O amor em diferentes formas nas poesias

O amor pode ser um tema de literatura, mas de acordo com boa parcela da crítica não interessa tanto assim o tema mas o modo como ele é tratado. O amor, portanto, há de ser considerado condição desse tipo de linguagem.

Por Roberto Sarmento Lima* | Foto: | Adaptação web Caroline Svitras

Dizer que há poemas de amor é considerar que a escrita é amorosa, podendo o tema até ser outro (a guerra, por exemplo). Mas é amorosa essa escrita ainda naquele sentido costumeiro segundo o qual se pode sussurrar, ao pé do ouvido da pessoa amada, palavras de carinho e, no mesmo circuito, possibilitar a entrega física. No poema “Guerra”, de Mário Quintana, a solidariedade semântica que faz ligar-se uma palavra com outra faz do cenário bélico uma paisagem calidamente amorosa, onde aviões formam uma chuva suave (suave, mas triste, embora sem o peso da dor que advém do contexto brutal de uma guerra) e se tornam cruzes ao tocar o solo, quase um beijo de amor:

 

“Os aviões abatidos
são cruzes caindo do céu”

 

O som sibilante que percorre o poema ajuda a criar esse clima e é quase um sussurro enquanto o horror mesmo se transfigura em lição cristã de amor ao próximo. Imaginemos, pois, que linguagem e propensão para esse tipo de escrita, nessa operação verbal, se realizem ao mesmo tempo que se começa a compor o poema… Assim, teríamos, simultaneamente, vivência real de uma sensibilidade e prática efetiva da escrita, tudo concentrado no mesmo conjunto de coisas, na mesma ação.

 

Em resumo, a história é esta: se se entende ingenuamente que o poema é de amor, como se diz em vulgar, entende-se, na mesma proporção, que quem escreve tal poema está, na hora em que o formula, tomado ainda pelo ímpeto amoroso, quase em transe, excitado nos seus sentidos. Claro que não ocorre isso! Porque, para compor o poema, se tem de pensar na escolha das palavras e das imagens, na organização dos versos (se há rima ou não, se há isometria ou não neles). E, convenhamos, escrever nessas condições nervosas e ao mesmo tempo sentir o amor aflorar na pele é algo que nunca soube que se tenha realizado.

 

A leitura sob o olhar poético de Mario Quintana

 

Quem ama ama, ora! O amor é intransitivo, já dizia Mário de Andrade. O objeto dissolve-se ou realiza-se no entrecruzar de braços e pernas, situação em que dois, para dizer o mínimo, é um. Quem ama não pode parar o que vinha fazendo, com toda aquela agitação e volúpia que fervem nas veias, para escrever o poema; pois, se parar, lá se foi pelo ralo abaixo o fogo amoroso que levou, momentos antes, o sujeito a dançar toda aquela dança que tão bem conhecemos. Porque satisfazer os ímpetos da carne, naquela queimação incorrigível, é algo que não encontra compatibilidade com a iniciativa e prontidão de pegar do papel e da caneta para compor um poema (e, se quiser fazer tudo isso no computador, pior ainda, já que o uso dessa tecnologia envolve alguns momentos de espera, entre ligar o aparelho e pô-lo para funcionar). Concordam comigo? Se concordam é porque já amaram (ou já escreveram poemas). E amaram bem (e devem ter gostado também de escrever); e — nesse polissíndeto amoroso e caprichoso, peguento e pegajoso que desenvolvo aqui — devem saber o que eu estou dizendo.

 

E (para continuar no polissíndeto), isso o que acabei de dizer, claro, vale para todos os tipos de amor: do pai e da mãe para o filho, assim como do homem para a humanidade. Seja lá o que for e para quem quer se dirija o amor, a sensação de viver os afetos só existe enquanto estes duram e enquanto não se faz outra coisa — muito menos escrever — e só se faz mesmo é sentir a explosão do afeto. Por falar de amor de pai para filho, lembro aqui o poema “Cântico do Calvário”, de Fagundes Varela, feito em homenagem ao menino Emiliano, que morre com apenas três meses de vida, em 1863, quando o pai-poeta tinha 22 anos de idade. No ano seguinte, 1864, Varela, presumivelmente já recomposto, escreve esse poema, que é, sim, sentido e caloroso, mas ao mesmo tempo aplacado em sua dor de pai. Não poderia ele ter escrito esse poema na hora da morte do pequeno; do papel não sairia nada que fosse significativo, pois o sofrimento no seu auge não é compatível com a racionalização da escrita, seu planejamento, sua concentração na composição do texto. Só quando o amor se atenua ou se apaga é que o texto literário, querendo evocar o dramático episódio vivido, se realiza com mais segurança, cioso do seu artesanato. Aliás, a propósito de “Cântico do Calvário”, como bem notou Massaud Moisés em seu A Literatura Brasileira Através dos Textos, em um breve comentário que só vim a perceber agora, neste começo de agosto de 2017, depois de tantos anos de trabalho, “a temperatura das estrofes acompanha de perto a do sentimento que revolve o poeta, como se, pela verbalização, o tormento fosse diminuindo gradativamente, numa progressão que culmina no apaziguamento final” (os grifos são meus). Lúcida, não, a observação do crítico? Como se vê, assim que entra o Verbo, sai o Amor.

 

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Adaptado do texto “A Literatura e o amor”

*Roberto Sarmento Lima é professor doutor da Universidade Federal de Alagoas. Autor do livro O Narrador ou o Pai Fracassado: Revisão Crítica e Modernidade em Vidas Secas, publicado em 2015 pela OmniScriptum/Novas Edições Acadêmicas, em Saarbrücken, Alemanha. (sarmentorob@uol.com.br)