras pelo Centro de Ensino Superior de Arcoverde (PE); email: thiasdp6@gmail.com

**Edmilson José de Sá é doutor em Linguagem e Cultura (UFPB) e professor de Literatura Comparada no Centro de Ensino Superior de Arcoverde (PE); email: edmilsonjsa@hotmail.com