Nossa primeira escritora

Entre as diversas efemérides que merecem destaque em 2017 estão as comemorações pelos 192 anos de nascimento da maranhense Maria Firmina Dos Reis, possivelmente a primeira romancista a publicar um livro de própria autoria no brasil.

Por José Neres* | Adaptação web Caroline Svitras

 

Durante décadas, a escritora e sua produção intelectual foram relegadas ao esquecimento, mas, nos últimos anos, vêm chamando a atenção de diversos pesquisadores, principalmente pelo seu caráter de pioneirismo no campo das artes literárias e da educação. Hoje, graças aos relevantes esforços de estudiosos como Horácio de Almeida e Nascimento Morais Filho, a escritora maranhense começa a contar com uma razoável fortuna crítica distribuída em livros, dissertações, teses e artigos de caráter científico, alguns disponíveis na internet, para quem pretenda aprofundar-se no assunto. Estudiosos como Luíza Lobo, Algemira Macedo Mendes, Adriana Barbosa de Oliveira, Claunísio, Juliano Carrupt do Nascimento, Norma Telles, Agostinha Régia da Silva, Eduardo de Assis Duarte e Dilercy Aragão Adler têm se debruçado sobre a obra da escritora ludovicense, e trazido à tona olhares às vezes diferenciados, porém, complementares sobre a vida e a obra da autora de Gupeva. E essa fortuna crítica aos poucos vem ganhando volume com estudos acadêmicos que estão em fase de andamento em diversas universidades brasileiras. Uma prova de que a escritora, aos poucos, vai saindo do esquecimento e ganhando projeção.

 

Um pouco sobre Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825 e faleceu na cidade de Guimarães, em 11 de novembro de 1917, aos 92 anos de idade, “solteira, pobre, cega e desconhecida da crítica de seu tempo”, como nos informa a competente pesquisadora Luíza Lobo. Considerada filha bastarda, foi registrada como filha pelo casal João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Bem cedo, mal completados seus primeiros cinco anos de vida, mudou-se para a cidade maranhense de Guimarães. Ao longo de sua vida, enfrentou preconceitos de diversos tipos por ser pobre, mulher e mulata, em uma sociedade que valorizava os bens materiais e na qual a mulher era vista apenas como peça de decoração e de procriação e onde o mulato era tratado como animal de carga, não tendo  vez nem voz, Maria Firmina desafiou diversos paradigmas vigentes na época e conseguiu fazer carreira no campo intelectual e no profissional, sendo inclusive aprovada em concurso público para o cargo de professora de instrução primária.

 

Confira a análise do conto “O ovo e a galinha”

 

Atuando no magistério, Maria Firmina escreve e luta contra as situações as quais considerava injustas, vocações essas parecem ter sido suas desde cedo, e que a acompanharam ao longo de toda a vida. Segundo informações de Nascimento Moraes Filho, incansável pesquisador a quem devemos grande parte das informações sobre a vida e a obra dessa autora, mesmo após sua aposentadoria ela continuou envolvida com a sala de aula, e acabou levantando polêmica ao fundar uma escola mista, provavelmente a primeira fundada no Maranhão com essa diretriz pedagógica.

 

Úrsula em foco

Sobre o mais conhecido e divulgado trabalho de Maria Firmina dos Reis, o romance Úrsula, publicado em 1859, uma obra admirada por muitos pesquisadores, desprezada por outros e totalmente ignorada por alguns, recorremos à síntese elaborada pela professora Luíza Lobo, que, de maneira didática, traça os principais pontos da obra. Comenta a autora de Crítica sem Juízo que: “O livro focaliza o amor impossível de dois jovens brancos. Tancredo e Úrsula são impedidos de se casarem pelo perverso tio desta, que se apaixonara por ela. Úrsula e Tancredo se escondem, mas Tancredo é assassinado pelo tio dela na porta da igreja, quando chega para o casamento. O trágico evento leva Úrsula à loucura, numa cena semelhante à de Ofélia, no Hamlet. Posteriormente, o tio se arrepende e se converte a padre. Este triângulo amoroso destruído tem outro paralelo: o pai de Tancredo, também malvado, se apaixona e se casa com a noiva que o filho ia desposar, antes de conhecer Úrsula. Tancredo relata esse evento em flashback a Úrsula, após seu acidente de cavalo, justamente quando fugia, infeliz, da própria casa. Desacordado, ele é levado pelo escravo Túlio onde Úrsula mora com sua mãe. Agora, Úrsula, além de cuidar da mãe doente, se ocupa também da recuperação do rapaz.”

 

A vida de Agatha Christie

 

O conflito e a torrente que conduz as personagens a finais trágicos, juntamente com outros diversos aspectos da obra, permitem à pesquisadora classificar o romance como uma obra ultrarromântica. Longe de discordar da autoridade intelectual de Luíza Lobo, podemos acrescentar a reflexão de que no livro, mesmo em prosa, há a confluência e características inerentes aos três momentos classicamente estudadas como fases da poesia romântica. De um lado há a exaltação da natureza pátria, como pode ser percebido na ênfase da autora no descritivismo da exuberância natural da pátria, conforme pode ser visto logo no primeiro parágrafo do livro:

 

“São vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma – branco lençol de espuma, que não ergue marulhadas ondas, nem brame irado, ameaçando insano quebrar os limites, que lhe marcou a imponente mão do rei da criação.”

 

O clima tétrico e o próprio enredo da narrativa, que se evolui para o final trágico das personagens, remetem à segunda fase do Romantismo, nesse olhar ultrarromântico detectado por Luíza Lobo. O tripé Amor/Morte/Loucura está estreitamente encadeado no romance, ligando personagens, situações e destinos em uma lógica que não trai as expectativas do leitor de obras românticas. Complementando esse pensamento, podemos ainda dizer que o paralelismo das múltiplas narrativas que formam o romance conflui para que, em muitos casos, a história de uma personagem encontre uma imagem especular no passado de uma outra personagem, que vê sua vida refletida e revisitada pela história que se repete. Por outro lado, a romancista também recorre, mesmo que de modo não tão enfático, às ideias abolicionistas que marcaram o período condoreiro de nossas letras românticas.

 

Maria Firmina dos Reis

 

As personagens negras – Túlio, Suzana e Antero – embora não sejam protagonistas, são de vital importância para o desenrolar de algumas partes do enredo, seja como elementos essenciais para a composição das peripécias, como é o caso de Túlio, que aparece em pontos capitais da história, seja como forma de reflexão sobre os diversos aspectos da dicotomia escravidão/ liberdade, como é o caso de Suzana e de Antero. Mesmo não sendo as personagens centrais do romance, as personagens negras recebem um tratamento especial. Susana, Túlio e Antero não são tratados de forma convencional, saindo da padronização comum às obras publicadas até então sobre os escravos, e ganham matizes mais naturais, em que saudade e sofrimento se misturam a heroísmo e amizade sincera. O negro deixa de ser reificado e passa a ser humanizado, sem, contudo ter destruída sua aura de idealização romântica. Mesclar essas temáticas que eram bastante utilizadas pelos demais escritores românticos de forma isolada parece ser também uma das marcas do pioneirismo dessa escritora que não se contentou em deixar suas marcas na educação e na prosa brasileira, tendo também grande atuação na arte de transformar palavras e pensamentos em poesia.

 

 

Firmina: uma pioneira

A pátria, o amor e a liberdade do negro são algumas de suas temáticas mais recorrentes. Não é à toa que ela escreveu, a fim de comemorar a notícia da assinatura da lei que libertou os negros das agruras da escravidão que ela compôs o Hino à Libertação dos Escravos, demonstrando um interesse além das artes de das ideias de pioneirismo, e demonstra seu intrínseco interesse pela parte mais essencial da vida que é a noção de ser humano — independentemente de credo, raça ou gênero. Seu pioneirismo ia além das atividades em sala de aula. Hoje, essa escritora é reconhecida como pioneira em diversas áreas da literatura, escrevendo e publicando, além do hoje relativamente bem divulgado romance Úrsula, também poemas, letras de hinos, charadas e um álbum de memórias no qual destaca passagens de sua vida, suas angústias e ansiedades.

 

O pioneirismo da escritora maranhense, contudo, nem sempre foi reconhecido. Até a década de 1970, quando o pesquisador Nascimento Morais Filho começou a rastrear as publicações da autora de Gupeva, os historiadores e críticos literários dividiam entre Nísia Floresta e Teresa Margarida da Silva e Orta a condição de primeira mulher a publicar obra literária no Brasil. Hoje, mesmo após sérios e competentes estudos de diversos intelectuais, ainda não se vê, infelizmente, o nome de Maria Firmina dos Reis recebendo o merecido destaque. Seus livros raramente são reeditados e os estudos a seu respeito circulam quase que exclusivamente nos meios acadêmicos. O caminho do reconhecimento é sempre tortuoso e a escritora, como se adivinhasse que poderia cair no esquecimento, certa vez escreveu: “É sempre assim difícil colher flores/ Sem sentir lancinante, agudo espinho”.

 

 

* José Neres é professor de Literatura da Faculdade Atenas Maranhense e da Faculdade Santa Fé.

Adaptado do texto “Maria Firmina dos Reis: nossa primeira romancista”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 58